quinta-feira, 12 de março de 2026

[Daqui e Dali] Uma história de amor: O menino e o cão

Humberto Pinho da Silva

Eu tinha doze a treze anos, não mais, quando minha mãe declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso bailando nos finos lábios encarnados, vermelhos e acetinados como cerejas:

"Este ano vamos passar o mês de agosto a Trás-os-Montes…”

A imaginação infantil excitou-se: pelos meus olhos de criança, logo surgiu a pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de sol acariciador, sob o bom e cálido manto azul do Vale da Vilariça.

Nessa noite, que me pareceu eterna, percorri as macadamizadas ruas da aconchegante povoação, aninhada nas fraldas da serra de Bornes.

Vi – como vi! – as cacarejantes galinhas à mistura com pachorrentos marrecos, cevados e esqueléticos cachorros, que livremente circulam pelas calçadas, cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e o pobre centeio, que vegeta pelas serras.

Vi a desmedida pá do forno comunitário, colhendo das incandescentes brasas pães redondinhos, estaladiços, saborosos e fumegantes.

Na manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro, junto à janela para melhor observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a vau.

Em Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá Correia, o “Rossas" levou-nos em velha viatura até à “Quinta do Bem”, onde o prestável feitor, festivamente, nos acomodou.

Pouco depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se afeiçoou a mim.

Sempre que passeava pelo negro asfalto da estrada ou me embrenhava pelos matagais, em vales e montes, o Nero acompanhava-me.

Abandonara, de todo, a obrigação de guarda da Quinta; e era feliz, ladeando-me, e dormindo a sesta estirado no esfregado soalho.

Certa ocasião, ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha mãe –, deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu e tirou uma fotografia.  

Clarisse Barata Sanches, conhecida como "A poetisa de Góis”, teve conhecimento e publicou poema no "Varzeense", acompanhado de foto.

Tenho oitenta e tal anos, mas guardo com saudade o recorte da gazeta.

Ainda me recordo do amigo Nero, que na hora da despedida gemeu, chorou, uivou de saudade...

Como seria sua vida após a minha partida?

Os cães também têm sentimentos: também amam, gemem e choram...

Título, Imagem e Texto: Humberto Pinho da Silva, março de 2026

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