Humberto Pinho da Silva
Eu tinha doze a treze anos, não mais, quando minha mãe
declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso bailando nos
finos lábios encarnados, vermelhos e acetinados como cerejas:
"Este ano vamos passar o mês de agosto a
Trás-os-Montes…”
A imaginação infantil excitou-se: pelos meus olhos de
criança, logo surgiu a pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de
sol acariciador, sob o bom e cálido manto azul do Vale da Vilariça.
Nessa noite, que me pareceu eterna, percorri as
macadamizadas ruas da aconchegante povoação, aninhada nas fraldas da serra de
Bornes.
Vi – como vi! – as cacarejantes galinhas à mistura com
pachorrentos marrecos, cevados e esqueléticos cachorros, que livremente
circulam pelas calçadas, cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e
o pobre centeio, que vegeta pelas serras.
Vi a desmedida pá do forno comunitário, colhendo das
incandescentes brasas pães redondinhos, estaladiços, saborosos e fumegantes.
Na manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro,
junto à janela para melhor observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a
vau.
Em Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá
Correia, o “Rossas" levou-nos em velha viatura até à “Quinta do Bem”, onde
o prestável feitor, festivamente, nos acomodou.
Pouco depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se afeiçoou a mim.
Sempre que passeava pelo negro asfalto da estrada ou
me embrenhava pelos matagais, em vales e montes, o Nero acompanhava-me.
Abandonara, de todo, a obrigação de guarda da Quinta;
e era feliz, ladeando-me, e dormindo a sesta estirado no esfregado soalho.
Certa ocasião, ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha mãe –, deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu e tirou uma fotografia.
Clarisse Barata Sanches, conhecida como "A
poetisa de Góis”, teve conhecimento e publicou poema no "Varzeense",
acompanhado de foto.
Tenho oitenta e tal anos, mas guardo com saudade o
recorte da gazeta.
Ainda me recordo do amigo Nero, que na hora da
despedida gemeu, chorou, uivou de saudade...
Como seria sua vida após a minha partida?
Os cães também têm sentimentos: também amam, gemem e
choram...
Título, Imagem e Texto: Humberto Pinho da Silva,
março de 2026
A morte começa quando nascemos
Nova corte na aldeia
Sem diploma não se passa de habilidoso
Mudam-se os tempos; mudam-se os conceitos
Se ainda não tem, compre um
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