Aparecido Raimundo de Souza
Guardou o grito na garganta, e o
coração ficou mais pulsante, quase as raias de ter um treco. A cabeça ficou
lisa por dentro, apesar dos cabelos cor de neve por fora. Se duvidasse, algum
consanguíneo mais descuidado poderia até escorregar e levar um tombo memorável,
daqueles de deixar sequelas.
A segunda rusga, digo, ruga, veio no
canto do olho, esquerdo, atropelando o olho direito acentuadamente pele fato de
ser um pouco mais coesa, ou mais funda. Foi no dia em que meu pai Roberto
nasceu. Veio ao mundo prematuramente. Ela sorriu para a enfermeira num pedido
silencioso para ela não assustar o menino. Se assustasse... O sorriso ficou no
ar. O medo também. Virou risquinho feito à bico de lápis de ponta fininha.
Depois teve outras rugas.
Rugas de sol, de contas atrasadas,
de feijão queimado, de geladeira vazia, de botija sem gás, de armário de
mantimentos acumulando poeira. Sem contar as rugas pela falta de luz e pela
ausência de papel sanitário no banheiro para limpar a bunda. Teve também rugas
de espera. Rugas de espera são aquelas que aparecem entre as sobrancelhas,
unicamente pelo fato de permanecerem na janela vendo não a rua, mas se o ônibus
do neto chegava logo ou demoraria para provar que poderia atrasar o quanto
quisesse e ninguém careceria de falar nada, nem reclamar...
Um dia contei 73 primaveras. Ela
riu. Ela quem? A primavera.
— Tá contando errado, meu filho. Tem
as que não aparecem. Tipo as rugas das coisas que engoli, tipo sapos, cobras,
essas coisas do dia a dia...
Quando a vó Martinha morreu, ou seja, para ser mais exato, quando ela deixou de viver e se aperreou de respirar e resolveu, de vez, ficar em estado defuntivo, os caras da funerária passaram base no rosto dela.
Taparam tudo. A velhinha ficou nova,
se mostrou lisa, desconhecida, se fez assobrerjética e camaliosa. Mais
camaliosa que assobrerjética. Parecia que tinham apagado a infeliz do mapa.
Chorei com vontade e o fiz não por
saudade. Foi de raiva. Roubaram as rugas dela.
Hoje tenho 73 anos e três rugas. Já
tive, 72, 71,70... uma ruga apareceu na testa, inventou de segurar emprego que
não gostou. Duas rugas no olho, me fazem escangalhar de rir das histórias da
nossa vizinha Emengarda.
São minhas primeiras rugas. Outro
dia me peguei passando creme anti-idade. Parei. Olhei no espelho. O espelho fez
uma cara feia. De poucos amigos. Riu. Ri também. Pensei na vó, toda marcada,
toda viva. Ruga não é velhice. É biografia. É prova robusta e cabal provando
por “a” mais “b” que a gente não desviou da vida quando ela se abancou de voo
rasante num avião desgovernado.
Então deixa riscar. Deixa virar
mapa. Quero chegar no fim da minha vida todo endereçado, com bairro, esquina,
CEP e nome de pessoas e avenidas famosas. Com que finalidade? Simples a resposta. Pra quando a minha neta
Ellen perguntar “vô, que risco é esse ai?”, eu responder:
— Esse, minha filha? Esse foi pelo
motivo da sua avó ter me pedido em namoro. E eu disse sim, sim eu aceito, e, de
fato, aceitei antes dela terminar a frase. Desde esse dia, morremos de tédio
todo santo dia. Perdemos o viço aos pouquinhos. Um pouquinho, entenda, é melhor
que um porcão, digo, pocão.
Para mim, hoje sei, pele lisa é como
página em branco. Página sem nada, sem coisa alguma escrevinhada. E eu, que
droga de vida, eu não nasci para ser rascunho. Eu vim ao mundo, nasci, cresci,
me fiz literato para ser lido, tocado, gravado, infernizado, amado, odiado,
imortalizado.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 1-5-2026
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Todos ao meu redor estão indo...
A insustentável leveza do Toledo
Galeria de breves instantes

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