sexta-feira, 1 de maio de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Uma historinha besta, tipo essas assim, sem pé nem cabeça

Aparecido Raimundo de Souza

A MINHA AVÕ Martinha Maciel, dizia que ruga é endereço. Cada linha no rosto é rua onde a vida passou, gostou do pedaço e resolveu morar. Fixar residência de vez. A primeira ruga (segundo ela) nasceu na testa, após nove meses, isso em mil novecentos e antigamente. Foi quando meu avô João Raymundo chegou bêbado, quase pelado, as mãos nos bolsos e ela decidiu não brigar. “Brigar cansa. Ruga só marca.”

Guardou o grito na garganta, e o coração ficou mais pulsante, quase as raias de ter um treco. A cabeça ficou lisa por dentro, apesar dos cabelos cor de neve por fora. Se duvidasse, algum consanguíneo mais descuidado poderia até escorregar e levar um tombo memorável, daqueles de deixar sequelas.

A segunda rusga, digo, ruga, veio no canto do olho, esquerdo, atropelando o olho direito acentuadamente pele fato de ser um pouco mais coesa, ou mais funda. Foi no dia em que meu pai Roberto nasceu. Veio ao mundo prematuramente. Ela sorriu para a enfermeira num pedido silencioso para ela não assustar o menino. Se assustasse... O sorriso ficou no ar. O medo também. Virou risquinho feito à bico de lápis de ponta fininha. Depois teve outras rugas.

Rugas de sol, de contas atrasadas, de feijão queimado, de geladeira vazia, de botija sem gás, de armário de mantimentos acumulando poeira. Sem contar as rugas pela falta de luz e pela ausência de papel sanitário no banheiro para limpar a bunda. Teve também rugas de espera. Rugas de espera são aquelas que aparecem entre as sobrancelhas, unicamente pelo fato de permanecerem na janela vendo não a rua, mas se o ônibus do neto chegava logo ou demoraria para provar que poderia atrasar o quanto quisesse e ninguém careceria de falar nada, nem reclamar...

Um dia contei 73 primaveras. Ela riu. Ela quem? A primavera. 

— Tá contando errado, meu filho. Tem as que não aparecem. Tipo as rugas das coisas que engoli, tipo sapos, cobras, essas coisas do dia a dia...

Quando a vó Martinha morreu, ou seja, para ser mais exato, quando ela deixou de viver e se aperreou de respirar e resolveu, de vez, ficar em estado defuntivo, os caras da funerária passaram base no rosto dela.

Taparam tudo. A velhinha ficou nova, se mostrou lisa, desconhecida, se fez assobrerjética e camaliosa. Mais camaliosa que assobrerjética. Parecia que tinham apagado a infeliz do mapa. Chorei com vontade e o fiz não por  saudade. Foi de raiva. Roubaram as rugas dela.

Hoje tenho 73 anos e três rugas. Já tive, 72, 71,70... uma ruga apareceu na testa, inventou de segurar emprego que não gostou. Duas rugas no olho, me fazem escangalhar de rir das histórias da nossa vizinha Emengarda.

São minhas primeiras rugas. Outro dia me peguei passando creme anti-idade. Parei. Olhei no espelho. O espelho fez uma cara feia. De poucos amigos. Riu. Ri também. Pensei na vó, toda marcada, toda viva. Ruga não é velhice. É biografia. É prova robusta e cabal provando por “a” mais “b” que a gente não desviou da vida quando ela se abancou de voo rasante num avião desgovernado.

Então deixa riscar. Deixa virar mapa. Quero chegar no fim da minha vida todo endereçado, com bairro, esquina, CEP e nome de pessoas e avenidas famosas. Com que finalidade?  Simples a resposta. Pra quando a minha neta Ellen perguntar “vô, que risco é esse ai?”, eu responder: 

— Esse, minha filha? Esse foi pelo motivo da sua avó ter me pedido em namoro. E eu disse sim, sim eu aceito, e, de fato, aceitei antes dela terminar a frase. Desde esse dia, morremos de tédio todo santo dia. Perdemos o viço aos pouquinhos. Um pouquinho, entenda, é melhor que um porcão, digo, pocão.

Para mim, hoje sei, pele lisa é como página em branco. Página sem nada, sem coisa alguma escrevinhada. E eu, que droga de vida, eu não nasci para ser rascunho. Eu vim ao mundo, nasci, cresci, me fiz literato para ser lido, tocado, gravado, infernizado, amado, odiado, imortalizado.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 1-5-2026 

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