Aparecido Raimundo de Souza
A música que toca agora e me faz
lembrar de nós, tem nas vozes suaves da Vicky & Denis, o tom tonitruante de
um amor imperecível, de um gostar que não se acaba, de uma paixão que resiste
ao vento, que se adapta ao tempo, que se amolda as dores, se agarra as
tristezas, se entristece aos dissabores e, sobretudo, sobrevive pujantemente
restabelecida às cicatrizes que a vida vai nos deixando lentamente no corpo e
na alma. Eu parei, de repente, no sinal vermelho. Estanquei com as mãos ainda
no volante, e imagine, que coisa louca. Não deixei em nenhum momento, de pensar
em você.
Pensei que a gente sempre imagina o
amor eterno como algo grandioso, como as histórias de filmes românticos que
duram séculos, que atravessam oceanos e guerras, ventanias e tufões, que tem
seus nomes escritos em prédios e casas, pedras e montanhas, porém, que ninguém,
nem coisa alguma consegue mover.
Mas o nosso não é assim. Como não? Pense, meu amor: o nosso amor é eterno, não há dúvidas. Cabe nos dias pequenos, nas horas mortas, nos minutos que se foram. Se amoldam nos detalhes que ninguém mais percebe, a não ser nós dois. Ele incrivelmente cabe no jeito que você ainda me deixa o café com leite com exatamente as duas colheres de açúcar, que eu já tenha dito mil vezes que quero diminuir, mesmo que os anos passem e a nossa rotina mude. Ele também se identifica na forma que você dorme com a mão encaixada na minha, a outra em cima do meu coração, notadamente nas noites em que a gente brigou por uma coisa boba, tipo a novela que eu acho chata, ou pelos filmes dos tempos da ronca, que eu gosto de ver, sempre as surradas bobeiras repetidas, mesmo que um de nós esteja com raiva o suficiente para não falarmos por horas, as nossas mãos sempre encontram uma a outra, no escuro, e nesse grude, se abraçam sem pedir licença.
Elas se comungam nas cicatrizes que
temos juntos: a do dia em que você perdeu a “Kika,” a sua cadelinha de
estimação, o nosso emprego quase ao mesmo tempo, o dia em que a nossa filha
adoeceu e passamos três noites em claro indo e voltando ao UPA e depois, em
outra noite, das brigas bobas pela posse do controle remoto, e também por causa
do feijão que você deixou queimar, por causa de nada que valha a pena ser
lembrado hoje. Todas essas marcas não acabaram com o amor. Elas é que fizeram
ele ficar forte o suficiente para ser cicatrizado em nosso “eu” interior de
forma eterna.
Eu já pensei muito no que significa
essa palavra: eterno. Deixa eu tentar explicar.
Eterno, não é a gente viver para
sempre, ou ficar de mãos dadas, sem nunca envelhecer, sem nunca sentir dor.
Isso não existe. Eterno é saber que, mesmo quando os cabelos a cada dia vão
ficando mais brancos e as pernas não aguentam mais andar muito longe, eu ainda
vou querer sentar do seu lado no sofá surrado da sala, espiar a noite chegar, o
na manhã seguinte admirar embasbacado vendo o sol se pôr e ouvir você contar a
mesma história da “Kika” que atravessou a rua da nossa casa e foi atropelada
por um vizinho desmiolado, a história que eu já sei de cor e salteado há
trocentos anos, mas que ainda ouço como se fosse a primeira vez.
Eterno, minha namorada da vida inteira
é saber que, a nossa filha cresceu, casou, partiu em busca da sua própria vida.
E nós ficamos aqui. Ficamos no mesmo lugar, na mesma cidade, no mesmo canto. Se
um dia a vida nos separar por qualquer motivo que não pudermos controlar, saiba
que o seu cheiro do sabonete de coco ainda vai estar presente nos lençóis. O
seu jeito de dormir de conchinha, idem, bem ainda, a maneira de como você tira
a calcinha e, logicamente, o jeito de mexer o açúcar dando três voltas exatas
no meu café dentro da xícara de asa quebrada. Enfim, todos esses pequenos mimos
ainda vão estar imperecíveis na minha memória.
De contrapeso, o som engraçadinho da
sua risada, sem tirar nem pôr, entrará retumbando nos meus ouvidos como essa
minha música que elegi como a minha favorita e gravei em uma sequência
interminável, que ao chegar na última nota, o celular repete sem interrupção ao
repeteco em que assanha as paredes do meu coração e restabelece a minha alma
fazendo a ferver numa ebulição de felicidade imorredoura. O amor não acaba
quando a vida finda. Ele só muda de lugar. Passa do dia a dia dentro do peito,
e lá no que conhecemos como “amago”, ele fica, quieto, calado, olhando,
espiando, sorrindo, e o melhor de tudo: nos venerando, num para sempre ad
aeternum
E assim sempre será
Nosso amor eterno,
Como o céu e o mar
Sol do amanhecer
Eu e você
Noite e luar...
Sol do amanhecer
Eu e você
Noite e Luar...
Como o brilho do sol
No azul sem fim
Como um farol
Na escuridão surgir
Assim eu vejo você
Meu grande amor
Brilhando em mim
Assim eu vejo você
Meu grande amor
Brilhando em mim...
Voarei no céu
Como um beija flor
Escrevei no ar
Poemas de amor
Seu amor é tudo
Somente tudo
Tudo eu te dou
Sou amor é tudo
Somente tudo
Tudo eu te dou... (1)
Nós não fizemos promessas grandiosas no
dia em que viemos morar juntos. Não juramos mover montanhas, não prometemos um
amor que atravessasse mundos. Nós só juramos que, nos dias difíceis, a gente
iria segurar a mão um do outro mais forte. Que quando um estivesse cansado, o
outro carregaria o peso por um pouco. Que nunca iríamos dormir sem antes trocar
um “amor, eu te amo”, por mais que estivéssemos com raiva, com ódio, ainda que
a voz saísse baixa e emburrada. E essas promessas pequenas são as que realmente
duram. São elas que fazem o amor ser eterno, não as frases bonitas que a gente
diz para os outros ouvirem.
Hoje, quando cheguei em casa, você
estava na cozinha, mexendo uma panela. A luz do teto caindo no seu cabelo que
já tem alguns fios brancos que você insiste em não pintar. Você virou, me viu
parado na porta, e sorriu, se abriu naquela ternura antiga, suave, terna, se
solidificou naquele sorriso bucólico que ainda faz o meu coração dar um salto,
imagine, depois de todos esses anos, levando em conta o fato de que eu a veja
incansavelmente todos os dias. E nesse momento eu entendi o que a música estava
falando. Nosso “Amor eterno” não é algo que a gente encontra por acaso, como
uma pedra preciosa de valor inestimável no meio do caminho.
O Eterno é algo que a gente constrói,
todos os dias, um tijolo de cada vez: com paciência de Jó, com perdão, com
carinho nos detalhes que ninguém mais percebe. Só nós. É saber, igualmente,
que, não fará a menor diferença o que venha pela frente. Não importa quantos
anos passem. Não fará falta quantas marcas a vida, ao sabor do acaso
incomensurável queira deixar em nós. Você é a pessoa com quem eu quero viver
todos os meus dias, até o último. Até a Terra nos estreitar os olhos, nos
cobrir os corpos, nos desunir por sepulturas construídas uma ao lado da outra.
Um dia, quando nossos arroubamentos se desapartarem, creia, amor meu, o nosso
amor, indefinidamente estará aqui. Firme e forte. E será inesquecível para quem
nos pilhar em jazigos separados. Estaremos de mãos dadas, num entrelaçar de
dedos ocultos aos olhos dos que passarem, todavia, irmanados numa emotividade
que nunca se desvencilhará de nós.
EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA: (1) A poesia
seguida da música que me inspirou a escrever esse texto, é de autoria de
AMARILDO VICENTE (Ray) e pode ser encontrada no “AMOR ETERNO” da dupla de
irmãos “Vicky Souza & Denis Souza”,
bastando para tudo, acessar o “YouTube”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Conceição do Castelo, no Espírito Santo, 4-8-2026
Se eu pudesse voltar no meu tempo
O chato de galochas
Avesso
Drama de um ato só

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