Carina Bratt
JURO POR DEUS que eu não chegaria até você só para falar das coisas bonitas. De forma alguma. Não te diria apenas que o meu peito acelera quando você abre a porta do banheiro e ao sair e entrar no nosso quarto, o cheiro gostoso do seu sabonete vem junto com o perfume do seu corpo. Nessa hora um quê de fascínio me embriaga. Eu sei e você também sabe, a coisa não para por aí. Quando você se desenrola da toalha e se aninha ao meu lado, só de cuequinha Zorba encimada por uma camiseta rasgada em vários lugares, a cama parece entrar em uma espécie de colapso alucinativo inexplicável. Esse embriagamento tem o condão de atacar frontalmente o cheiro forte do pecado, e o faz em face da sua alma vertiginosa também se prostrar anagogiada como um presente à parte.
A nossa alcova é o meu lugar favorito no
mundo e quando você, depois de fazermos aquele amor gostoso, entre gritos
lancinantes e palavras repletadas de maviosidades, o seu ‘eu’ relaxado adormece
feliz agarrado ao meu calor e sempre, nessa hora, eu fico por um breve tempo só
olhando, divagando flanando com medo de piscar (de piscar, imagine!) e
descobrir que é tudo um sonho. Isso, eu sei, você já sabe, ou pelo menos
desconfia, acredito que eu não sou tão boa em disfarçar o quanto te amo, o
quanto te desejo e o quanto tenho aquele medo receoso de que um dia você não me
deixe mais fazer parte da sua vida. Às vezes, nas minhas doideiras fico
pensando se num desses dias porvindouros você simplesmente não me abandone e
vai embora de vez. O que guardo a sete chaves, com vergonha, com medo de
parecer pequena, ou doente, ou até demais para qualquer pessoa tida como normal
é carregar o vazio que ficará de você. Isso me tira do sério, e altera
sobremaneira as batidas do meu coração do compasso normal.
Te diria que há noites em que eu acordo de madrugada com um medo sem nome. Não é de ladrão, não é de morte, é só um vazio que dói no peito, que não tem explicação plausível, que some de manhã como se nunca tivesse estado lá, mas que nas horas escuras me faz querer ligar para você às três da manhã (mesmo você estando ao meu lado, agarrado ao meu corpo) só para ouvir a sua voz sonolenta dizer ‘calma, Carina, eu estou aqui’. Te diria que às vezes eu fico com ciúmes de coisas ridículas: da sua amiga de trabalho que você ri tanto das piadas, da série que você assiste sem mim, até do cachorro vira-lata da esquina que você sempre dá uma parada para fazer carinho quando voltamos do café na padaria. Te diria, mesmo tom, que há dias em que eu me odeio por isso, por ser essa menina mulher pela metade, que mede amor em pedaços, que conta quem você olhou mais um segundo, que guarda pequenas mágoas em meio as calcinhas como se fossem moedas sem valor.
Te diria que eu ainda penso nele, no meu
ex (não ria, por favor), de vez em quando. Não para querer voltar, não para te
trair, só para lembrar como foi que eu quebrei a cara, e como por muito tempo
eu achei que nunca mais iria conseguir gostar de alguém de novo sem ficar com
uma mão na maçaneta, pronta para fugir antes de ser deixada. Te diria que às
vezes eu ainda me flagro com as chaves da porta da sala, mesmo com você. Não
por sua culpa. Pela minha. Pelas marcas que o outro deixou, e que eu não consigo
lixar fora por mais que eu tente empregando uma força meio que sobrenatural. Te
diria mais, te diria que eu finjo que não me importo com muita coisa, mas me
importo com tudo. Me importo com o comentário do seu pai sobre o meu trabalho
não ser ‘de verdade’, com a amiga sua que disse que eu sou ‘um pouco calada
demais’, com o jeito que você ficou silencioso no jantar ontem, e eu passei
três horas tentando adivinhar o que eu tinha feito de errado, mesmo você
dizendo mil vezes que não foi nada.
Te diria que eu choro escondida às vezes,
não por nada grande: só por ver uma velhota atravessando a rua devagar com a
ajuda do neto, ou por ouvir uma música da minha adolescência no rádio, ou por
cansaço mesmo, de ser forte todo dia, de ter que ter respostas para tudo. E eu
nunca te deixo ver, porque tenho medo que você descubra que eu não sou tão
sólida quanto você pensa. Falo sério! Te diria dos meus sonhos tolos. E no meio
deles, segredar que eu queria, um dia, ter uma casa com um quintal pequeno, para
plantar rosas, mesmo que eu já tenha jogado fora um buquê lindo que a minha
prima me deu de presente. Te diria, nessa minha insensatez pra lá de bandida,
que eu queria aprender a tocar teclado, só para cantar as músicas velhas do
Roberto Carlos para você ouvir na varanda, mesmo que eu tenha o pior ouvido do
mundo e o meu professor já tenha dito que eu ‘não tenho futuro’ como organista
(ou tecladista).
Às vezes eu imagino o tamanho da minha
insanidade e pego nós dois com oitenta ou noventa anos, você com os cabelos
brancos todo bagunçado e logo de manhã, reclamando que eu deixo as meias sujas
em cima do sofá, e eu rindo, e tudo dando certo no final. E te diria também que
tenho medo desse sonho. Medo de que um dia tudo acabe, de que você canse, de
que eu estrague tudo com as minhas loucuras, com os meus silêncios, ou pior,
com as minhas dores que eu não sei como me safar delas. E eu penso: se eu te
disser tudo isso, vai ser como o abrir a porta do nosso quarto bagunçado para
você entrar. Você vai ver as roupas jogadas no chão, (de novo), as latinhas de
refrigerante vazias debaixo da cama, (mais uma vez), vai dar de cara com os
cadernos com meus textos que escrevo para a ‘Cão que Fuma’ aos domingos, os
cantos escuros que eu nunca limpo direito por vergonha.
E você vai olhar para tudo isso, e depois
vai olhar para mim. E esse olhar vai mudar. Não vai mais ser o olhar de agora,
esse olhar calmo, seguro, como se eu fosse a sua casa. Vai ser o olhar de quem
vê demais. Vai ter um pouco de pena, talvez. Um pouco de cansaço. Um pouco de
‘eu não sabia que era tudo isso’. Vai ter distância. Você vai continuar ali,
ali, ou acolá, não sei, talvez — droga, de repente você vai pular nos meus
braços, arrancar minhas roupas, me deixar peladinha e continuar me dando aqueles
beijos ‘arroubados’ e continuar me acariciando as partes íntimas que você mais
gosta. E para terminar, faremos amor, eu gritarei, você gritará. Mas o olhar...
o olhar não vai ser mais o mesmo. E eu prefiro morrer a perder esse olhar.
Então eu fico calada. Sorrio. Eu pergunto se tudo está bem.
Euzinha digo que amanhã eu passo no
mercado para comprar o pão de queijo que você quer comer antes de sair para o
trabalho. Eu guardo tudo de novo, escondo a sete chaves. Porque ter você assim,
olhando para mim assim, mesmo que seja só metade de mim, é melhor do que ter
você todo, mas olhando de outro jeito.
— Eu sei, dirá você, baixo, como se
estivesse contando um segredo que só os ouvidos do lençol amassado podem ouvir.
Eu engulo seu gozo, você ejacula forte. Eu grito, esperneio. A minha voz com
seu gosto de tudo me sai rouca, ou melhor, não sai:
— Sabe o quê? Eu estava precisando entrar
dentro de você. Engolir seu sumo. E você se fartou em minha garganta, deixou
seu amor na minha boca, o licor escorrendo garganta à baixo...
Você sorri, aquele canto da boca
levantado, o mesmo olhar. Exatamente o mesmo olhar. Safadinho... tarado...
— Sabe, meu ‘gatoso’, depois que você me
come, me saboreia, me faz em pedaços, eu sinto ciúme do cachorro da esquina.
Dos dias que você se tranca no banheiro e liga o chuveiro alto para chorar,
pensando que eu não ouço o som abafado. Do calor da sua mão que você ainda
deixa na porta, de vez em quando. Eu sei...
Eu fico parada, sem ar. Parece que alguém
tirou um peso de dentro do meu peito que eu nem sabia que estava carregando.
— E… e você não… não acha muito? Não acha
que eu estou ficando pirada demais, ou melhor, que já alcancei as loucuras de
um ser sem cura, de uma mulher emperrada na sua melhor forma de decadência?
Você solta a minha mão só para passar o
dedo devagar na minha testa, como se estivesse apagando uma linha de
preocupação que eu não sabia que ainda existia. A sua voz é mais baixa, quase
um sussurro que só eu posso ouvir:
— Você acha que eu te olho assim porque
você é perfeito? Eu te olho assim porque você é todo seu. Com as partes boas,
com as partes que você tem vergonha, com os medos que você não sabe
identificar. Se faltasse um pedaço sequer, não era mais você. E eu não iria
olhar mais assim.
Você pega a sua xícara, aquela lascada, a
que eu já te ofereci para trocar umas tantas e não sei quantas vezes, e você
sempre recusa, e dá um gole. Depois volta a me olhar. Exatamente do mesmo
jeito. Como se eu tivesse acabado de dizer que o pão de queijo estava bom, não
que eu estava com medo de não ser suficiente a mulher inteira para acalmar
você, para destruir as loucuras que você inventa e mais uma vez quebrarmos a
droga da cama.
— Pode dizer tudo quando quiser. Eu já
estou olhando. Não vou mudar o meu jeito. Prometo.
O pássaro que estava batendo na minha
garganta acalmou. Ele não precisa mais sair voando de uma vez. Ele pode ficar
aqui, quieto, enquanto eu vou abrindo a porta do nosso quarto bagunçado,
abrindo devagar, um pedacinho de cada vez. Porque a pessoa do outro lado já
está lá. Já sabe de tudo. E para meu encantamento, escolheu ficar. E o olhar?
Ah, o olhar! Ele continua o mesmo. Exatamente assim. Para sempre, meu amor, meu
único amor, juro por Deus, que eu espero... E então, inopinadamente você me
agarra, me enlaça por trás, me prende, me bota de quatro, arranca a minha
calcinha com os dentes, me lambe toda a retaguarda e ela querendo mais e mais
e, então, de um jeito menino bruto, você penetra por dentro dela e me come...
Título e Texto: Carina Bratt, de
Conceição do Castelo, Espírito Santo, 2-8-2026
‘Esdruxulidades’ para ninguém botar defeitos
Buraco de tatu
O meu maior desejo vem exatamente daquilo que sequer tenho coragem de revelar
Não inflói, nem contribói - Mas diverte muito!

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