quinta-feira, 20 de agosto de 2026

[Daqui e Dali] Erros médicos e descuidos

Humberto Pinho da Silva

Meu avô acabara de sair do semanário "A Paz", onde era editor. Ao passar diante da farmácia do Dr. Gonçalves, este vendo-o corado, disse-lhe: "É melhor consultar o médico. Anda por aí a gripe espanhola!...”

Pouco depois faleceu de pneumonia, devido terem-lhe aplicado medicamento a que era alérgico.

Meu pai sentindo-se doente consultou clínico respeitado. Este recomendou-lhe que devido à idade era melhor tomar medicamento para dilatar as veias capilares. Sentindo as pernas inchadas e humedecidas avisou o clínico. Este recomendou-lhe estender as pernas.... Pouco depois, faleceu com problemas renais.

O jornalista Santos Lessa escreveu no seu periódico no dia do falecimento:

"Pinho da Silva há muito que estava doente, praticamente imobilizado, devido a erro médico. Na última missiva dizia-nos, talvez prevendo o desenlace para breve: "Estou cada vez mais doente da intoxicação que o médico me arranjou."

Minha mãe sentiu forte dor de cabeça. Disseram-lhe que era do fígado; que era do estômago; que era do baço; até psiquiatra lhe disse que era psíquico.

Fez exames. Tirou radiografias e análises, nada resultou. Foi de veraneio para o interior. Indicaram-lhe clínico de grande presteza. Foi. Após aturados exames disse-lhe: ”Não descobri nada! Já fez o exame ao fundo ocular?”

Descobriram que era tumor cerebral bastante adiantado. Faleceu em 1968. 

Certa ocasião acordei com forte dor no cotovelo esquerdo. O ortopedista concluiu haver nervo trilhado. Era necessário operar. Mas, antes, tinha de fazer exames.

Fui. Atendeu-me médica muito velhinha e simpática. Contei-lhe a minha desgraça, e perguntei-lhe a opinião. Respondeu-me: que não era ético:" O seu ortopedista é que sabe."

Como sabia que tinha filhos e netos, teimei: "Se fosse seu filho, o que me aconselharia?" Declarou serenamente: "Se fosse meu filho... Não fazia, não senhor, porque lesões dessas podem passar em dois ou três meses..." Assim aconteceu.

Meu médico assistente ao ver o resultado das análises, disse-me: "O PSA está alto, é bom consultar o urologista.” Este mandou-me repetir a análise.

Entretanto, almocei com o amigo Miguel, a quem narrei a minha tragédia. Contou-me que conhecia homem que, com sementes de abóbora, conseguira baixar o PSA. Segui o conselho, e a nova análise estava normal!

Contei o sucedido a médico amigo, confessou-me: "Também tomo diariamente uma dose de sementes..."

Meu pai era amigo de excelente médico, mas tinha poucos doentes, porque estes não gostavam que recomendasse para refreados chazinho de limão ou de cidreira!...

Nada tenho contra a classe médica, nem a costumo criticar, como fazia Molière. Meu irmão era médico. Possuía vários diplomas, louvores e prêmios, nacionais e internacionais. Quando conversávamos sobre erros médicos, dizia-me: "Todos erramos!... Por desconhecimento ou descuido!..." 

Le Malade imaginaire, Honoré Daumier

No século passado escrevi artigo em louvor dos médicos-sacerdotes de outrora, citando alguns. O Professor Doutor Almeida Garrett, in "A Ordem" (30/9/94), discordou em parte do meu parecer; não deixando, porém, de afirmar que tinha alguma razão.

Espero que trinta e dois anos depois, não apareça clínico ofendido, porque não foi, nem é, essa a intenção.

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, agosto de 2026 

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