terça-feira, 15 de setembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O fabuloso casamento de Cuteu e Cotia

Aparecido Raimundo de Souza

NAQUELA ESPLENDOROSA tarde de sol forte, quando o mato cheirava a chuva que vinha chegando, todo mundo da redondeza já sabia de cor e salteado: Cuteu ia casar com a Cotia, carinhosamente, “Cutia”. Todavia, ninguém lembrava direito quando é que começaram os dois pombinhos a andarem juntos. Uns e outros diziam, a língua solta, que foi ali no caminho que desembocava numa plantação quilométrica de eucaliptos.

Outros e uns, já asseveravam e juravam que o romance nasceu de uma briga com os avós de Cuteu com a família da Cotia, tudo por causa de um pedaço de terra, e há os mais sonhadores quem afirmem com a melhor das convicções, que foi só porque um dia ele, o Cuteu, olhou para ela e pensou com seus botões: “essa criatura divina tem o coração igual ao meu: áspero por fora, mas firme, bom e primoroso por dentro”.

Cuteu era “um cabra” difícil de ser encontrado em dias de hoje. Se formara num homem de poucas palavras, de pouca idade nos costados mas tinha orgulho de mostrar as mãos calejadas, em face do trabalho que exercia, da oração que professava e da honestidade que acima de tudo estava sempre no mais alto da sua cabeça “acarecada”. O rapaz dizia pouco, mas fazia mais do que prometia e quando afiançava, cumpria o compromisso até o fim. Cotia, ou melhor, “Cutia”, ah, a “Cutia” sem tirar, nem “destirar”, se engrandecia na mulher mais jovem e bonita do pedaço.

Uma figura ímpar que carregava o mundo nos ombros e ainda sobrava força para sorrir.

Tinha a língua rápida e ferina, seguida de respostas na ponta dos dentes bem torneados e do sorriso acima de qualquer suspeita. A lindeza não levava desaforos para casa. Exercia sempre com cuidado e cautela, seu jeito firme e despachado, mas por trás daquela postura forte e carismática, dócil e ao mesmo tempo espalhafatosa, batia um coração enormemente puro e acolhedor que no seu caminhar havia visto muito, passado por diversos trilhos e carreiros difíceis, e nesse vai e vem, vem e vai, aprendido a ser dona de si mesma antes de ser de qualquer um.

Muitos apontavam, cochichavam, traziam histórias antigas e rótulos que não cabiam mais nela. Cuteu por sua vez, jamais se prestou a ligar para essas coisas e sempre que alguém vinha falar mal dela, ele virava bicho. Fechava a cara e se transformava numa fera perigosa. Parecia o Coiote afoito e apressurado correndo na cola do Papa-léguas, só que diferentemente dos desenhos criados por Chuq Jones, Cuteu o alcançava e quando se dispunha a destilar a sua raiva, se punha a gritar nos ouvidos do infeliz aquele conhecidíssimo “Beep-Beep” que víamos e ouvíamos nos filmes da Warnes Bros. E para completar a sua raiva, emendava: 

 — Eu não me caso com o que os outros dizem dela. Me enlacei com quem ela é: a mulher que me vê de verdade, que não finge nada, que não tem medo de ser inteira... 

Não deu outra, obviamente. E nem podia. A cerimônia foi simples, realizada com todas as pompas no terreiro mesmo, sob o céu largo que parecia cobrir tudo com uma presença incapaz de ser traduzida com palavras. Não teve luxo, nem riquezas, apenas algo muito mais raro e insubstituível: respeito. Ele fez a proposta que virou destino: pediu que ela fosse a sua namorada, amante, a mulher honesta, a puta no sentido amplo da palavra e companheira. E “Cutia” sabedora do seu amor, entrou com tudo para dentro dos afagos de Cuteu. 

Cuteu agiu da mesma forma. Não para prendê-la, mas para caminharem lado a lado, ombro a ombro, de mãos dadas pela mesma estrada, e nessa via sem fim, edificarem uma casa, uma vida plena, terem uma família, e tudo o que o tempo fosse oferecendo. Ela aceitou de bom grado, com aquela sabedoria de mulher inteligente, que só quem já lutou pela própria liberdade tem essa noção de realidade plena dentro de si.

Sabia que entrar num novo começo de vida, não significava deixar de ser quem era, mas sim escolher conscientemente ser junto com alguém que a conhecia e a amava exatamente assim: autentica, única, sem máscaras, sem rótulos, sem mentiras, sem o batido e desusado “não quero isso, não faço aquilo, não chupo, não engulo porra, não dou o cu” não me batize mijando na minha cara. Enfim, “Cutia” deixou que o carimbo de aprovada, se fizesse o mais importante. A própria personalidade imutável e sem manchas, nódoas e rodeios prosperou.

Um ano depois, aos poucos, sem pressa, sem afobação, construíram um sobrado ao lado de um já existente, de três andares e o fizeram com as próprias mãos. Assentaram tijolo por tijolo, sonharam e viveram a dois, sonho por sonho. Casa própria e em pé, veio o jardim colorido, depois o cachorro que latia alegre no portão quando ele ou ela saiam ou quando ambos voltavam de mãos dadas com a camionete cheia de compras para os enfrentamentos cotidianos.

Tempos a frente, pintou na área um papagaio que aprendeu a repetir seus nomes e as risadas que enchiam cada canto.  Nasceram os filhos, e esses pimpolhos cresceram vendo um amor incomensurável, uma paixão incondicional que não se fazia passageira, pelo contrário, lembrava aos demais da comunidade que os conheciam, um eterno e prestimoso conto de fadas como os relatos nos romances dos irmãos Grimm.

Um romance complexo, que nascera, crescera e se agigantara nas raízes de um amor de verdade, de um gostar imorredouro feito de compreensão, de perdão, de mesuras e delicadezas, de ficar quando seria mais fácil ir embora, sumir, desaparecer, de entender que cada um tinha dentro de si as suas marcas e as suas histórias, e que por conta disso, nenhuma chama da mais pura tristeza ou vento de maus presságios (fossem apenas passando ou ficando), teriam as ferramentas adequadas e bem afiadas capazes de cortarem ou desunirem os fortificados elos inquebrantáveis.

E menos ainda apagando o valor terno de quem se tornou por força de uma felicidade plena e resplandecente, numa fortaleza eterna. Os anos vieram, se achegaram, tentaram ficar, e o fizeram devagar. Aos poucos, esses anos trouxeram rugas e cabelos prateados, mas nunca teve o privilégio de roubar, ou afastar o brilho impagável nos olhos daquele casal ímpar e abençoado pelo Pai Maior.

Cuteu continuou sendo aquele homem que pactuava a sua palavra e a cumpria, que não tinha nunca a volta ou a quebra ao prometido, houvesse o que houvesse. O varão corria atrás e realizava o que havia acordado. Cotia, (carinhosamente “Cutia”), de igual forma, continuou sendo a mulher-esposa que sabia o que valia. E quando vizinhos e pessoas amigas perguntavam como se mantiveram tão firmes por tanto tempo naquele amor dos contos das fadas, ela respondia com um sorriso que misturava doçura e força, energia e brandura e tinha, por conta disso, um nome secreto que ficava guardado a sete chaves num lugarzinho especial e bem escondido.

— A gente não começou perfeito. De forma nenhuma. Veio com cada um de nós, à nossa bagagem, nossos erros, acertos, prós e contras, altos e baixos. Enfrentamos dias bons, e ruins, mas sempre de mãos dadas, de braços colados, suportando com as graças de Deus, as nossas dores. O meu Cuteu que Deus me deu de presente, nunca pediu que eu fosse outra pessoa. Ele me amou desde a primeira vez em que nossos olhos se beijaram num ósculo divinal.

Cutia dava um tempo, tomava fôlego, sorria matreira e continuava:

— Aquela princesa que ele procurava, era eu... eu inteira, com defeitos, qualidades, e tudo mais que poderia vir, como veio, no pacote. E eu… por meu turno, aprendi que o melhor lugar do mundo não é nenhum endereço bonito. É estar ao lado de quem te vê, ou lhe vê e que enxerga, de verdade e sem subterfúgios e diz de boca cheia: “você é minha, mas antes de tudo, você é você”.

E Cuteu, calmo como sempre, só apertava a mão da metade amada da sua maçã e se abrindo igual paraquedas corria para dizer e só dizer, mas nessas horas se arreganhava por todo o seu “eu” interior e completava:

— O resto o tempo vai cuidando.  E, de fato, assim o fez. O amor bom não cai do céu pronto: ele se constrói, dia após dia, igual essa casa que levantamos juntos é a prova viva do que estou dizendo. E enquanto estivermos agarrados um ao outro, tudo o mais é só um pequeno grande detalhe que um dia se realizará.

Hoje, tantos e tantos anos depois, quem passa, seja indo ou vindo, ainda os vê e percebe, sentados na varanda, mãozinhas dadas, aquele casalzinho de cabelos brancos, ambos olhando demoradamente o mesmo céu que os viu começar. O tempo passou, mas o que importa ficou: Cuteu e “Cutia” provaram que o casamento não é mudar um ao outro. Acima de tudo, é reconhecer que mesmo sendo diferentes, com histórias distintas e marcas próprias, foram feitos para caminharem juntos, lado a lado.

Em caminho paralelo, Cuteu e “Cutia” nos ensinou, que o amor verdadeiro não pede que alguém deixe de ser quem é. Ele agradece, ele respeita, ele permanece, ela sorri e se entrega em mesuras. E assim, simples e fortes, vivem os longevos alimentado a cada minuto a prova robusta e cabal de que quando dois corações escolhem um ao outro sem medo, sem julgamento e sem mentiras, não há força terrena neste mundo ou em um outro que por ventura possa existir, que tenha condições e forças suficientes para leva-los às raias de se divorciarem.

O casal Cuteu e “Cutia”, trouxe ao mundo apenas dois rebentos. Os filhos: Cuteuzinho e Cotinha (carinhosamente, Cutinha). Cuteuizinho casou cedo e teve duas meninas: Cudinha e Cuteia. Cudinha, hoje, aos dezoito, não quis casar. Se amigou e mora junto com o belo e formoso Cudião, um excelente professor de matemática. Cuteia está se formando e logo entrará para a faculdade. Pretende ser médica infectologista. Toda a família vive naquele segundo e confortável sobrado gigantesco construído ao lado da antiga residência (também “assobradada”, só para lembrar) um cantinho sagrado que pertenceu e seus falecidos pais e avós.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, ES  15-9-2026 

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