Aparecido Raimundo de Souza
Outros e uns, já asseveravam e
juravam que o romance nasceu de uma briga com os avós de Cuteu com a família da
Cotia, tudo por causa de um pedaço de terra, e há os mais sonhadores quem
afirmem com a melhor das convicções, que foi só porque um dia ele, o Cuteu,
olhou para ela e pensou com seus botões: “essa criatura divina tem o coração
igual ao meu: áspero por fora, mas firme, bom e primoroso por dentro”.
Cuteu era “um cabra” difícil
de ser encontrado em dias de hoje. Se formara num homem de poucas palavras, de
pouca idade nos costados mas tinha orgulho de mostrar as mãos calejadas, em
face do trabalho que exercia, da oração que professava e da honestidade que
acima de tudo estava sempre no mais alto da sua cabeça “acarecada”. O rapaz
dizia pouco, mas fazia mais do que prometia e quando afiançava, cumpria o
compromisso até o fim. Cotia, ou melhor, “Cutia”, ah, a “Cutia” sem tirar, nem
“destirar”, se engrandecia na mulher mais jovem e bonita do pedaço.
Uma figura ímpar que carregava
o mundo nos ombros e ainda sobrava força para sorrir.
Tinha a língua rápida e
ferina, seguida de respostas na ponta dos dentes bem torneados e do sorriso
acima de qualquer suspeita. A lindeza não levava desaforos para casa. Exercia
sempre com cuidado e cautela, seu jeito firme e despachado, mas por trás daquela
postura forte e carismática, dócil e ao mesmo tempo espalhafatosa, batia um
coração enormemente puro e acolhedor que no seu caminhar havia visto muito,
passado por diversos trilhos e carreiros difíceis, e nesse vai e vem, vem e
vai, aprendido a ser dona de si mesma antes de ser de qualquer um.
Muitos apontavam, cochichavam, traziam histórias antigas e rótulos que não cabiam mais nela. Cuteu por sua vez, jamais se prestou a ligar para essas coisas e sempre que alguém vinha falar mal dela, ele virava bicho. Fechava a cara e se transformava numa fera perigosa. Parecia o Coiote afoito e apressurado correndo na cola do Papa-léguas, só que diferentemente dos desenhos criados por Chuq Jones, Cuteu o alcançava e quando se dispunha a destilar a sua raiva, se punha a gritar nos ouvidos do infeliz aquele conhecidíssimo “Beep-Beep” que víamos e ouvíamos nos filmes da Warnes Bros. E para completar a sua raiva, emendava:
— Eu não me caso com o que os outros dizem dela. Me enlacei com quem ela é: a mulher que me vê de verdade, que não finge nada, que não tem medo de ser inteira...Não deu outra, obviamente. E
nem podia. A cerimônia foi simples, realizada com todas as pompas no terreiro
mesmo, sob o céu largo que parecia cobrir tudo com uma presença incapaz de ser
traduzida com palavras. Não teve luxo, nem riquezas, apenas algo muito mais
raro e insubstituível: respeito. Ele fez a proposta que virou destino: pediu
que ela fosse a sua namorada, amante, a mulher honesta, a puta no sentido amplo
da palavra e companheira. E “Cutia” sabedora do seu amor, entrou com tudo para
dentro dos afagos de Cuteu.
Cuteu agiu da mesma forma. Não
para prendê-la, mas para caminharem lado a lado, ombro a ombro, de mãos dadas
pela mesma estrada, e nessa via sem fim, edificarem uma casa, uma vida plena,
terem uma família, e tudo o que o tempo fosse oferecendo. Ela aceitou de bom
grado, com aquela sabedoria de mulher inteligente, que só quem já lutou pela
própria liberdade tem essa noção de realidade plena dentro de si.
Sabia que entrar num novo
começo de vida, não significava deixar de ser quem era, mas sim escolher
conscientemente ser junto com alguém que a conhecia e a amava exatamente assim:
autentica, única, sem máscaras, sem rótulos, sem mentiras, sem o batido e desusado
“não quero isso, não faço aquilo, não chupo, não engulo porra, não dou o cu”
não me batize mijando na minha cara. Enfim, “Cutia” deixou que o carimbo de
aprovada, se fizesse o mais importante. A própria personalidade imutável e sem
manchas, nódoas e rodeios prosperou.
Um ano depois, aos poucos, sem
pressa, sem afobação, construíram um sobrado ao lado de um já existente, de
três andares e o fizeram com as próprias mãos. Assentaram tijolo por tijolo,
sonharam e viveram a dois, sonho por sonho. Casa própria e em pé, veio o jardim
colorido, depois o cachorro que latia alegre no portão quando ele ou ela saiam
ou quando ambos voltavam de mãos dadas com a camionete cheia de compras para os
enfrentamentos cotidianos.
Tempos a frente, pintou na
área um papagaio que aprendeu a repetir seus nomes e as risadas que enchiam
cada canto. Nasceram os filhos, e esses
pimpolhos cresceram vendo um amor incomensurável, uma paixão incondicional que
não se fazia passageira, pelo contrário, lembrava aos demais da comunidade que
os conheciam, um eterno e prestimoso conto de fadas como os relatos nos
romances dos irmãos Grimm.
Um romance complexo, que
nascera, crescera e se agigantara nas raízes de um amor de verdade, de um
gostar imorredouro feito de compreensão, de perdão, de mesuras e delicadezas,
de ficar quando seria mais fácil ir embora, sumir, desaparecer, de entender que
cada um tinha dentro de si as suas marcas e as suas histórias, e que por conta
disso, nenhuma chama da mais pura tristeza ou vento de maus presságios (fossem
apenas passando ou ficando), teriam as ferramentas adequadas e bem afiadas
capazes de cortarem ou desunirem os fortificados elos inquebrantáveis.
E menos ainda apagando o valor
terno de quem se tornou por força de uma felicidade plena e resplandecente,
numa fortaleza eterna. Os anos vieram, se achegaram, tentaram ficar, e o
fizeram devagar. Aos poucos, esses anos trouxeram rugas e cabelos prateados,
mas nunca teve o privilégio de roubar, ou afastar o brilho impagável nos olhos
daquele casal ímpar e abençoado pelo Pai Maior.
Cuteu continuou sendo aquele
homem que pactuava a sua palavra e a cumpria, que não tinha nunca a volta ou a
quebra ao prometido, houvesse o que houvesse. O varão corria atrás e realizava
o que havia acordado. Cotia, (carinhosamente “Cutia”), de igual forma,
continuou sendo a mulher-esposa que sabia o que valia. E quando vizinhos e
pessoas amigas perguntavam como se mantiveram tão firmes por tanto tempo
naquele amor dos contos das fadas, ela respondia com um sorriso que misturava
doçura e força, energia e brandura e tinha, por conta disso, um nome secreto
que ficava guardado a sete chaves num lugarzinho especial e bem escondido.
— A gente não começou
perfeito. De forma nenhuma. Veio com cada um de nós, à nossa bagagem, nossos
erros, acertos, prós e contras, altos e baixos. Enfrentamos dias bons, e ruins,
mas sempre de mãos dadas, de braços colados, suportando com as graças de Deus,
as nossas dores. O meu Cuteu que Deus me deu de presente, nunca pediu que eu
fosse outra pessoa. Ele me amou desde a primeira vez em que nossos olhos se
beijaram num ósculo divinal.
Cutia dava um tempo, tomava
fôlego, sorria matreira e continuava:
— Aquela princesa que ele
procurava, era eu... eu inteira, com defeitos, qualidades, e tudo mais que
poderia vir, como veio, no pacote. E eu… por meu turno, aprendi que o melhor
lugar do mundo não é nenhum endereço bonito. É estar ao lado de quem te vê, ou
lhe vê e que enxerga, de verdade e sem subterfúgios e diz de boca cheia: “você
é minha, mas antes de tudo, você é você”.
E Cuteu, calmo como sempre, só
apertava a mão da metade amada da sua maçã e se abrindo igual paraquedas corria
para dizer e só dizer, mas nessas horas se arreganhava por todo o seu “eu”
interior e completava:
— O resto o tempo vai
cuidando. E, de fato, assim o fez. O
amor bom não cai do céu pronto: ele se constrói, dia após dia, igual essa casa
que levantamos juntos é a prova viva do que estou dizendo. E enquanto estivermos
agarrados um ao outro, tudo o mais é só um pequeno grande detalhe que um dia se
realizará.
Hoje, tantos e tantos anos
depois, quem passa, seja indo ou vindo, ainda os vê e percebe, sentados na
varanda, mãozinhas dadas, aquele casalzinho de cabelos brancos, ambos olhando
demoradamente o mesmo céu que os viu começar. O tempo passou, mas o que importa
ficou: Cuteu e “Cutia” provaram que o casamento não é mudar um ao outro. Acima
de tudo, é reconhecer que mesmo sendo diferentes, com histórias distintas e
marcas próprias, foram feitos para caminharem juntos, lado a lado.
Em caminho paralelo, Cuteu e
“Cutia” nos ensinou, que o amor verdadeiro não pede que alguém deixe de ser
quem é. Ele agradece, ele respeita, ele permanece, ela sorri e se entrega em
mesuras. E assim, simples e fortes, vivem os longevos alimentado a cada minuto
a prova robusta e cabal de que quando dois corações escolhem um ao outro sem
medo, sem julgamento e sem mentiras, não há força terrena neste mundo ou em um
outro que por ventura possa existir, que tenha condições e forças suficientes
para leva-los às raias de se divorciarem.
O casal Cuteu e “Cutia”,
trouxe ao mundo apenas dois rebentos. Os filhos: Cuteuzinho e Cotinha
(carinhosamente, Cutinha). Cuteuizinho casou cedo e teve duas meninas: Cudinha
e Cuteia. Cudinha, hoje, aos dezoito, não quis casar. Se amigou e mora junto
com o belo e formoso Cudião, um excelente professor de matemática. Cuteia está
se formando e logo entrará para a faculdade. Pretende ser médica
infectologista. Toda a família vive naquele segundo e confortável sobrado
gigantesco construído ao lado da antiga residência (também “assobradada”, só
para lembrar) um cantinho sagrado que pertenceu e seus falecidos pais e avós.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, ES 15-9-2026
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