terça-feira, 21 de abril de 2026

[Aparecido rasga o verbo] A insustentável leveza do Toledo

Aparecido Raimundo de Souza

A MÉRCIA, FILHA única do bicheiro Pescoço de Girafa, tinha uma espécie de flerte por debaixo dos panos com Papacum, o rebento mais novo do quitandeiro Orlando. O negócio deles, não muito às claras, se embolava por detrás das cortinas, às escuras dos olhos paternos. Embora fossem solteiros e descompromissados, havia um engasga gato que atravancava o namorico dos dois. Exatamente o que atrapalhava? A idade? Negativo! Ambos andavam na casa dos 17 anos, com a diferença de que a Mércia era mais velha que Papacum um mês e meio.

Até aí, tudo bem. O fato é que o pai da moça, o temido Pescoço de Girafa (esse apelido se dava pelo fato do cidadão ter um pescoço comprido, como o desses animais e viver, o tempo todo, espiando as coisas por cima) o que propiciava o comando do jogo de bicho da área, além do tráfico de drogas. Respeitado e temido pela maioria, ninguém nas redondezas se metia a besta com ele. Fizesse frente, aparecia, dia seguinte, com a boca cheia de formigas numa vala aberta, uma espécie de lixão nos arredores do bairro.

Não bastasse isso, o sujeito não queria a sua filha metida com o garoto. Ele era pobre, não trabalhava, vivia às custas do quitandeiro, ao contrario de sua filha, que tinha de tudo do bom e do melhor, inclusive um carro zero bala, uma moto, apartamento próprio, além de uma rechonchuda conta bancaria. Mas naquele dia, justo naquele santo dia, o Pescoço, sem querer, flagrou os dois num dos quartos de hospedes da mansão. O casalzinho estava numa boa, aos beijos e abraços.

Pelados, completamente sem roupas, como vieram ao mundo. O rapaz, por cima, falava palavras melosas, enquanto a Mércia gemia baixinho como uma gata no cio. A danadinha mexia e remexia o corpo, como se tivesse sendo açoitada por um prazer imensamente fora do comum. Pareciam, na verdade, entrelaçados por fios invisíveis que se embolavam por dentro um do outro, como um novelo de linha nas patas de uma cadela estabanada. E realmente estavam numa boa. A farra comia solta.

Pescoço de Girafa, ao topar com a cena, deu um berro que estremeceu toda a casa. Arrancou o cinto da calça e partiu para cima. Não chegou a dar dois passos. Com a retirada do cinto, a calça caiu inopinadamente a seus pés, deixando tudo a mostra. As genitálias balançavam numa dança esquisita, meio frenética, meio surreal. Sem saída, Pescoço de Girafa se viu, de repente, na frente dos jovens, igualmente como eles, sem nada, tirando, claro, a arma do rapaz que marcava meio dia em ponto quando passava, e muito, das duas da tarde.

— Eu mato! Hoje eu mato esse canalha. Em posição, sujeito...

Essas palavras assustaram os pombinhos. A moça arregalou os olhos num gesto de puro pavor. Tentou se recompor. As vestes estavam longe, emboladas aos pés da cama:

— Papai, eu... eu...

O moço tentou sair pela tangente:

— Seu Girafa de Pescoço, mal de nada não pense. Aqui. eu só estava...

O pai da moça enfureceu mais ainda:

— Como disse? Girafa de Pescoço? Meu nome é Pescoço de Girafa...

O rapaz procurou remediar:

— Eu sei, seu Pescoço, eu sei...

A moça aquiesceu:

— Ele sabe, papai, ele sabe...

O enfurecido ficou mais pê da vida ainda. Babava de raiva:

— Mesmo sabendo pronunciou errado. Ta me tirando, fedelho?

O infeliz, trêmulo:

— Não, seu Pescoço... tava procurando uma borracha na gaveta da escrivaninha e...

Pescoço bramindo a arma cintada com um fivelão desse tamando em pleno ar:

— Feche os olhos, seu filho de uma rapariga.

— E para que? Se fechar meus olhos não teremos a chance de ver o que o senhor pretende com a gente...

— Assim que eu acabar com a graça e o fogo dos dois, com certeza saberão...

— Não seria melhor o senhor, em primeiro lugar recolocar as calças? Afinal de contas, isso aqui não é um campo de nudismo.

— Não é? E o que vocês faziam aí feito Adão e Eva?

— Papai eu e Papacum estávamos ensaiando uma peça que vamos representar na escola.

— E eu cheguei justo na hora em que o simpático Adão lhe apresentava a cobra?

— Pai, que cobra?

— Isso, seu Gilrafa, quero dizer, seu Pescoço. Que cobra?

— Venha até aqui rapaz. Meu nome e Girafa e não Gilrafa. Vou lhe mostrar a cobra... 

— Sinceramente seu Pescoço? Tenho medo desse tipo de bicho...

— Sujeitinho, se prepare. Comerei você vivo... e palitarei os dentes...

— Minha carne é um pouco indigesta.

— Minha filha ao que parece não comunga da mesma opinião...

— É que ela não tem o paladar apurado. To rachando fora...

— Alto, lá. Ninguém sai...

— Tá, mas eu não quero entrar...

— Isso, pai. Ele quer sair.

— Precisa passar antes por cima de meu cadáver.

— O senhor pretende morrer?

— Eu não, mas você, com certeza, pode encomendar a alma. Mandarei preparar um monte de alface e cenoura para cobrir a sua cara de tarado... olhe para sua vara...

— Por favor, seu Pescoço... deixa eu ir...

— É pai, deixa Papacum ir... ele já estava de saída. Não é Papacum?

Antes que o rapaz respondesse, Pescoço de Girafa tomou a frente:

— Esse vagabundo pretende sair daqui pelado e com essa cobra em posição de dar novo bote?

— Seu pescoço, como pode ver, a cobra encolheu...

— E, pai. A cobra desespichou...

— Mas antes de desespichar, comeu a maçã.

— Que maçã, seu Pescoço?

— Vou lhe mostrar a maçã.  Em guarda...

Pegou o cinto que lhe segurava as calças, se recompôs e berrou:

— Hoje você vai conhecer o Toledo.

E ordenou à filha:

— Sua vadia, vá pegar o Toledo.

— Pra que, pai?

— Não faça perguntas. Pegue o Toledo. Quero o Toledo. Me traga o Toledo

— Pai, por favor, pelo amor de Deus. O Toledo não...

Pescoço de Girafa, espumando de raiva e ódio tudo junto e misturado:

— Pegue as suas roupas, se recomponha e vá no meu quarto buscar o maldito Toledo...

Papacum, fora de si, chorando em bicas, caiu de joelhões:

— Quem é o Toledo, seu Pesco... Girafa... digo, seu Pescoço de Girafa? 

— Mércia, não vou repetir... me traga o Toledo...  Vou contar até cinco ... um...

— Calma, pai, o Toledo não... por favor...

Pescoço de Girafa, agora completamente fora de si:

— Dois...

Aos berros, as roupas nas mãos, Mércia se mandou, apressada, para o quarto do pai. Retornou com o tal do Toledo.

O tal do Toledo se constituía numa foice tipo a da morte, porém, com um cabo mais comprido. Pescoço de Girafa sem mais perca de tempo, empunhando a foice do lado contrário, ou seja, pelo cabo, agarrou o rapaz pelo braço e com força descomedida caiu pra cima, desferindo várias porretadas nas genitálias do atrevido e miserável. Na terceira pancada, o rapaz se contorceu de dor e desespero, as “coisas dependuradas” mais vermelha que tomate estragado em face das pancadas recebidas.

— Pai, pelo amor de Deus – berrou a menina...

— Pe... pe... lo... a... mo... mor... de... De... de... De...us... se... se...u... Gi...

Na sexta cacetada, o frangote desmoronou no chão feito um pacote bêbado. Transtornado, fora, de si, Pescoço de Girafa cessou os açoites. Não seria mais necessário. Veio, então, a fase final da admoestação. Pescoço de Girafa, dessa vez, usando a foice, desceu-a sem dó nem piedade, cortando numa única e derradeira pancada os despojos ensanguentados do que restou do brinquedo do infeliz. Satisfeito, rindo a mais não poder, caminhou até o banheiro, atirou os restos mortais do pênis do adolescente e acionou a descarga. Em seguida, pelo celular, ligou para a polícia e pediu uma ambulância do SAMU.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Pavão, Nova Venécia, Espírito Santo, 21-4-2026

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