sexta-feira, 26 de junho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Uma lição de vida pode surgir de onde menos se espera

Aparecido Raimundo de Souza

ANTES DE TUDO, é preciso explicar para gregos e troianos o que é um Tacho. Esse trocinho (de nome feio) vem desde os tempos de nossos avós. É um recipiente grande, entranhado e geralmente coberto de metal da cabeça aos pés, fundido em cobre, alumínio ou ferro “liquifazido” usado tradicionalmente para cozinhar grandes quantidades de comidas saborosas, preparar doces, fazer melado, cozinhar mandioca ou até mesmo fabricar sabão.

Até hoje, no interior, ou nas casas de fazendas e sítios, nas cozinhas de famílias numerosas ou nas festas populares, o Tacho se faz uma peça fundamental: ele fica sobre o fogo por horas, recebendo mexidas constantes, carregado de cheiros que se espalhavam pelo quintal, pela rua, enfim, por todo o bairro. É considerado símbolo de fartura, de trabalho coletivo, de refeições feitas com calma e repletado do mais saboroso carinho.

Nesse tom, o nosso Tacho aqui transformado em formato de crônica, continua sendo aquele trocinho dos tempos idos, ou seja, segue a sua trajetória trazendo alegrias. É ele, aquele ser (inanimado), ou aquele ser pervertido, (no bom sentido) que não se sabe por qual cargas d’água, segue sendo aquele cidadão (cidadão?), que do nada, num repente, se lhe der na telha, muda a fisionomia alegre e divertida e passa a espalhar o errado em tudo o que poderia fazer de bom para dar certo.

Este meu texto de hoje, trata disso. Traz à tona, um Tacho zangado. Tudo começou no começo do final de semana, quando Dona Carabina de Assunção resolveu preparar um doce de abóbora, a sua especialidade mais requintada. O Tacho estava guardado num canto da despensa. Se fazia triste, solitário, tipo assim, querendo trepar no fogão e sentar na grelha queimadora sentindo o fogo na sua bunda. Por conta disso, se viu tirado com todo o cuidado, limpo com pano grosso e posto sobre o suporte onde ele queria realmente estar.

E onde ele queria estar?  Nos braços do fogão a lenha, que toda vez que se via acionado, soltava labaredas altas. A receita a ser posta em ação, se consubstanciava simples: abóbora madura, açúcar, um pouco de água, cravo e canela. Mas como toda história que vira calamidade, nessa hora o erro começou pequeno, quase imperceptível. Dona Carabina de Assunção colocou a abóbora cortada em pedaços, acrescentou o açúcar, mas por algum motivo se distraiu com a conversa da vizinha fofoqueira que parou à porta e veio falar do Lula Mula. Dona Carabina de Assunção odeia essa desgraça.

Pois bem! Por conta dessa conversa, dona Carabina de Assunção esqueceu de mexer o que havia colocado dentro do Tacho logo no começo. Ao se dar conta do erro, vociferou:

— Puta que me pariu...

Quando se lembrou e voltou ao fogão, já havia uma camada grossa de açúcar esbraseada e grudada no fundo do rabo do tacho. Tentou desgrudar com a colher de pau, mas o barulho de raspar madeira em pedra, e o cheiro para lá de calcinado tomava conta de toda a cozinha.

— Não é nada — disse aos seus botões. É só um pouco que passou do ponto.

Contudo, o pior ainda estava por vir. Para remediar, jogou mais água do que devia, achando que a merda diluiria o paladar ruim. Aí o doce ficou ralo, parecendo mais aquela sopa (lavagem) que essas instituições de caridade oferecem aos moradores de rua, do que uma coisa pra lá de apetitosa. Ao provar, percebeu que havia se olvidado também do sal, um pouquinho só, uma picada, digo uma pitada que toda a receita pede para realçar validando o sabor. Na pressa de acertar o desacerto, colocou sal demais. Agora tinha uma mistura estranha: doce queimado, fraco e estupidamente salgado.

— Puta que pariu, gritou de novo, agora mais enfurecida. Ou melhor, não gritou. Rugiu.

E o Tacho, coitado, ou melhor, o Tacho como personagem dessa desgraça, parecia ter vida própria. Quanto mais ela tentava remediar, pior ficava. Mexia para um lado, o doce espirrava para fora, sujando o fogão, o chão, a parede. Mexia para o outro, o fundo estorricado se desfazia em pedaços pequenos que se misturavam ao resto deixando o preparado com textura de areia. O calor aumentava, o fogo ficava mais forte, e o que devia ser um doce brilhante e macio se agigantou numa massa escura, pegajosa, com “gosto desgostoso” de tudo o que não devia ter.

Quando os vizinhos chegaram, esperando comprar e saborear o doce famoso de dona Carabina de Assunção, o que viram foi o Tacho ainda no fogo, fumegando meio desorientado, e pior, com um conteúdo que ninguém teve coragem de provar. Uma sem noção disse: “Esse Tacho está mesmo pirado das idéias”. E o nome pegou. Depois disso, o Tacho “pirado das idéias foi guardado de novo, e nunca mais foi usado para doce. O trocinho ficou conhecido na rua, desde esse desastre, como o recipiente que só trazia confusão, que transformava o que deveria ser bom em fatalidade.

A partir desse adventício meio que alienígena, o babado virou uma espécie de lição: o Tacho, que até então se fazia símbolo de fartura, somente faz agora o que deve se for tratado com atenção, com calma e cuidado. Valeu mais, a bem da verdade, como lição de vida, ou seja, deixou claro e cristalino, quando a gente se distrai, quando quer fazer tudo de qualquer jeito, até o objeto mais útil se transforma num Tacho endiabrado tipo assim, como um aviso de que, na cozinha e na vida, um erro pequeno pode crescer, e o que deveria ser sinônimo de festa acaba, como acabou em um tremendo e infausto confrangimento.

Depois desse dia, o Tacho se viu guardado de novo, desta feita, num cantinho mais fundo do profundo da despensa, onde ninguém mais poderia sequer chegar. Ficou conhecido por toda a redondeza como o “Tacho raivoso”, ou, em outras palavras, “aquele troço desengonçado que tinha o dom de transformar qualquer coisa boa em desgraça”, ou ainda, aquele infeliz que só dá trabalho e dor de cabeça. Mas com o tempo, as pessoas acordaram do marasmo e começaram a entender a lição que ele deixou: o Tacho não é só um recipiente.

Ele tem a sua forma, o seu tamanho, o seu jeito de funcionar, até porque o sujeito exige respeito, paciência e atenção. Se um objeto é tratado como dona Carabina de Assunção o enquadrou, tudo assim, na pressa, ou se distraiu, ouvindo a vizinha vomitar pela boca sobre a porra do Mula, ele sentimental que sempre foi criou, como, de fato, não só criou, deu vida e forma descambando para um problemão. Se a dona Carabina de Assunção o tivesse usado com carinho, se ficasse por perto, se mexesse devagar, se entendesse o seu jeito, ele (ele, o Tacho, de quem estamos falando?) certamente daria o melhor de si. Como sempre fez em usos anteriores.

Por conta dessa pequena distração, o Tacho alcunhado de “desgranhento”, acabou virando uma lição para todos da vizinhança. Lição? Que lição? Na cozinha, na vida, com as pessoas e com as coisas, principalmente com as coisas, tudo tem a sua natureza, e se não respeitarmos o que cada um é, até o que deveria ser sinônimo de fartura acaba sendo ou se transformando num tremendo pé no saco. No caso de dona Carabina de Assunção, um chute certeiro no rosto adormecido e sem a substância de uma piroca estabanada borrando a sua “desfumegada” perseguida.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 26-6-2026

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