terça-feira, 21 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Drama de um ato só

Aparecido Raimundo de Souza

A GENTE costuma pensar que o drama é uma coisa de palco grande, de cortinas de veludo, de vozes estridentes que enchem a sala e de gritos que ecoam nos corredores. A gente espera que tudo venha anunciado, com luzes que de repente surgem do nada, de músicas que encantam, de atores e atrizes que choram e riem, riem e choram, enfim, tudo assim, num espetáculo escrito com letras de forma: “agora vem a parte triste”.

Nesse ponto, todo mundo se engana. Redondamente. O drama de verdade não avisa. Não tem intervalo. Não tem segundo ato. Não tem ensaio. É um ato só, um ato curto e grosso, mudo e calado, e acontece onde menos se espera: num ponto de ônibus, numa fila de banco, na feira livre, na mesa de uma padaria às seis e quinze da tarde, quando o dia já está cansando de ser dia, e a chuva doída para dar o fora, começa a cair fina, grudenta e persistente.

Foi ali nesse momento que eu vi a situação dele.

Era um homem de estatura mediana, uns sessenta e poucos anos, os cabelos brancos e ralos caídos na testa enrugada. Usava um casaco de lã que foi bastante útil em outros tempos, mas hoje trazia as bainhas desfiadas e uma mancha antiga de algum remédio no cotovelo esquerdo. Entrou devagar, quase parando, como quem tem medo de atrapalhar o ar, e foi direto ao balcão mais afastado.

Quando a garçonete de olhos verdes se aproximou com um sorriso fagueiro e mavioso, pediu pão simples, manteiga e queijo em fatias, três unidades e um café com leite duplo e logo corrigiu, baixo, quase sem som: “faz a bebida meio a meio. Nem muito preto, nem muito branco, por favor”. Enquanto esperava para ser servido, se ateve a olhar rapidamente para todas as direções e antes de garota dar meia volta, completou: “O estômago já não é mais o mesmo. Obrigado”.

A beldade sorriu de modo faceiro e cortês dando por concluído que havia entendido de primeira, ou melhor, (como quem já ouvira aquele pedido umas mil vezes de outros clientes que chagaram vinte ou trinta minutos atrás), e foram embora agraciados antes dele colocar os pés ali. Enquanto esperava, o cidadão apoiou as duas mãos no mármore. Mãos grandes, marcadas, as veias saltadas, unhas curtas e limpas, de quem trabalhou a vida inteira com o que a força e o tempo lhe permitiram.

No pulso, um relógio antiquado, de corda, daqueles que o pai ou o avô usavam, com o vidro riscado, mas ainda andando direito sem tropeçar sobre os minutos e cair de cansaço nos cornos dos segundos. De vez em quando ele apertava o botão lateral para ver as horas, como quem não confia muito no tempo, ou como quem espera que ele transite mais devagar, ou progrida mais rápido, nessa altura do campeonato, vai lá se saber.

Tirou do bolso de dentro um celular pequeno, daqueles de teclado, não de tela cheia. Apertou um botão, a luzinha azul acendeu fraca. Possivelmente logo a bateria daria sinais de carecer de uma carga rápida. Leu o que apareceu, ou melhor, se deparou com o que não apareceu: nenhuma mensagem nova, nenhuma chamada perdida. A tela, do nada, se apagou sozinha fechou a carranca depois de dois ou três segundos.

Ele não apertou de novo. Só guardou devagar, como quem oculta uma coisa obtusamente desvanecida que já não serve para quase nada, mas que não se tem coragem de jogar fora. Veio o café solicitado. Ele segurou a xícara com as duas mãos, para esquentar os dedos. Bebeu a goles pequenos, olhando sempre para o mesmo ponto no chão, entre as suas meias encardidas e seus pés de sapatos surrados.

Do pacotinho de açúcar só usou metade. A outra dobrou com cuidado e voltou com ela para o bolso, como quem aprendeu, há muito tempo, a não desperdiçar nada: nem o doce, nem o pão, nem o pouco carinho que ainda aparecia. Na hora de pagar, contou as notas e as moedas uma por uma, e o fez devagar, na palma da mão. Não esse gesto em atrofia por falta de dinheiro. Por costume. Coisa antiga, dos tempos do velho pai.

Ou talvez, por saber o quanto cada nota ou cada níquel custou de suor, do dia que amanheceu cedo, ou de noite que dormiu tarde. A atendente foi até o caixa, e rapidamente veio e devolveu o troco. Três ou quatro centavos, não mais. Ele sorriu para ela, forçou uma exaltação meio chancelada por um “entristecimento” que a bem da verdade, não chegou aos recônditos dos olhos meigos da pequena.

Foi, um desses sorrisos forçadamente amarelos, sem os ares da graça, destituídos de leveza, que a gente aprende a fazer só para não ter que explicar nada ou coisa alguma a ninguém. Enrolou o pão no papel, pôs dentro da sacola plástica que faz barulho. Em passo seguinte, retornou até a porta de entrada. Parou. Abriu o guarda chuva: tinha uma vara quebrada, do lado direito, de modo que metade dele ficava caída para frente, como se também ele já estivesse ofegante de se defender de chuvas passadas.

Olhou então para a rua escura, espiou compridamente. Tudo estava às moscas, ou seja, o quadro se fazia praticamente vazio de vidas. Espiou, de novo para a rua “desertamente” escura. Fez isso por uns dez segundos que pareceram cem anos. Ou mais. Respirou fundo, o ombro subiu e desceu devagar. E então se pôs a ir embora. Foi em frente. Saiu.

Acabou.

Não houve tiro, não houve choro, não houve cena de despedida com frases de efeito. Ninguém gritou, nenhum transeunte correu, vivalma se ateve a dizer “Meu Deus”. Ele, assim do nada, morreu. Ali naquele minuto, deixou de viver, cessou de existir, pelo menos não de corpo. Foi por força de um óbito inesperado. Morreu só um pouquinho, voou a falecimento da esperança, tipo a esperança daqueles exícios prematuramente pequenos, minúsculos, silenciosos, que acontecem todos os dias e que o mundo, na sua grandiosidade imensa nem percebe, ou melhor dito: sequer entendeu a perplexidade do que de fato, aconteceu.

Foi um drama completo, inteiro, do começo, meio e fim, sem cortes, sem edição, sem diretores, sem contrarregras, sem plateia, sem a menor chance, inclusive, do autor tentar refazer a cena para melhor. Foi um ato só. Um apenas. No geral, com um todo imutável que se repete, é assim a maior parte da nossa vida. A gente não quer ver. Os grandes espetáculos têm plateia, ingressos, aplausos, gritos, choros, e o mais importante. Têm crítica no jornal, filmagem para os jornais da noite.

Mas os dramas verdadeiros, os que ficam para sempre na alma, os que permanecem grudados no nosso DNA, são esses: ínfimos, minúsculos, quase imperceptíveis, como um mísero grão de areia, Se fazem mudos, paralíticos engessados dentro de um ato único, que se passa num canto qualquer. Um tipo de acontecimento que se desenrola diante de um balcão frio de uma padaria qualquer.

De outro lado, de uma menina que fala pouco, enquanto a chuva cai lá fora, cai e se esparrama, e só existe uma pessoa no mundo que sabe exatamente o que aquilo tudo significa. E às vezes, muito raramente, um outro que parou por acaso, olhou com calma, espiou compridamente e entendeu, assimilou, pescou o verdadeiro sentido, compreendeu tudo, discerniu sem precisar ouvir ou vomitar uma única palavra.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, no Espírito Santo, 21-7-2023

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