domingo, 2 de agosto de 2026

Dedo numa ferida aberta

O Itamaraty exige desculpas pelas bravatas de Milei, mas tenta minimizar as declarações de Lula sobre o Paraguai — que podem custar caro aos brasileiros

Nuno Vasconcellos


Do ponto de vista prático, o incidente diplomático causado pelas declarações recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Paraguai envolve questões mais sensíveis e seus desdobramentos podem ter consequências muito mais sérias para o Brasil do que as desavenças recentes com a Argentina. Isso mesmo! A pendenga atiçada pelas bravatas do presidente Javier Milei durante a convenção do PL, em São Paulo, no domingo passado, tem tudo para cair no esquecimento. O outro desentendimento, porém, veio em um momento inadequado e suas consequências podem pesar no bolso dos brasileiros.

Como presidente da República, Lula deveria ser o primeiro a saber que esta não é uma boa hora para provocar o Paraguai. Explica-se: desde que as turbinas de Itaipu começaram a girar, nos anos 1980, o Brasil tem, por direito, 50% da carga da usina. Na prática, fica com muito mais, pois compra parte da eletricidade que caberia ao vizinho e sócio. No final, o Brasil fica com cerca de 70% da carga, enquanto os outros 30% ficam com o Paraguai.

O acordo que garante as condições atuais de fornecimento dessa energia, assinado em 2024 depois de longo debate, vence no próximo dia 31 de dezembro. Nos últimos anos, o Paraguai tem endurecido o jogo e ameaçado dar outro destino para os 20% excedentes que vende para o Brasil caso não receba mais por essa energia. O Brasil, por sua vez, considera o valor que paga por essa eletricidade excessivo e conta com uma redução. No fim das contas, qualquer acordo terá que ser homologado pelos Congressos dos dois países. É aí que está o problema: foi exatamente do Congresso do Paraguai que partiram as reações mais iradas às palavras de Lula.

FERIDA ABERTA

Na sexta-feira retrasada, num evento na fábrica da Avibras na cidade paulista de Jacareí, Lula havia dito que a guerra que praticamente aniquilou o Paraguai há mais de 160 anos foi deflagrada porque “certa vez” o país “resolveu invadir o Brasil”. À primeira vista, a frase parece inocente. O problema é que ela toca em uma ferida profunda e nunca cicatrizada entre os paraguaios.

O povo paraguaio rejeita com veemência a ideia de que tenha sido o causador do conflito que praticamente aniquilou o país. E, pior do que isso, que o condenou a um atraso que só agora está conseguindo superar. Nos últimos anos, o Paraguai tem se destacado pela seriedade na condução da economia, com uma política tributária honesta e uma legislação trabalhista moderna. Isso tem feito com que dezenas de empresários tirem suas fábricas do Brasil e as levem para o outro lado do Rio Paraná. Foram 230 de 2007 para cá.

Esse movimento, além da questão da energia, tem gerado tensões entre os dois países. O repúdio à declaração de Lula entre os deputados paraguaios, que terão a palavra final em qualquer acordo, foi unânime. A direita e a esquerda se uniram na rejeição às palavras do presidente brasileiro e muitos já falam abertamente em endurecer o jogo com o Brasil. A solução da crise exigirá uma habilidade que parece ter sido abandonada pelo Itamaraty nos últimos anos.

'FORA DE CONTEXTO'

Convocado a se explicar diante do governo paraguaio, na sexta-feira passada, o embaixador do Brasil em Assunção, José Antônio Marcondes, tentou tirar a responsabilidade de quem falou e transferi-la para quem ouviu as palavras ofensivas. Disse que as palavras de Lula “foram tiradas de contexto”. Resta saber, agora, se o Paraguai aceitará a explicação.

O Itamaraty, nessa história, trata o desconforto paraguaio com pesos e medidas distintos dos que utilizou para reagir às declarações de Milei. Nesse caso, para espanto de ninguém, resolveu dar ao problema uma condução rasteira e ideológica que tem marcado a diplomacia brasileira sob a chefia de Celso Amorim e de Mauro Vieira.

As palavras de Milei em relação a autoridades brasileiras foram, sim, inadequadas. Mas nem de longe significam “afronta” ao povo brasileiro. O Itamaraty exigiu desculpas. A chancelaria da Argentina disse que não tinha por que se desculpar. Em vez de desrespeitar a inteligência dos interlocutores e dizer que as palavras de Milei foram “tiradas de contexto”, preferiu dizer que o episódio não tem força para prejudicar as relações entre dois parceiros unidos por interesses comerciais e geopolíticos sólidos demais para que sejam abalados por algo banal como as declarações de Milei. Nesse episódio, a chancelaria argentina, liderada pelo diplomata Pablo Quirno, agiu como o adulto sensato, que tenta apaziguar os ânimos em vez de inflamá-los.

O Itamaraty, por sua vez, se manteve coerente com a postura que tem adotado nos últimos anos, quando se especializou na arte de falar grosso com as democracias e baixar o cangote diante das ditaduras mais abjetas do mundo. Em nome desse princípio que contraria a tradição diplomática nacional, peca por cobrar dos outros uma postura que ele mesmo não está disposto a ter.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 2-8-2026 

Relacionados:
Esta capa da Veja talvez seja um dos retratos mais acabados da degradação do jornalismo brasileiro, que se tornou vassalo do sistema 
Canal Livre recebe Flávio Bolsonaro para discussão sobre cenário eleitoral 
31-7-2026: De Leste a Oeste, com Ana Paula Henkel – Anthony Fauci: poder, dinheiro e mentiras 
31-7-2026: Oeste sem filtro – Lula diz que não vai usar cargo para proteger Lulinha (Çei…) + Lula mente que é contra o sigilo de 100 anos (Não acredito!) + O médico era o monstro 
Anthony Fauci enganou o mundo sobre a Covid e o tempo provou a verdade + Itamaraty não tem dinheiro para entregar passaportes nos consulados 
Anthony Fauci deixa à posteridade um legado infame, depois de invocar a Quinta Emenda mais de cem vezes numa audiência no Senado 
30-7-2026: Oeste sem filtro – Lula convida m. para um cafezinho + PF recorre ao governo contra decisões de Mendonça + Lula disse que irá derrotar os americanos na guerra da narrativa + Vice de Flávio

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-