terça-feira, 14 de abril de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Galeria de breves instantes

Aparecido Raimundo de Souza

ESTAR SOZINHO, aconchegado por uma ausência robusta, é mais que uma simples presença. É fato concreto. Alguém com certeza ao ler meu texto, perguntará: como? Será que esse cara acha que o silêncio fala mais vigoroso, e o tempo escorre sem pressa e o espaço onde a nossa alma fica guardada sai de seu lugar e vem nos escutar sem interrupções? Na verdade, não sei. Há quem tema a solidão como se ela fosse um vazio sem fundo. Não é. A solidão é uma espécie de abrigo, um lugar secreto onde nos reencontramos depois de tanto nos perder nos ruídos subversivos do mundo.

Sozinho, aqui, com essa solidão, o olhar muda. As cores ganham outros tons, os pensamentos se alongam como sombras ao entardecer. É quando o coração dá um tempo, respira fundo e deixa de competir com o relógio da vida e começa a bater no ritmo da sua própria vontade. Estar sozinho é também resistência. É uma fobia desajuizada como se plantar na frente de uma metralhadora prestes a disparar sem depender da presença alheia para existir. É aprender que companhia não é cura, e que o amor-próprio não é egoísmo, é vida em abundância e sobrevivência quase eternal.

Há dias, confesso, em que o estar só é um degredo árido e fendido e por ser assim, isolado e mortificado, flagelado e supliciado, e o pior de tudo: pesado. E como peso, apesar de morto, “pesa, comprime, esmaga”. A admoestação se senta ao meu lado, sem pedir licença, e teima em me fazer lembrar do que falta, do que foi e do que nunca veio. Nesses momentos enfadados, o estar sozinho é um desafio enorme, tipo um convite à coragem de continuar mesmo sem aplausos. No entanto, é na solidão (essa em que estou exatamente preso nesse momento) que nascem as ideias, que brotam os versos e que se revelam verdades.

É nela, na apertura da abertura da alma enfraquecida, que o meu ser, todo ele se desnuda, e o meu lado humano se reconhece. Estar sozinho não é se flagrar perdido, como se “meu eu” vagasse no meio de um deserto. É, às vezes, estar finalmente em casa. Como agora. Dias atrás, cheguei da rua por volta das dezenove. Tirei os sapatos que me comprimiam os pés (tenho um par de joanetes de fazer inveja aos tênis) e me despi, ficando totalmente pelado. Sentei no sofá da sala, de frente para a televisão desligada. Minha casa, como sempre, inteira só para mim. Sem empregada, sem cachorro, sem gato, sem notificações no celular, sem vozes cruzando os cômodos.

Só eu. Caminhei até a cozinha e esquentei uma xicara enorme de café com leite no micro-ondas. Passei a mão num pacote de bisnaguitas da Bimbo no armário, peguei uma faca na gaveta dos talheres, o queijo e ao cruzar com a geladeira tirei dela uma tupperware com mortadela e voltei à sala. A geladeira me olhou de rabo de olho, por eu estar sem roupas e deve ter pensado com suas forminhas de gelo: “esse cara não bate muito bem da cachola. Agora deu pra andar desvestido com a espingarda pronta pra atirar... Ele que não venha pro meu lado”. Em seguida cutucou as borrachas de vedação e completou seu descontentamento: “Por qual motivo não transita como veio ao mundo quando a Carina, a sua secretária está por perto? Com certeza ela iria se apaixonar pelas bolas”. 

No começo, confesso, senti aquele incômodo típico de quem está desacostumado a viver só.  Geralmente a Carina sempre marca presença. Mas, como hoje é sábado, ela foi levar a mãe no médico e eu acabei tendo que me virar sozinho. A gente vive cercado de gente, de compromissos, de barulhos. Parece que o mundo exige que estejamos sempre acompanhados, como se o isento de tudo fosse um erro de percurso, ou uma falha no sistema. Mas aqui, nesse dia, sem ninguém, sem minha neta, sem a empregada, minha fiel escudeira, percebi que estar sozinho não é estar abandonado.

É estar inteiro. É quando a gente se escuta sem interferência, sem edição. Igualmente no vácuo do pensamento que corre solto, sem precisar pedir licença. É ainda como desabafar mandando a geladeira lamber sabão por estar me criticando silenciosa, porém, me deixando ainda mais pelado do que estou e ir tomar uma lufada de ar fresco junto com o fogão por dar aquela olhada feia em minha pessoa, como se eu fosse um fantasma errante que acabou de cair de um caminhão de mudanças. Lembrei da Sonia, do vigésimo oitavo, dois andares abaixo do meu, uma gostosona que sempre que me encontra na portaria costuma dizer que não conseguia almoçar sozinha em restaurante. “Me sinto esquisita”, ela confessou. E eu entendia. Entendia, porque estar só, em público, parece quase um ato de rebeldia.

Como se a gente estivesse desafiando a lógica social que nos empurra para o coletivo o tempo todo. “Vai, seu corno, se entrosa”. Cá entre nós, acreditem, há uma beleza discreta em estar sozinho. Poder andar pelado, com as mãos nos bolsos, a gente experimenta uma liberdade que não grita, mas sussurra: “Que bunda feia, a dele”. Nessas horas a gente escolhe o ritmo, o caminho, o volume da música — ou o silêncio absoluto. Posso desfrutar da minha varanda, tendo o mar imenso me olhando com suas ondas calmas... como também, não preciso agradar quem quer que seja, explicar ou justificar a minha nudez. Só ser. Claro que há dias em que a solidão pesa. É um tormento. Ela se transforma em saudade, se amolda em vazio, em vontade de dividir o café com leite, a mortadela e as bisnaguinhas com alguém.

Mesmo nesses dias de “sozinhez” total, a solidão nos ensina. Instrui como um botão de rosa prestes a florir, que a nossa companhia também vale. Que o nosso abraço interno pode ser suficiente — ao menos por um tempo. Estar sozinho é como abrir uma janela para dentro. Uma porta para uma introspecção. Às vezes, o que a gente vê ali onde só o nosso vazio se faz presente, é mais bonito do que imaginava. Quando falo em “abrir a janela para dentro”, estou me referindo àquele gesto simbólico de olhar para o interior de mim mesmo. Com a porta, a mesma sintonia meridiana se faz presente.  

É como se, por um instante, a gente deixasse de observar o mundo além do corredor dos elevadores, e voltasse o espiar compridamente para o que está guardado aqui no nosso escondidinho intocável: pensamentos, memórias, alegrias, medos, desejos, contradições. Ao abrir essa janela interna, o que nos espera? Isso pode variar muito: reflexos esquecidos, tipo lembranças que estavam empoeiradas, sentimentos que não foram bem resolvidos, sonhos que ficaram para depois. Podemos percorrer, se for a porta, seguir por cantinhos escuros, rever inseguranças que por vezes evitamos encarar, dores que fingimos não sentir, partes de nós que ainda precisam de acolhimento.  

Mesmo norte, podemos nos sentir como um iniciado na maçonaria, dar de frente com sementes brotando, com ideias novas se avolumando, com vontades que surgem do nada, ou agarrar aquela força interior que a gente nem sabia que tinha. Ou também corrermos o risco de topar com máscaras penduradas, papéis que desempenhamos para agradar os outros, versões de nós que não são tão verdadeiras assim. Iria mais longe e faria algumas descobertas sutis, ou seja, perceberia que gostamos de estar sozinhos mais do que imaginávamos, ou que a nossa companhia pode ser surpreendentemente boa.

A porta enorme que acessa para a minha varanda é uma estrutura de correr toda em vidro. Ela só não corre. Não tem cortinas nem trancas. Mas exige coragem para ser aberta. Porque o que está lá fora, apesar dos trinta andares, nem sempre é confortável — e, ao mesmo tempo, pode ser profundamente revelador. Ao abri-la é como escancarar uma abertura para um outro dentro. E não é um interno qualquer — desses com vista para o mar, ou para o jardim ou ainda para o movimento da avenida. É uma cissura voltada para mim mesmo. E, ao olhar para baixo, nem sempre a paisagem que surge é tranquila.

Às vezes, o que vejo da minha varanda gigantesca, são lembranças que estavam guardadas em caixas sem rótulos. A infância que passou rápida demais, os amores que não ficaram, os medos que ainda moram na cômoda do quarto da minha empregada.  Outras vezes, a vista é surpreendente: ideias que nunca tinham sido pensadas, desejos que estavam adormecidos, uma força que a gente nem sabia que tinha. Tem dias em que a minha varanda revela bagunça.

Emoções espalhadas pelo chão, pensamentos empilhados sem ordem, mágoas penduradas num fio de nylon como roupas que nunca secam. Mas há também dias em que tudo parece em paz — como se o sol entrasse robusto e iluminasse até os cantinhos mais esquecidos. Estar sozinho, como agora, eu, aqui pelado, sem nada tampando as partes, é ter tempo de abrir esse caminho para a varanda e olhar com calma.

Espiar à altura, sentir o mar. Afinal, estou no trigésimo. Dou uma geral compridamente, pastoreio sem julgamento, sem presa por um universo inteiro esperando para ser explorado. Às vezes, a melhor companhia é a nossa própria presença. Nunca se sentir preso numa corda de oitenta e um nós.

Agora, nesse exato momento, devorando meu café com leite mortadela e bisnaguinhas, sinto que algo parece ter mudado. Não no aqui, tampouco no lá fora — mas no “dentro do eu” em mim. E talvez seja esse o verdadeiro sentido da solidão: não nos afastar do mundo, mas nos aproximar de nós mesmos. Dias atrás, sentei no mesmo sofá com a casa inteira, para variar, como sempre, só para mim. Por todos os cantos, um silêncio tão absoluto que até o ar parecia constrangido. Sem televisão, sem celular, sem a vizinha do lado gritando com seus cachorros.

Só eu, uma caneca de café com leite, e a sensação de que, se eu desaparecesse por algum motivo, ninguém iria notar por uns bons pares de dias. No começo, achei libertador. Finalmente, a paz! Mas depois de dez minutos, comecei a conversar com o condicionador de ar. Ele não respondeu, o que achei uma grosseria. Fui até o banheiro e encarei o espelho. Tentei puxar um papo furado qualquer. Ele só me devolveu a cara de quem claramente precisava de mais sono e menos ansiedade.

Estar sozinho como já disse acima e repito, é como abrir uma janela para dentro. E quando a gente abre essa janela, não tem paisagem bucólica nem passarinho cantando. Tem um amontoado de boletos vencidos, conversas que você deveria ter tido há dois anos, e aquele pensamento aleatório tipo “Será que o meu teclado, um Nord Stoge 4 vermelho sonha?”

Também tem coisa boa. A gente descobre que gosta de comer salada de alface, couve refogada, arroz feito na hora e que ao ouvir Eduardo Costa se dança melhor sem plateia, e que falar sozinho é uma forma legítima tipo reunião de brainstorming. Vocês, meus caros leitores, já participaram de um brainstorming? Nem eu! 

E o melhor disso tudo: ninguém te julga por andar pelado, por rir alto de um meme às oito da manhã, ou as três da madrugada ou por usar a mesma roupa por três ou quatro dias seguidos (afinal, quem vai saber?). Claro que tem dias em que a solidão pesa. Esfola o esqueleto a ponto de deixar a gente meio para baixo. Quase a desgranhenta nos aniquila, nos machuca e quando não nos tira do chão, nos arrebenta. E quando isso acontece, o que fazer? 

No instante em que ao abrir a geladeira e ela só nos mostrar um litro de água, uma caixa de leite vazia, e um pote de requeijão sem fundo. Saída? Tomar um belo de um banho frio... batendo uma punheta e revirando os olhinhos para uma saboneteira com corpo de mulher e seu traseiro exuberante. Quem quiser, me avise. Possuo em estoque algumas unidades para venda. Me liguem.

E tem muito mais, afora isso. Existem os personagens ausentes. Os filhos, por exemplo. Aqueles que você criou com afeto e arroz com ovos cozidos. Eles cresceram, voaram, e agora só aparecem quando o Wi-Fi da casa deles cai, ou quando precisam de um Pix “rapidinho, pai”. A gente manda mensagem, pergunta se estão bem, e recebe um “Td sim” seco, como se fosse resposta automática do banco Master com a voz de veado fresco do Vorcaro. A minha ex também não telefona. Nem para reclamar, o que já seria um sinal de vida. Nem para informar que o vizinho do lado direito morreu ou que a privada do banheiro social da irmã dela, (minha cunhada) sumiu e levou a tampa. Incrível!

E olha que eu fui um bom ex — não fiz escândalo, não deletei as fotos dos nossos anos vividos juntos. Mas parece que, depois do adeus, virei um item de museu: interessante, mas dispensável. E os vizinhos? Ah, os meus vizinhos... passam por mim no corredor como se eu fosse uma planta ornamental com cara de tarado, tipo aquele Lobo malvado querendo devorar a Chapeuzinho Vermelho e palitar os dentes com à vovozinha.

Nem um “bom dia”, nem um “tá calor hoje, né?”. Outro dia, espirrei no elevador e ninguém disse “saúde”. Fiquei tentado a espirrar de novo, só para ver se alguém reagia. Qual o quê!  Aparentemente, virei invisível. Se ao menos eu peidasse... pois bem! Nesses momentos, o estar sozinho é quase um castigo divino. Mas aí a gente se lembra que pode pedir comida sem precisar dividir as batatas fritas e o refri com ninguém. E isso, uau! Isso é o verdadeiro luxo. Puta que pariu!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo, 14-4-2026

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