terça-feira, 25 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O inesperado salvador da pátria

Aparecido Raimundo de Souza

NA CELA ALFA 1025 do Corredor “B”, do pavilhão 4, eram ao todo, em número de sete. O preso Renato do Rego Melindrado, conhecido como 675, ou como lhe alcunharam os demais moradores do barraco, de “Tatu”, esperava que o preso Ariclério Bebezão da Costa, no dizer dos detentos e detidos, um infeliz “marinheiro de primeira viagem” registrado como o 1877 se curvasse aos instintos bestiais do Renato. Na verdade, ele, Renato, queria que o novato fosse a sua mulher. Literalmente. E, como tal, cuidasse dele, das suas roupas, lavasse as suas cuecas, fizesse a sua comida, providenciasse os seus banhos e lhe higienizasse, sem melindres asseando as partes íntimas, como se ambos vivessem uma vida normal, tipo marido e mulher.

Renato do Rego Melindrado, ou o asqueroso 675, até agora, só conseguiu, a muito custo, colocar no 1877 ou para ficar bem explicado, o Ariclério Bezerrão da Silva, uma calcinha cor de rosa minúscula, com um coraçãozinho na parte de trás e, por cima dela, uma sainha bastante curta e esvoaçante, que ao abaixar deixava a mostra toda a retaguarda ainda virginal do infeliz enterrada em seu rego de aspecto esfomeadamente magro. Essa façanha teve efeito com a ajuda dos detentos 455, 903, 524 e 719, respectivamentes o Perrota, o Minguadinho, o Chico Beiçudo e o Tiguel. O preso Ariclério, infelizmente era marinheiro de primeira viagem, ou seja, grosso modo, um novato e infeliz ainda completamente virgem no sentido látego da sofrida e penosa vida carcerária. Dos seis, havia um sétimo ocupante, o esquisito e temido 666’, ou o Negro Caladão. Esse personagem, um sujeito com cara de poucos amigos, quase batia a cabeça no teto. Alto, magro e careca, numa briga que tivera com outro detento da ala M. acabou deixando o cara com um olho furado. No mais, se fazia no único inquilino que ninguém se metia com ele, nem mesmo o salafrário do 675.

Os crimes desse agregado temeroso os piores de todos. Homicida, matava para ver o tombo. Mandava quem quer que o seu santo não agradasse da fuça, logo se punha a caminho de ver Deus ou o diabo mais cedo. A figura matava por puro gosto e prazer. Sem falar que da sua ficha voavam relatos escabrosos, do tipo, “matava por diversão” ateando fogo em pessoas vivas, em crianças e adolescentes, sem mencionar os inúmeros estupros com menores de idade. Antes de ser preso pela última vez, decapitou a própria esposa, as duas filhas, e, de lambuja, tirou a vida dos próprios pais. Suas condenações passavam de duzentos anos.  No dia a dia da cela, esse cara se prostrava num canto e não se socializava. Lado outro, por medo de ser morto à noite, na hora em que todos estavam tentando conciliar o sono, o 1877 fazia de tudo o que o 675 ordenava, sem fugir à risca, exceto (pelo menos, até agora, o se entregar de corpo e alma como a garota-mulher, ou a diva bonita, gostosa carinhosa e leal, se prestando a receber, sem pestanejar os afagos brutais e asselvajados do crápula, perverso e desalmado, Renato do Rego Melindrado. Como se dizia vulgarmente, do alto da sua triste situação, o 1877 estava intimidado e acovardado. Cagava um quilo certo, ao tempo em que vislumbrava seu futuro como uma névoa funestamente ilacrimável, em face da situação deteriorante que o envolvia a cada novo começo e final de dia.

No pequeno cubículo, o detento 455, o (Perrota), recebeu a incumbência de cuidar do 1877 com carinho, ou seja, “que ele não saísse da cola da futura esposa do Renato” no período em que ele, (o 675) estivesse trabalhando nas oficinas do presídio ou a noite, estudando. A ordem passada com voz estertórea, foi a seguinte: “em hipótese nenhuma você desleixe da futura mulherzinha aqui do seu colega de cela, dispensando a ela todos os cuidados necessários”. O Ariclério Bebezão da Costa, logo que chegou, coitado, tomou uma surra memorável do espevitado (903, o Minguadinho), esse sujeito, um pau mandado do temeroso “Tatu”, em carne e osso, simplesmente porque o moço não quis, de cara, na primeira noite, se deitar com ele e “pagar um boquete”.

Na gíria das grades, o Ariclério se negou a ”tocar a flauta do Tatu”, sem sair da melodia e pior, temeroso de se perder na complicada partitura posta à disposição de seus dedos boca, língua e olhos. Ariclério ainda não completou dois meses desde que veio transferido da delegacia da localidade de Fundão. O crime cometido por ele? Desempregado, sem ocupação rendosa, se prestou a “afanar” um pacote de biscoitos num supermercado dessa pequena cidade para levar para a sua esposa e filha. Apanhou muito na passagem pela DP de Aracruz, (cidade próxima) para onde foi levado após o crime e entrou nos tapas, de novo, assim que se viu no presidio, na mesma sela do 675.

O famigerado 675, lembrando, por sua vez, assim que “botou os olhos” no novo interno, “se apaixonou por ele perdidamente”, a ponto de, logo de primeira, querer que o rapaz se transformasse em sua “cara metade”. Diante da recusa expressa por conta dessa aberração, “Tatu” caiu em cima dele dando-lhe uma surra memorável de cinta, ordenando, em seguida, aos demais inquilinos que ninguém lhe servisse, sobre nenhuma hipótese, um prato de comida, ou qualquer outro tipo de alimento ou bebida, como café, água, ou até mesmo uma fruta podre. A ideia desse infeliz, não outra, senão a de vencer o recém-interno pelo cansaço e o mais terrível, que o tempo em jejum o crucificasse pela senda catastrófica do estômago vazio.

Por essa razão, o 1877, além de recolhido feito cachorro caído de um caminhão de mudança, e se sentindo um zé ninguém em meio de uma divisão esfacelada, estava, a bem da verdade, bastante fraco e debilitado, repletado de fraturas expostas por todas as partes do corpo, em vista do seu quadro recente, ou seja, de se ver estropiado dos pés à cabeça pela tunda recebida como mensagem de “boas vindas”.  Envolto em suas desditas, o moçoilo percebeu aturdido pela ruinaria das boas vindas nada auspiciosas dos novos colegas, um porvir bastante negro, e, por conta, se pilhou, de imediato, em meio desse fatídico dia, diante de um mal e degradante amanhã.

O 675 também deixou claro que “ninguém deveria tocar” um dedo no belo jovem”. “Tocar”, bem entendido, no sentido de abusar do pobre diabo sexualmente. Quem transgredisse essa regra, pagaria com a vida. O preso 455, (Perrota), o mais novo em idade dos condenados, foi escalado “a dedo” para tomar conta do infeliz 1877, até que ele se restabelecesse completamente da sova levada. Acabada a convalescença, sem mais delongas, ponto pacífico, se casaria, nem que fosse na marra, com o 675. Para não confundir e a coisa não se quedar esquecida, o 675 se abancou o dono do pedaço. O manda chuva. Em outras palavras, ele era o “Xerife”.

E como senhor do “barraco-cela”, não pedia, mandava, não requisitava, ordenava. Quem mijasse fora do penico, recebia o castigo inesquecível: Nesse tom amistoso as ordens se faziam cumpridas à risca:

— 455, me leve pra cagar...

O 455 obedecia sem pestanejar. Ficava de joelhos permitindo que o 675 se atrelasse com seu corpanzil em suas costas.

— Pode ir... cuidado para não me derrubar...

Em face dessa barbárie, o 455 transportava o pesado 675 até o “boi”, (uma espécie de privada-cubículo dentro da cela-barraco). Eram apenas alguns passos, mas para o 455, que possuía a compleição franzina, o caminho a ser percorrido, parecia uma eternidade.

— Puxe a cortina e espere... depois de expelir o “barro”, quero tomar banho. Me ajude no banho. Começa me trazendo a toalha.

O infelicitado e desditoso 455 se prostrava do lado de fora, enquanto o 675 fazia as suas necessidades fisiológicas:

— Me traga o papel higiênico. Rápido, merda... cadê a toalha?

Enquanto isso, o preso 903 (o Minguadinho) mais o Chico Beiçudo, 0 524), cuidavam do companheiro 1877. Em aparte, sempre no seu canto, o impenetrável e insondável 666, numerário de Negro Caladão. Sempre se mantinha mudo e calado, dormia ou fingia dormir a sono solto. Era o único encarcerado cumprindo, como já foi dito, possuidor da ficha mais enfumaçada e horripilante em face das atrocidades. Por essa inconveniência, ninguém se dirigia a ele. Os demais reclusos, Perrota, o  (455),  Minguadinho (903) e o Chico Beiçola, o (524) estavam fora de circulação por problemas de pensões alimentícias devidas as ex-mulheres, agressões, ameaças, e cárcere privado. Esses enlaçados pelas algemas da lei, fizeram logo uma amizade sincera, (se é que se pode chamar esse tipo de camaradagem construída sob a mais perversa tortura, de alguma coisa sincera).

Todavia, o destino os uniu de forma despretensiosa. Um laço de afeição e cumplicidade brotou entre essas almas esquecidas pelo Senhor do Universo.

— Tome amigo, se achegou o Perrota, (ou o 455). Consegui esse analgésico. Engula logo, antes que o 675 desocupe o buraco cagador...

— Sem água?

— No seco. Mete pra dentro e pronto...

— Obrigado. Escuta, não tem como a gente sair daqui?

Quem respondeu foi o 903, pulseirado como (Minguadinho):.

— Fale baixo, seu sem juízo. Ficou louco? Tem sim...

— Como? Me diga...

— Morto. Até hoje não conheço ninguém que conseguiu essa proeza.

— Por que está me ajudando inquiriu o 1877?

— Você mesmo ouviu as ordens expressas do manda chuva. Você é a prometida do 675. Tenho que deixar você em forma para a noite de núpcias. Renato vai te comer literalmente vivo... sem falar que depois vai palitar os dentes com as ´pregas da tua bunda...

— Pelo amor de Deus...

— Se te serve de consolo, passei por tudo isso — seguiu argumentando o rapaz. Ele fez comigo e acredito que tenha agido da mesma maneira com os demais, exceto com o babélico e secreto 666. Breve a sua pessoinha magricela entrará na rola. A “bola da vez”, como se costuma dizer por aqui. E acredite, meu amigo: nenhum dos que aqui estão cumprindo pena, levantará um dedo para lhe defender...

— Ele mandou vê em você?

— Me usou, fez gato e sapato, por fim me colocou AIDS...

— O quê?!

— Isso mesmo que ouviu. Sou soro positivo. Graças a ele. Você não tem escapatória. Vai ter que liberar o cano de descarga. Ser a mulher do xerife.  É assim ou morrerá...

— Eu sou homem. Não me submeterei...

— Eu também era. Todos os demais que estão aqui, sem tirar nem pôr, com exceção desse alienígena, (fale baixo), o 666.  E olha no que acabamos...

— Podemos confiar nesses outros?

— Apenas em mim, no 903, e no 504. Jamais, repito, no 666. Com relação a dar o cu, resisti até onde as forças aguentaram. Acordei, dia seguinte, com o cabelo e a cara cheia de porra, sem falar no buraco anal ardendo...

— Meu Deus!...

— Vá se preparando. Seu fim é dar o bagageiro fedegoso para o Bebezão e virar membro da confraria. Igual a mim, todos os demais...

— Morro se for preciso, mas não soltarei o meu roscofe. Quer apostar?

O outro foi curto e grosso:

— Guarde seu dinheiro...

— Vou mostrar a vocês que esse meu rabo que mamãe beijou, desgraçado nenhum canta de galo... nem enfia linguiça podre...

— Eu vou mais longe um pouco — completou o 455. Apostarei que você não só dará o bufante ao Renato, como também, antes do seu casamento, só para esquentar as sacanagens que vierem em seguida, você cairá de boca e língua e chupará com gosto descomedido a piroca dele na frente de todos nós. E o mais grotesco: pedirá bis... vai treinando as mandíbulas. Renato fará você pedir bis em alto e bom som...

— Jamais, jamais...

— Pra lá caminhamos...

Exatos sessenta dias depois, o Renato do Rego Melindrado deu o aviso que gelou o sangue de todos, em especial do 1877.

— Atenção, rapaziada. É hoje...

E virando para o 1877, completou os dentes abertos num sorriso maldoso.

— Meu amor. Essa noite, quando eu chegar da escola, você será transformada em minha esposa... 

Amedrontado, acuado e tremendo pior que vara verde, o 1877 caiu em pranto sentido.

Por volta das vinte e duas horas, o 675 chegou do trabalho com uma calcinha nova:

— 455, você mais o 903 preparem a noiva. Quero um banho no capricho na minha donzela. Lavem bem o buraco anal dela. E lhe escovem os dentes. Trouxe um perfume. Vou me entrevistar com o diretor...

Gritou um dos guardas.

— Zaqueu, venha cá.

Zaqueu atendeu prontamente.

— Me leve ao diretor.

Assim foi feito.

Por volta da meia noite, o maldito 675 retornou.

— E aí, a minha princesinha está nos trinques? 

— Sim, respondeu o 455.

— Então vamos em frente... tragam a donzela...

Trouxeram o 1877 completamente amarrado. O 455, o 903, e o 719 fizeram, a força, logicamente, o desvalido e azarado sentar na cama improvisada com novas caixas de papelão.

— Abra bem a boca da menina. Hoje ela vai sugar meus colhões e em seguida, abocanhar a piroca do seu macho... depois “dessa esquentada inicial”, (e virando-se para o 1877, completou): — Meu amor, de hoje você não passa. Vou invadir o túnel do seu escondidinho e fazer você gritar e gemer rebolando igual uma dessas putas vagabundas do Parque Moscoso. A ponta da minha linguiça já está no ponto. Passarei mel para ficar mais deliciosa. Venha, gruda nela...

1877 quis gritar, mas o 455 e o 903 munidos de um tampão improvisado em ordem expressa do 675, enfiaram esse trambolho como uma bucha descomedida à base de cuecas usadas boca adentro:

— Se gritar, lhe arrebento o bucho com este punhal na barriga...

— Comesse... mame...

O 1877 balançava a cabeça aos prantos, ao tempo em que sinalizava um “não” sem nenhum tipo de voz ou sorte que o pusesse fora daqueles trogloditas.

— Engula seu prato preferido...

O 675 pediu que liberassem a boca. O chumaço foi removido.

— Me mate, mas não chupo...

Um tremendo tapa se fez ouvir. O 1877 quase desmaiou, ao receber o castigo em pleno rosto:

— Chupe... mame, se lambuze gostoso. Revire os olhinhos. Toque a flauta do seu “Tatu...”.

Sem saída, 1877 fazendo cara de vômito, finalmente enfiou a enorme banana do 675 na boca, e o fez até a base do talo. Ninguém percebeu o 666, o sanguinário Negro Caladão se levantar furtivamente de onde parecia dormir. De repente, do nada, de súbito, um grito entropigaitado de terror incontido como se escapulido às pressas dos cafundós do inferno tomou conta da cela. O 1877, tão logo abocanhou a ferramenta do seu algoz e com todas as forças que conseguiu juntar, se viu empurrado de lado pelo 666 que inopinadamente tomou-lhe o lugar.

Sem mais perca de tempo, o Negro Caladão lhe aplicou com uma navalhada (sabe se lá vinda de onde), arma essa dotada de uma pontaria certeira que atingiu as genitálias do 675, estraçalhando definitivamente a sua trolha desde a base. O 675 caiu aos berros ao tempo em que se contorcia como se tivesse levado uma facada bem no meio do coração. Essa inesperado acordou o presídio em peso, com urros de socorro. Jorrando sangue em abundância, os guardas foram chamados. O 675 se viu levado as carreiras, seguido por um rastro de sangue deixado a sua retaguarda, Na enfermaria, sem médico àquela hora, foram obrigados a comboiarem com urgência urgentíssima o despirocado, para Vitória. 

O 455, o 903, o 524 e o 719, nesse interregno, cataram do chão o membro, melhor dito, o que restou de pênis do amaldiçoado Renato do Rego Melindrado e o jogaram imediatamente no “boi”.

— Sem pinto —, vociferou o 666 rindo a mais não poder, (até então silencioso e pacífico): 

— Quero ver esse filho da puta cantar de galo outra vez por aqui...

O detento 1877 permaneceu por pouco tempo na enfermaria. Soube-se à depois que uma ambulância da Polícia Penal foi acionada e o sujeito se viu transferido as carreiras para um hospital em Vitória. E por lá ficou um longo tempo. Quanto ao Ariclerio, graças a um Habeas Corpus impetrado por um advogado contratado pela sua esposa e familiares, a liberdade do 1877 lhe sorriu vinte e dois dias depois desse incidente com ares da mais pura e almejada felicidade.

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA: O texto aqui trazido, acontece com muita regularidade nos principais complexos penitenciários Brasil à fora. O caso em tela, se passou no “Complexo Penitenciário do Xuri”, em Vila Velha. Os nomes dos envolvidos foram trocados para as suas identidades seguirem preservadas e longe de especulações maldosas, notadamente da imprensa.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 25-8-2026

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