Aparecido Raimundo de Souza
A vida, que antes se
fazia feita de urgências e compromissos, agora se transformou em adiamentos. O
meu médico recomendou caminhadas na areia da praia, mas eu deixo sempre para
amanhã. O “Torto arado” do escritor baiano Itamar Vieira Junior que estou lendo
se faz quase no fim. Em outros tempos ele estaria repousando intacto na
estante, junto com o Zé Lins do Rego e o Paulo Coelho, ou de braços dados com a
Zélia Gattai e Cassandra Rios, esperando que eu o abrisse e talvez nunca
tocasse em suas páginas.
Até as conversas com
meus familiares (que deveriam ser mais produtivas e constantes), eu as guardei
para depois, como se kikikikikiki, como se houvesse sempre um “mais tarde”
ainda disponível. Percebo, todavia, há uma estranha paz nesse empurrar. Não é preguiça,
tampouco descaso. É como se eu tivesse descoberto que o tempo, quando não é
disputado, se torna mais macio e brando, maleável e sutil. Empurrar pra barriga é uma forma gostosa de
negociar com a solidão sem negar que ela existe, mas também não se curvar ao
seu peso além das minhas forças.
Enquanto isso, o mundo lá fora me lembra o Jair Rodrigues. Corre em “disparada”. Os meus vizinhos, se atropelam em filas de bancos, em caixas de supermercado, em portas de puteiros, em prazos, em metas a serem cumpridos com rigores exorbitantes. Ao contrário de mim, aqui dentro do meu quadrado, aprendi a saborear o atraso. O café da dona Elvira, minha secretária do lar demora a esfriar. O texto que careço de enviar para a redação da revista para a qual escrevo, dorme a sono solto na tela do meu computador, assim como os abraços das minhas filhas Amanda e Luana e também dos meus netos Heitor e João Eduardo demoram e se prolongam para serem dados.































