Aparecido Raimundo de Souza
A vida, que antes se
fazia feita de urgências e compromissos, agora se transformou em adiamentos. O
meu médico recomendou caminhadas na areia da praia, mas eu deixo sempre para
amanhã. O “Torto arado” do escritor baiano Itamar Vieira Junior que estou lendo
se faz quase no fim. Em outros tempos ele estaria repousando intacto na
estante, junto com o Zé Lins do Rego e o Paulo Coelho, ou de braços dados com a
Zélia Gattai e Cassandra Rios, esperando que eu o abrisse e talvez nunca
tocasse em suas páginas.
Até as conversas com
meus familiares (que deveriam ser mais produtivas e constantes), eu as guardei
para depois, como se kikikikikiki, como se houvesse sempre um “mais tarde”
ainda disponível. Percebo, todavia, há uma estranha paz nesse empurrar. Não é preguiça,
tampouco descaso. É como se eu tivesse descoberto que o tempo, quando não é
disputado, se torna mais macio e brando, maleável e sutil. Empurrar pra barriga é uma forma gostosa de
negociar com a solidão sem negar que ela existe, mas também não se curvar ao
seu peso além das minhas forças.
Enquanto isso, o mundo lá fora me lembra o Jair Rodrigues. Corre em “disparada”. Os meus vizinhos, se atropelam em filas de bancos, em caixas de supermercado, em portas de puteiros, em prazos, em metas a serem cumpridos com rigores exorbitantes. Ao contrário de mim, aqui dentro do meu quadrado, aprendi a saborear o atraso. O café da dona Elvira, minha secretária do lar demora a esfriar. O texto que careço de enviar para a redação da revista para a qual escrevo, dorme a sono solto na tela do meu computador, assim como os abraços das minhas filhas Amanda e Luana e também dos meus netos Heitor e João Eduardo demoram e se prolongam para serem dados.
Aliás, meus filhos
todos criaram asas grandiosas. Voaram para outros mundos distantes do meu
alcance de pai. Quando finalmente esse instante tanto tempo esperado acontecer,
se realmente acontecer, possivelmente eu não estarei mais aqui para me deleitar
e lembrar dos tempos em que eles eram apenas crianças que precisavam de colo,
carinho e atenção. Talvez seja isso que reste: não a quantidade de dias, mas a
qualidade dos adiamentos. Empurrar pra barriga o tempo que me sobra é, no
fundo, uma forma meio imprópria de dizer que ainda quero viver só que no meu
ritmo, sem o relógio e os ponteiros da urgência.
Faz bom tempo durmo e
acordo, acordo e durmo sem a sonoridade barulhenta do despertador que ganhei de
mamãe quando ainda era viva. Não é porque conquistei a liberdade, esqueci de
colocar a porra do celular para carregar na bunda da tomada. O tempo que me
resta? Ah, esse tempo eu vou empurrando pra barriga, como quem acotovela na
boca as derradeiras batatas fritas quando já se está satisfeito. Não faço mais
planos. Se amanhã vier, ótimo; se não vier, pelo menos não perdi tempo sonhando
acordado. Sonhar acordado faz a gente cair num pedestal leirado
O tempo de sonhar
acordado já se foi para a casa do carvalho. Vivo sem pensar no agora, no
depois, ou no amanhã. Levo a vida na flauta, sem me preocupar com o minuto
seguinte. O cartão de crédito venceu?
Sim! O prazo expirou? Idem! Eu?
Eu continuo aqui, tomando meu café, comendo meu pão com mortadela, ou a minha
pipoca e achando graça das atrapalhações afogadiças dos meus vizinhos. É
mirífico e inaudito como todo mundo se fode, se mata, arranca os cabelos, toma
remédio para dor de cabeça, ou corre no encalço de algo: promoção, viagem,
status...
Eu persevero
atabalhoado apenas atrás do “40 janelinhas”, o ônibus que passa aqui na minha
rua, e, mesmo assim, só se ele estiver muito vazio. O resto, faço como Mark
Manson ensinou em seu livro “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se”. E empurro pra
barriga. Porque, convenhamos, a barriga é o melhor cofre: guarda promessas,
dietas, projetos e até aquela conversa séria que nunca aconteceu. E se alguém
me acusa de procrastinar, eu respondo de cabeça erguida e com orgulho do alto
dos meus setenta e dois: não é procrastinação, é estilo de vida.
Enquanto o mundo fora
do meu universo se afoga em urgências, eu flutuo em delongas e protelações.
Afinal, viver é curto demais para ser levado tão à sério. Via oposta, não sei o
dia da minha partida aqui da Terra e, sinceramente, não faço questão de saber.
Se viesse um aviso oficial de algum anjo eu provavelmente o empurraria pra barriga e mandaria quem escreveu tal aviso tomar no olho do cu e junto com a
dieta da segunda-feira e a promessa de arrumar bem arrumadinho os livros novos
que comprei para serem colocados na minha estante.
Vivo sem pensar no
hoje, no agora, no daqui a pouco, no amanhã. Vou dando uma de Zeca Pagodinho
sem me preocupar com o minuto seguinte. “Deixo a vida me levar”. O relógio pode
até tentar me apressar, ou me vergar, mas por Deus, eu já aprendi a rir dele. Enquanto
o ponteiro corre, eu caminho devagar, enquanto ele marca, eu desmarco, como
quem saboreia um sorvete de chocolate que não quer acabar. E olha que não me
falta satisfação. Não falta mesmo. Os anos que já vivi foram cheios de
histórias, tropeços, gargalhadas, muitas putarias e cafés com leite e pães com
manteiga.
Se a vida fosse um
álbum, o meu estaria bem recheado. Talvez um pouco bagunçado, mas bonito de se
ver, admirar e ser folheado. Nessa altura do campeonato, se alguém me perguntar
sobre planos futuros, eu respondo: planos? Só se for o de continuar empurrando
pra barriga. Porque, no fundo, bem lá no fundo, não é preguiça, é sabedoria. É
saber que o tempo que já passou valeu a pena, e o que vier esse será lucro. No
fim das contas, viver assim é como estar num rodízio de pizzas de mussarela na
Pizzaria da Verônica e do Argentino.
Explico. Comi
bastante, me fartei, estou satisfeito, mas se trouxerem mais uma fatia, eu
aceito sem reclamar. E se tiver uma Coca Cola bem gelada... O relógio da minha
sala insiste em marcar cada segundo com uma precisão cruel, como se tivesse
prazer em me lembrar que o tempo não é eterno. Sentado na poltrona, coçando o
saco, observo o ponteiro avançar e penso com meus colhões, digo com meus
botões: não corro mais atrás dele, apenas vou empurrando pra barriga esse tempo
meio besta que me resta.
Hoje, aos setenta e
dois, durmo, ronco, peido, falo dormindo, espanto uma mosca invisível, assusto
o travesseiro, e o melhor de tudo, acordo sem os gritos do despertador. Não
porque conquistei a liberdade, porque esqueci de colocar o celular pra carregar.
O tempo que me resta? Não sei.
Sinceramente, não sei! Aliás, pouco me importa. O tempo que me resta, esse eu
vou empurrando pra barriga. Sigo em
frente forçando como quem soca um pau buraco de vagina à dentro, e na hora de
gozar ele murcha e grita: “ô filho de uma rapariga. Seu cormo, você esqueceu de
tomar o azulzinho”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Colatina, no Espírito Santo, 27-2-2026
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Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho
E as máscaras dos “carnavais fracassados” por acaso alguém sabe dizer onde ficaram? É mesmo? Onde??!!
Nada mais gostoso que acordar feliz
Tipo um epitáfio, para lembrarem de mim com um sorriso e uma pausa reflexiva
E a besta ressurgiu mais forte dos infernos
O “Eu, sem mim” e o “Mim, sem eu...”
Nem o nosso ouro reluz como em tempos passados

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