Maria Helena Costa
Li com a devida atenção
a entrevista concedida por Leonor Caldeira,
significativamente intitulada «Quando damos a um homem o poder de nos
alimentar, também lhe damos o de nos esfomear». Devo dizer que, embora concorde
que a vulnerabilidade nas relações conjugais é uma realidade tangível e, muitas
vezes, dolorosa, discordo profundamente da análise apresentada. Esta parece
reduzir um problema antropológico e espiritual complexo a uma mera questão de
«poder dos homens» ou às estruturas do patriarcado.
Do meu ponto de vista, o
principal culpado pelo atual. colapso da instituição matrimonial não é «o
homem» em si mesmo, mas sim o feminismo que, nas últimas décadas, moldou de
forma hegemónica a cultura, a escola, o cinema e os media. Assistimos a uma
castração geracional: antigamente, os meninos brincavam aos polícias e ladrões,
aos índios e cowboys, empunhando espadas e pistolas de brincar. Nessas
simulações, aprendiam o instinto de defesa da família e da pátria contra o mal.
Acompanhavam pais e avós na caça e na pesca, aprendendo não só a obter o
alimento, mas a confeccioná-lo; aprendiam, em suma, a ser provedores.
Antes de a escolaridade
obrigatória se estender até aos 18 anos, os rapazes aprendiam, desde cedo, a
profissão dos pais. Nas férias, iam trabalhar para perceber o valor do esforço,
incutindo-lhes a noção de que era necessário dominar um ofício ou estudar
arduamente para sustentar a prole, tal como viam fazer em casa. E hoje? Hoje
é-lhes tudo dado de mão-beijada. Sem terem de suar para obter cama, mesa e
roupa lavada — e exigindo ainda os últimos gritos da tecnologia —, estes jovens
perdem precocemente o sentido de responsabilidade e o vigor da conquista.
Este facilitismo doméstico, que prolonga uma infância sem deveres, encontra o seu aliado perfeito na atual. engenharia social: hoje, a influência feminista diabolizou as brincadeiras de outrora sob o pretexto de serem «violentas». Ao despojarem o rapaz do instinto de lutar e proteger no mundo real, empurraram-no para um exílio digital. O resultado é o quadro desolador que todos conhecemos: jovens que passam a vida fechados no quarto, imersos em jogos de computador que glorificam a morte — esses, ironicamente, já não parecem preocupar as ideólogas —, consumindo pornografia. Enquanto isso, as mães, que saem de casa cedo e trabalham o dia inteiro, veem-se obrigadas a deixar-lhes as refeições prontas e, quando finalmente regressam a casa, exaustas, no pouco tempo que teriam para descansar, ainda têm de lhes levar a comida ao quarto para garantir que eles não fiquem sem comer. Criámos uma geração de homens sem destino, sem ritos de passagem e sem noção de serviço.
Esta ausência de um propósito
viril e protetor deixa o homem moderno à deriva, tornando-o presa fácil das
narrativas que o diabolizam. No entanto, é um erro grosseiro e injusto assumir
que todos os homens são canalhas ou traidores; a esmagadora maioria ainda
anseia, no íntimo, por amar, proteger e prover para a sua família. O problema
reside no facto de o feminismo os ter efeminado ao retirar-lhes a missão, ao
mesmo tempo que lhes entregou as mulheres numa bandeja de prata: oferecendo
sexo sem compromisso, desprovido de responsabilidade e sempre com a cláusula de
escape de que «o amor acabou».
Infelizmente, as mulheres
foram induzidas a acreditar que podem e devem fazer o mesmo. O feminismo
enganou-as com a quimera de que a promiscuidade e a disponibilidade facilitada
são sinónimos de «empoderamento». Ora, não se trata de direitos, mas de fornicação
pura e simples. Inevitavelmente, esta desvalorização do ato sexual conduz
muitas mulheres ao drama do aborto — a eliminação de filhos concebidos em
relações fortuitas. Independentemente do que se proclame, estas feridas são
profundas e carregam um desespero que nenhuma ideologia consegue camuflar.
Mais grave ainda: o feminismo
convenceu os homens de que o sustento da família já não é uma responsabilidade
sua. A mulher passou a ser encarada meramente como uma «parceira na divisão de
despesas» e na partilha do corpo — isto, naturalmente, «quando ela quiser».
Mesmo perante a existência de filhos, propaga-se a ideia de que as mulheres são
tão «empoderadas» que conseguem criá-los sozinhas. O resultado está à vista:
homens que abandonam esposas e filhos sem qualquer remorso, porque a cultura
vigente lhes caucionou essa atitude como uma forma de «liberdade», sob o
pretexto egoísta de que «o que importa é o que te faz feliz».
No livro O Sexo Privilegiado,
o historiador Martin van Creveld demonstra que, ao contrário do mito feminista,
as mulheres foram, em muitos aspectos, o sexo beneficiado ao longo da história.
Contudo, o feminismo moderno inverteu esta lógica de forma trágica. A mulher
deixou de ver o marido como o provedor e protetor para o reduzir ao papel de
«pai dos meus filhos». Quando o marido se torna um elemento descartável, a
mulher coloca-se, por iniciativa própria, à mercê da fome: não porque permitiu
que ele a sustentasse, mas porque o desvalorizou enquanto pessoa. Já ouvi
mulheres afirmarem: «Os homens são como os autocarros: passa um, vem logo
outro». Se esta é a mentalidade, pergunto: por que haveriam os homens de
assumir o peso da responsabilidade vitalícia? Quando um homem deixa de se
sentir essencial, ele abandona o seu posto.
O precedente histórico da
ex-União Soviética serve de aviso brutal. Após 1917, o regime bolchevique
legalizou o divórcio fácil e o aborto. O resultado foi catastrófico: milhares
de homens abandonaram as famílias em busca de prazer sem obrigações. O caos social
foi de tal ordem que, em 1936, Estaline teve de recuar e restringir o divórcio.
Como diz o povo, «a ocasião faz o ladrão». O feminismo criou a ocasião para o
desvario masculino. Perante este cenário, impõe-se uma pergunta excruciante: o
que podemos esperar de uma geração de rapazes que tem como exemplo pais que
abandonaram as mães e mães que trataram os maridos como seres descartáveis? O
ciclo de destruição parece condenado a repetir-se.
Perante este abismo, a Bíblia
é clara e não permite ambiguidades. Em Efésios 5:25, Deus ordena:
«Maridos, amai as vossas
mulheres, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela».
Esta não é uma sugestão
romântica, mas um mandamento divino ao amor sacrificial. Quando a humanidade se
afasta de Deus, todas as instituições por Ele criadas deterioram-se. E são os
mais frágeis quem mais sofre. O verdadeiro problema não reside no «poder de
alimentar», mas na destruição da ordem bíblica que fazia desse poder uma
bênção. A solução está no regresso a Cristo: homens que amem sacrificialmente e
mulheres que respeitem os seus maridos. Só aí o casamento voltará a ser refúgio
e não campo de batalha.
Escrevo com respeito e com a
esperança de que a verdade bíblica ilumine este debate urgente.
Título e Texto: Maria
Helena Costa, ContraCultura,
19-5-2026
_______________
Maria Helena Costa nasceu
em Aveiro, em 1965. É cristã, conservadora, casada, mãe de três filhos e avó de
duas netas.
Preside a Associação Família
Conservadora e é deputada municipal. Realiza regularmente palestras sobre os
impactos das correntes ideológicas contemporâneas na infância. É autora de
várias obras publicadas, entre as quais: Identidade de Género – Toda a Verdade
(2019), #éhoradospais – Uma defesa do superior interesse das crianças (2020),
Feminismo Tóxico (2022), Ideologia de Género – Crónicas publicadas no
Observador (2023) e Identidade de Género – Ideologia ou Ciência? (2025).

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