Aparecido Raimundo de Souza
QUANDO ELE CHEGOU, ela estava na sala, sentada confortavelmente no sofá de frente para o novo aparelho de televisão. Assim que a avistou foi logo soltando as cachorras:
— Como é que faço para me livrar de você?
Ela se ajeitou de um modo que ele pudesse ver os fundilhos de sua calcinha no reflexo do abajur encostado num canto em cima da mesinha do telefone.
— Não vejo como! Por favor, tome assento. Não mordo.
— Deve haver uma maneira... disse ele desmoronando o corpo moído ao lado dela.
— Se ao menos você morasse numa casa que comportasse um aparelho de energia solar...
Ele ficou furioso com a desditosa observação:
— Casa, para mim é impossível. Você sabe disso melhor que ninguém. Mas não conte vantagens, mocinha. Encontrei a solução.
— Posso saber qual?
— Vou sair deste apartamento e morar no morro. Estou na dúvida: se Rocinha ou Complexo do Alemão.
— Sozinho ou com a família?
Ele pareceu hesitar antes de responder:
— Não é da sua alçada.
— Bem, se vai sozinho ou com a família, isso não importa realmente. O fato é que estarei lá.
— Numa favela bem longe daqui do centro de Vila Isabel? Duvido!
— Não esqueça que me faço presente nos lugares mais longínquos do planeta.
— Maldita.
— Posso até ser, mas necessária.
— Não para mim.
— Sem a minha presença em sua vida você não é nada.
— Sem a sua presença minha vida é tudo.
— Prove!
— Já que não quer entregar os pontos, deixa que eu mesma direi.
Para início de conversa, não terá seu banhozinho quente depois de um dia estafante no serviço. Esqueceu dele?
— Sempre tomei banho frio.
— Não poderá usar o barbeador elétrico que ganhou de sua filha.
— Os aparelhos de barbear descartáveis são mais baratos e seguros.