No domingo, 8 de fevereiro, a escolha, agora pintalgada como meramente protocolar, não-ideológica e “moral”, vai ser particularmente consequente e política.
E Ventura, que há meia dúzia
de anos surgiu como “o Perturbador” daquilo a que começou logo por chamar “o
sistema”, está no centro da escolha e da perturbação, gerando uma coligação
negativa, cuja amplitude seria então difícil de imaginar.
Ora esta polarização não se
passa só em Portugal. Depois do fim da União Soviética e do sonho globalista do
comunismo, veio um globalismo plutocrático alternativo e, com ele, a
deslocalização e desindustrialização de muitos países da Euro-América. Na Europa,
esse globalismo tomou a forma de federalismo europeu, um federalismo ideológico
e económico impulsionado a partir de Bruxelas e da Comissão Europeia.
Estes movimentos globalistas,
a par da imigração, ao irem contra as nações e as identidades e ao causarem um
empobrecimento relativo das comunidades atingidas, levantaram fortes reações
populares a que os partidos do chamado Centrão, da esquerda socialista e
social-democrata à direita social-democrata e democrata-cristã, não foram
capazes de responder, gerando muitos “deixados para trás”. Daí vieram as novas
forças políticas nacionalistas, populares e nacionais-conservadoras que, na
Europa e nas Américas, apareceram como uma “nova direita” essencialmente
nascida do voto popular, em democracia e pela democracia.
Em Portugal, as condições
especiais geradas pelo 25 de Abril, que trouxe uma situação de pré-revolução
comunista década e meia antes do fim do comunismo na Rússia e na Europa
Oriental, pesaram muito para que se mantivesse um regime governado pelo Centrão,
com tutela cultural esquerdista.
Quando André Ventura e o Chega
apareceram, ainda que centrados numa dialética antissistema e num discurso
tribunício e populista, com uma natural nota de generalização e de excesso,
foram-se afirmando casuisticamente valores de orientação esquecidos ou negligenciados:
a nação, a família, o trabalho, a identidade, o controlo da imigração.
Por ironia do destino, António José Seguro, que havia de correr contra ele, era alguém por quem a esquerda do Partido Socialista e a Extrema-Esquerda não morriam de amores. E por quem a Direita tinha até alguma simpatia, pela moderação, pelos maus-tratos sofridos às mãos de camaradas, pela honestidade pessoal.
No entanto, com esta nova moda
estalinista do voto público ou de braço no ar, não deixa de ser desconcertante
ver todo o “arco da governação”, de Cavaco Silva a Catarina Martins, a
convergir em Seguro contra Ventura, no que aparenta ser a prova, não apenas de
uma persistente necessidade de sinalização de virtude, mas da existência real
de um “sistema” que, até aqui, muitos viam só como uma inexistência populista
esgrimida por Ventura e pelo Chega!.
Mas parece que não é nada
disso. Parece que não se trata da súbita união de um qualquer “sistema” em luta
pela sobrevivência; trata-se, isso sim, de uma abrangente cruzada para “salvar
a democracia”. Vamos ver como:
Da luta existencial ao
manual de boas maneiras
Primeiro, era unânime que a
luta se faria contra o perigoso fascista-nazi-racista André Ventura; agora,
ainda que alguns “democratas” devotos da falecida União Soviética ou do Grande
Timoneiro chinês persistam na táctica, a estratégia é outra: Seguro é bem-educado,
manso, moderado, de fino trato, previsível e presidenciável; Ventura não tem
maneiras nem gravitas para o cargo – é mal-educado, brutal, impetuoso e quer
agitar as águas e fazer coisas.
E, bruscamente, da salvação do
mundo e da democracia em solo pátrio, passou-se ao protocolo do MNE, ao manual
de boas maneiras, à arte de saber estar; dos antifascistas, passámos aos
liberais chiques; dos Direitos do Homem em perigo ao horror perante a etiqueta
atropelada. Ventura deixou de encarnar Hitler, Mussolini, Franco e Salazar para
vestir a pele de um Zé Povinho sempre a fazer manguitos que não sabe estar
entre os grandes, de um grunho que promete deixar mal o Estado português “lá
fora”, em Bruxelas, no Buckingham Palace, no Eliseu, onde seja.
Ora esta nova estratégia
oferece-nos um tipo de entretenimento inédito: o espetáculo do choque, do
escândalo, do alarme e da preocupação dos revolucionários de ontem e dos
ativistas de hoje, dos herdeiros dos sans-culottes de Paris e do Proletariado
de todo o mundo, perante a falta de moderação, de decência, de decoro e de pose
institucional de Ventura, a quem parecem exigir a bonomia discreta e cinzenta
de político do antigo regime que veem (e apreciam) no outro candidato…
Mas então e o povo, os
trabalhadores, tão queridos à Esquerda, e que fazem muito do eleitorado de
Ventura? poder-se-ia perguntar. Qual povo, se o candidato da Direita é apoiado,
não por formidáveis trabalhadores em luta ou por operários fabris progressistas,
mas por deploráveis “eleitores de baixa escolaridade”, reacionários,
equivocados e febris? Responder-nos-iam.
Enfim, pouco importa, porque a
campanha existencial, o duelo político, ideológico, com a tragédia dos
antifascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano, quer agora
transformar-se (até para conquistar o centro e a direita que não saiba resistir
à pressão) na escolha aparentemente apolítica, não-ideológica, do candidato com
o perfil cívico, “moral” e até “cristão” mais presidenciável; daí o apelo
transversal à civilidade, à “humanidade”, em nome da preservação da decência
democrática.
Uma escolha política
Convém, no entanto, não
esquecer que, ao contrário do que possamos ser levados a pensar, o que vamos
ter no dia 8 não é um concurso de misses, mas uma escolha política – ainda que
alguns a reduzam à “escolha fácil” entre um candidato que grita e um outro que
não grita.
Acontece que o candidato que
não grita é socialista…, mas, lá está, não grita, e é simpático, cordato,
educado, decente, pacato, razões mais do que suficientes para ser apoiado por
todos os vultos do regime – da direita consentida, que corre feliz para os
braços temporária e interesseiramente abertos da Esquerda, à extrema-esquerda,
subitamente institucional. Todos juntos em morna, medrosa, “civilizada” e
moderada unanimidade para defender, não o bem-comum, não o país do presente e
do futuro, não o povo, mas a velha “pluralidade democrática” instituída em que
vivem e da qual vivem.
Esta pressão das elites
políticas unidas contra um candidato que, cada vez mais, se vai consolidando
como o único candidato alternativo junto dos “deixados para trás”, pode bem ser
a prova viva de que “o sistema”, afinal, existe.”
Título e Texto: Jaime
Nogueira Pinto, Observador,
31-1-2026, 0h18; via Maria Viana Ruas, Facebook,
31-1-2026, 11h42

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