João Távora
A devolução ao Parlamento, sem promulgação, do decreto sobre as regras de utilização de bandeiras em edifícios públicos, pelo Presidente da República, António José Seguro, deve levar-nos a refletir. Nada como fazê-lo num dia em que joga a Seleção.
Num tempo em que a coesão
social europeia está sob ameaça — devido à difícil integração dos imigrantes, à
complexidade do controlo dos fluxos migratórios e a uma profunda crise
demográfica —, os símbolos nacionais e os valores culturais e religiosos que contrariem
a fragmentação e sustentem o nosso chão comum tornam-se ainda mais prementes.
O decreto aprovado pela AD seguia precisamente essa orientação. Importa salvaguardar a “sacralidade” desses espaços públicos, assegurando que as bandeiras aí hasteadas se limitem a uma simbologia agregadora e unificadora — como, por natureza, se espera de uma bandeira nacional. Dar lugar, nesses edifícios, a bandeiras de “causas”, intrinsecamente sectárias ou partidárias, por mais legítimas que se apresentem, seria mais um erro a somar ao relativismo que expõe a cultura ocidental à fragmentação e ao excesso de “diversidade”.
Ontem à noite, num debate na
SIC Notícias, Ricardo Costa — com a sua habitual tendência para monopolizar a
conversa e interromper o interlocutor — confrontou Pedro Gomes Sanches com a
ideia de que também a própria bandeira da República é profundamente sectária na
sua origem. É uma tese que me atrai, confesso, mas não me convence. Mantenho,
de facto, uma relação ambígua com o pavilhão que emergiu da revolução de 5 de
Outubro: admito que, nos primeiros anos, o hastear da bandeira verde-rubra
inspirada na da Carbonária tenha parecido uma provocação para a maioria dos
portugueses. Com o tempo, porém, eu próprio acabei por assimilar aquela
fealdade e, hoje, reconheço a simbologia que a bandeira adquiriu ao longo do
último século. Como dizia o meu pai, foram muitos os portugueses que morreram a
defendê-la, por mais ilegítimo e inestético que tenha sido o seu processo
inicial de imposição.
O facto incontornável é que
essa bandeira é hoje unanimemente aceite como bandeira nacional. Quem, como eu,
não aprecia a sua estética tem uma solução simples: fixar o olhar nas armas, ao
centro da esfera armilar. Ali está contada a nossa História — o elemento
fundamental do chão comum de que uma comunidade precisa para funcionar e ser
bem-sucedida. É essa História que assegura aos forasteiros que nos procuram que
chegam a um lugar distinto, com condições culturais e materiais diferentes
daquelas de onde partiram.
Por isso, é preocupante a
ingenuidade — ou a má-fé — de quem considera estes assuntos menores e entende
ser indiferente hastear a bandeira nacional ou a bandeira arco-íris na varanda
de uma câmara municipal ou de um parlamento.
Título, Imagem e Texto: João
Távora, Corta-fitas,
17-6-2026

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