sexta-feira, 12 de junho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Cozinhando sob pressão

Aparecido Raimundo de Souza

NA COZINHA bem cuidada da senhora Fogosa Folgada, ela é a rainha. Não estou fazendo referência a senhorita Fogosa Folgada, quero deixar isso bem claro. Me reporto a inoxidável Sirigaita Redonda, a panela de pressão. E, como tal, ela reina soberana. Esse artefato metálico do conforto industrial e da suprema engenharia “panelar” que a sociedade moderna inventou dizem os entendidos em chaleiras, bules, frigideiras, canecas e panelas, enfim, todas essas miscelâneas de bugigangas foram criadas para acelerarem a vida moderna.

Na prática ela, em especial, a panela de pressão funciona, verdade seja dita, como um teste psicológico gratuito. O ritual tem início sempre ingressando, ou melhor dito, do começo. A senhora dona Fogosa Folgada coloca o feijão, a água, o tempero e fecha a tampa com aquele encaixe digno de uma bomba nuclear construído nos cafundós da Feira de Acari. A partir daí a geringonça assume o comando. O chiado começa tímido, como quem pede licença, mas logo vira um apito ensurdecedor, tipo aquele do fatídico Titanic minutos antes de ir parar no fundo do mar exatos seiscentos e quarenta quilômetros a leste da Ilha de Terra Nova, no Canadá.

E, de fato foi levando um bando de criaturas berrando em seus ouvidos, inclusive o Leonardo Di Caprio e a estonteante Kate Winslet (esses dois últimos a serem encontrados, em face de, na hora de embarcarem, ambos misteriosamente terem trocado de nomes, ou seja, o Leonardo ingressou como Jack e Kate, como Rose Bukater). Já não quero mencionar o fato de vir à tona voltando, à panela de pressão, uma espécie de protesto descomedido de eleitores insatisfeitos sem saber em quem votar nas próximas eleições.

Em face disso, é curioso como ninguém confia plenamente na dita. A dita, é bom explanar explicando, não outra, senão a Sirigaita Redonda com fogo a todo vapor na bunda deixando o feijão em tumultuado reboliço. Dona Fogosa Folgada reza pra tudo quanto é santo, antes de retirar a tampa. Manda a filha dela, a Folgadinha (que grudada no celular não enxerga um palmo adiante do nariz e, de roldão, entocar a sua mãe e seu pai no quarto, por conta dos idosos, (ambos surdos dos olhos e cegos dos ouvidos) ficarem bem longe das adjacências da cozinha.

Distanciados o mais que puder, tendo em vista a bendita panela de pressão passar a quem dela se aproxima, notar uma certa expressão de bomba destruidora, de quem vai provocar uma explosão pior que a de Chernobil capaz de derrubar o prédio com seus vinte e dois andares. A Panela de Pressão, dizem os entendidos é o único objeto doméstico que transforma o simples ato de cozinhar em uma cena de suspense. Se o Chaves estivesse vivo, por exemplo, faria o professor Girafales se esconder debaixo das saias de dona Florinda e deixar o Kiko boquiaberto por não ter conseguido terminar de bater uma punheta para o traseiro dos óculos da Chiquinha.

Obviamente há pessoas leigas que vaticinam que a panela de pressão é democrática: tanto pode pipocar cozinhando feijão, quanto se desintregar queimando os colhões dos ladrões que apregoam que o Estado Democrático de Direito existe e que a galera que está no poder seguirá comendo piranha —, perdão picanha —, por conta das novas eleições que tudo nos leva a crer, culminará com o prosseguimento do Mula sentado com as pregas do seu cu enrugadas no puteiro conhecido como Palácio da Alvorada. Pois bem! A panela, por não ter partido, não distingue classes sociais, apenas desafia a coragem de quem ousar tirá-la de cima do fogão sem colocar um capacete no rosto.

No fundo, talvez a simpática panela de pressão seja uma metáfora anunciada da nossa vida moderna: todos nós chiando, acumulando vapores oriundos de uma imbecilidade galopante prestes a mandar tudo para a puta que pariu no minuto seguinte enfiando todo o cozimento do feijão em nossos focinhos com semblantes do dublê de palhaço, com as feições desdentadas do Tiririca. A diferença é que ela, a Sirigaita Redonda ao menos, entregue um feijão bem cozido e macio quando vier a ser retirada para fazer parte do deguste aconchegante dos familiares.

Nós, nem sempre temos essa configuração ao alcance do que pretendemos, notadamente quando perdemos a coragem e insistimos veementemente em deixar um abestalhado seguir governando essa nação literalmente jogado às moscas. Na cozinha, a panela segue reinando despótica. Essa engenhosidade metálica que, dizem, foi inventado para acelerar a vida moderna, trazer tranquilidade às donas de casa, porém, na prática se evidencia como um teste psicológico gratuito, tipo aquele hino oficial da cozinha brasileira.

Não importa se você está vendo novela, estudando para o vestibular, tentando cochilar, ou dando aquela trepadinha básica com o amor da sua vida: o ringir atravessa paredes, portas, janelas, e até fones de ouvido. É como se dissesse: “Aqui quem manda sou eu, e vocês vão me ouvir até o feijão ficar nos trinques”. E quando finalmente chega o momento de escancarar a tampa, se instala um silêncio tenso. Todos observam a dona da casa como se fosse uma gladiadora prestes a enfrentar um candidato pulando num anfiteatro de veados e bichas querendo votos para galgar um cargo e se dependurar nas barbas da política para depois foder o pobre.

Em caminho paralelo, há ainda o detalhe da memória coletiva: todo brasileiro tem uma história com panela de pressão. Seja o feijão que virou purê involuntário, o arroz que grudou no fundo, a galinha assada que adornou numa bola preta ou aquela explosão épica que deixou o teto da cozinha com marcas dignas de arte contemporânea. A panela de pressão é, de certa forma, a artista plástica da culinária: pinta paredes, redesenha o revestimento e cria esculturas de vapor. Talvez, no futuro, ela seja reconhecida como patrimônio cultural. Afinal, poucas invenções conseguem unir tanto drama, suspense e sabor em um só objeto.

A panela de pressão não é apenas um mero utensílio: é igualmente espetáculo, é teatro, é ópera barulhenta em três atos que começa pelo preparo, engata no chiado e quando não explode, se enfurece, detona, estronda, vocifera, deblatera e deixa todo o fogão em estado calamitoso de enfurecimento. Sem contar que em certos casos, o botijão de gás, esperto e arisco, com medo de morrer em pedacinhos, entra no banheiro e para não dar vexame, se caga todo enquanto grita, “Viva a Seleção Brasileira” do “técnicu Calo —, perdão do “Carlo Ancinho”, o botijão (Ancinho de Envelope... não, de Ancelote).  Não importa. Em meio a esse “Viva a Seleção”, exasperado o redondo transportador do gás de cozinha puxa a descarga, deixando vazar os fedores que carrega intempestivamente na barriga.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Jérsei, nos Estados Unidos, 12-6-2026

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