sexta-feira, 3 de julho de 2026

Merz manda e Macron chora: projeto de caça franco-alemão cai antes da decolagem

Afonso Belisário 

Numa decisão que deixou os fornecedores europeus da defesa furiosos e as autoridades francesas em choque, Berlim declarou oficialmente o projeto do caça franco-alemão — a jóia da coroa da autonomia estratégica europeia — morto ainda antes de nascer: Paris e Berlim estão a cancelar este programa de defesa crucial, desferindo o que só pode ser descrito como um golpe certeiro no legado de Emmanuel Macron.

O projeto, parte do Sistema Aéreo de Combate Futuro (FCAS), deveria ser a resposta ousada da Europa aos F-35 americanos e a tudo o que russos e chineses estão a desenvolver nos seus esconderijos secretos nas montanhas. Em vez disso, tornou-se num case study de disfunção continental: anos de reuniões, milhares de milhões de euros desperdiçados, só para a Alemanha acabar por dizer “Nein, danke”.

Quase se ouvem os fantasmas de Carlos Magno a chorar à distância.

Apesar do espetacular fracasso da componente de caças, as autoridades não descartaram por completo a continuidade da cooperação em drones e nos sistemas de de “combat clouds”. Isto é o equivalente geopolítico a terminar um casamento, mas concordar em continuar a partilhar a conta da Netflix.

O pragmatismo alemão colidiu mais uma vez com a mania das grandezas francesa, como um Volkswagen Golf a bater num Citroën que se identifica como uma nave espacial. Berlim, aparentemente cansada de subsidiar os sonhos de uma França eterna a dominar os céus, decidiu que investir mais dinheiro num jacto que existe sobretudo em projetos de CAD e nos discursos de campanha de Macron já não era sustentável. A França, naturalmente, retrata isto como uma traição ao sagrado projeto europeu.

O momento é perfeito. Enquanto Zelensky continua a exigir mais dinheiro e mais armas, o motor franco-alemão da Europa está a falhar por causa de um caça que nunca chegou a sair do papel. Macron, que se posicionou como o visionário audaz do continente — parte Rei Sol, parte orador do TED — vê agora outra iniciativa emblemática afundar-se. O seu legado corre o risco de ser recordado como uma série de anúncios ambiciosos seguidos de discretas retiradas.

A cooperação europeia em matéria de defesa sempre foi menos uma irmandade e mais uma seita de burocratas. Todos os projetos conjuntos parecem seguir o mesmo guião: anunciados com pompa em Versalhes, discutidos em comissões sobre a divisão de tarefas durante meia década e, por fim, arquivados discretamente quando a Alemanha decide que os números não batem certo. A este ritmo, a próxima grande iniciativa franco-alemã será uma padaria conjunta que produz croissants às terças-feiras e pretzels às quintas.

Os analistas de defesa consideram isto um golpe para Macron. O presidente francês, sempre otimista, responderá, sem dúvida, com um outro discurso sobre a soberania europeia, possivelmente proferido a partir do convés de um porta-aviões de cartolina. Entretanto, as autoridades alemãs estão provavelmente a calcular quantas turbinas eólicas poderão comprar com o dinheiro que não estão a gastar num jacto que já estaria obsoleto quando entrasse ao serviço.

Descansa em pedaços, nobre jato. Voou mais alto em folhetos de marketing do que alguma vez ascenderia no céu. O legado de Macron sofre mais um golpe e, algures em Berlim, um funcionário de compras atualiza discretamente a folha de cálculo intitulada “Coisas que soavam bem na teoria”.

Título e Texto: Afonso Belisário, ContraCultura, 3-7-2026

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