Leandro Ruschel
Existe um fato político tão
constante que já deveria ser banal, mas continua tratado como tabu: as
mulheres, em média, votam mais à esquerda do que os homens. Não é fenômeno de
uma eleição nem de um país. Aparece nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil,
década após década. E quando um padrão é assim tão universal e estável, a
explicação honesta não pode ser a conjuntural, o marketing de um candidato, a
pauta da semana. Tem que ser mais profunda. Tem que mexer com a natureza
humana. E é aí que o debate fica proibido, porque a esquerda construiu sua
hegemonia sobre o dogma de que homem e mulher são idênticos, e que toda
diferença é “construção social”. Admitir que há diferenças biológicas e
psicológicas reais, com consequências políticas, é, para eles, heresia.
Pois vamos à heresia
A psicologia da personalidade
trabalha há décadas com cinco grandes traços, o modelo dos Big Five.
Convém fixar os termos no original em inglês, porque as traduções variam muito.
Estudos transculturais robustos, como o clássico de Costa, Terracciano e
McCrae, mostram que as mulheres pontuam em média mais alto em dois deles: agreeableness,
a amabilidade, a disposição a cooperar e priorizar o outro; e neuroticism,
o neuroticismo, que não é “ser neurótica” no sentido popular, mas maior
reatividade emocional, mais propensão à ansiedade e ao medo. Os homens pontuam
mais alto em assertiveness, a assertividade, que pertence a outro traço,
a extroversão: a inclinação a se impor e a confrontar. Isso não é opinião de
comentarista. É um dos achados mais replicados da psicologia, e aparece com
mais força, não menos, justamente nos países mais igualitários, o que derruba a
tese de que seria fruto da opressão.
Jordan Peterson, que é
psicólogo clínico, popularizou um ponto decisivo. Ele divide a amabilidade em
duas faces, a compaixão e a polidez. Num estudo de 2010 do qual é coautor,
mostrou-se que elas puxam para lados opostos: a compaixão se associa à esquerda
e ao igualitarismo, a polidez ao conservadorismo e à tradição.
Eu não estou dizendo que “ser amável faz a pessoa de esquerda”. Isso seria falso. Os dados são mais finos. As mulheres pontuam mais alto nas duas faces, mas a diferença é muito maior na compaixão: é na sensibilidade ao sofrimento do vulnerável que os sexos mais se separam, enquanto na polidez a distância é pequena. Como as duas faces puxam para lados opostos, vence a que pesa mais, e nas mulheres é a compaixão. Não por acaso, Peterson observa que a adesão ao “politicamente correto” é prevista justamente pela compaixão: a tendência a ver grupos como oprimidos indefesos e seus supostos opressores como predadores cruéis, a ponto de tratar uma opinião negativa sobre um grupo como “agressão” e querer criminalizá-la.
E aqui está o ponto central: o
discurso de esquerda contemporâneo é construído quase inteiro para falar a
língua da compaixão. Ele se apresenta sempre como defesa do oprimido, da
vítima, do desamparado. Com isso, parece mais bem posicionado para converter em
preferência política a face da amabilidade em que a diferença entre os sexos é
maior, enquanto a direita, que fala a língua da polidez, da ordem, da
responsabilidade e do mérito, mobiliza a face em que a vantagem feminina é
menor. Não é que a mulher seja “amável demais”, nem que isso determine o voto
de quem quer que seja. É que a linguagem política da esquerda casa melhor, em
média, com uma disposição psicológica mais comum entre mulheres.
Por que essa disposição
existiria?
Aqui a hipótese interpretativa
é evolutiva. Por centenas de milhares de anos, a sobrevivência dependeu de uma
divisão de instintos, e a mulher foi a guardiã do bebê indefeso, que não vive
um dia sozinho. Esse instinto maternal, a sintonia fina com a vulnerabilidade
do outro, talvez seja o traço feminino mais marcante, e sem ele nenhum de nós
estaria aqui. Minha hipótese é que esse mesmo instinto, voltado por natureza
para o filho e o próximo concreto, é mais facilmente recrutado por um discurso
que se apresenta em nome do “vulnerável” abstrato: o migrante, a “minoria
oprimida”, o criminoso “vítima da sociedade”, o pobre que precisaria do Estado.
É um discurso que fala a língua do cuidado: há alguém sofrendo, e nós vamos
proteger.
A direita, que fala de
responsabilidade e consequências, soa mais áspera, ainda que seja, no longo
prazo, defensável que proteja melhor os próprios vulneráveis. Ter “compaixão”
pelo criminoso, por exemplo, costuma significar devolvê-lo à rua para
prejudicar quem menos pode se defender, a começar pelas mulheres.
Mas se fosse só “ser mulher”
que empurra para a esquerda, todas votariam igual. E não votam. Aqui entra o
dado mais revelador: o abismo entre a casada e a solteira. Segundo o Pew
Research Center, mulheres que nunca se casaram são cerca de três vezes mais
propensas a se identificar com os democratas do que com os republicanos,
enquanto as casadas se inclinam à direita.
Em 2024, foram as casadas, ao
lado dos homens casados, que sustentaram o voto conservador, enquanto as
solteiras se tornaram o grupo que mais se desloca para a esquerda. A própria
academia confirma: os economistas Edlund e Pande, num estudo intitulado “Por
que as mulheres se tornaram de esquerda?”, mostraram que a guinada feminina
acompanha de perto a queda do casamento.
Por que o anel anda junto
com o voto?
Aqui é preciso honestidade
metodológica, porque a flecha causal aponta provavelmente nas duas direções ao
mesmo tempo. De um lado, há seleção: mulheres já mais à esquerda tendem a casar
menos e mais tarde, então parte do gap é a ideologia moldando a
trajetória, não o contrário. De outro, há um efeito plausível do próprio
arranjo de vida, e é sobre ele que quero chamar a atenção. Numa família
intacta, a mulher tem parceiro, provedor, proteção e pertencimento, e a
necessidade de cuidado se realiza em casa, no marido, nos filhos, na
comunidade.
A mulher sozinha, sobretudo a
divorciada ou a mãe sem marido, está em maior vulnerabilidade econômica e
afetiva, e o espaço que o marido deixou vago tende a ser ocupado pelo Estado: o
que paga o auxílio, garante a creche, promete a segurança que a família já não
oferece. E quem depende do Estado tende a votar em quem promete mais Estado. As
duas coisas se reforçam, e é por isso que toda a engenharia social da esquerda
aponta na mesma direção: enfraquecer o casamento, desestimular os filhos,
promover o aborto, ampliar a dependência. Cada família desfeita tende a
produzir um eleitor a mais à esquerda. A esquerda se tornou, não por acaso, o
partido natural das mães solteiras.
É aqui que as duas pontas se
encontram, a psicológica e a política. A compaixão feminina é real e louvável,
e não foi inventada por ninguém. O que mudou foi o ambiente: a esquerda
contemporânea estruturou sua linguagem em torno do cuidado e da vítima, e por
isso está mais bem posicionada para converter essa disposição em voto,
sobretudo quando o casamento recua e o Estado avança para o espaço deixado pela
família. E o feminismo, na sua faceta de liberdade sexual absoluta e de
carreira acima da família, reforça o mesmo vetor.
Aqui entro de novo no terreno
da hipótese: é plausível que parte das mulheres convencidas a adiar ou abrir
mão dos filhos se arrependa tarde, e que parte dessa frustração se canalize
politicamente, na defesa intensa dos “oprimidos” e na reação aos “opressores”.
E não para nas mulheres
maduras
Entre os jovens, a fratura é
ainda mais brutal. Estudos recentes com centenas de milhares de jovens na
Europa e nos EUA mostram as mulheres da geração Z disparando para a esquerda,
mais do que qualquer geração feminina anterior, enquanto os rapazes ficam
parados ou viram à direita. É a mesma máquina, agora sobre quem mal saiu da
adolescência: universidade, escola e entretenimento ensinando à menina que o
homem é opressor, a família é cárcere e a emancipação passa pelo Estado.
Mas há um fator novo, e o mais
perigoso, porque dá a tudo isso a velocidade de uma epidemia: o smartphone e as
redes. Vale recuperar uma tese que viralizou no X no início de 2026 (mais de 30
milhões de leituras), do analista que escreve sob o nome vittorio (perfil @IterIntellectus),
e que dialoga com o trabalho de Jonathan Haidt sobre o colapso de saúde mental
das adolescentes ligado ao celular: a rede capturou meninas e meninos de formas
diferentes. O menino, pela dispersão, o videogame, a pornografia, a
aposta, o fluxo infinito de dopamina que o faz desistir de construir algo real.
A menina, pela conformidade: “acredite nisto, ou seja expulsa do grupo”.
E aqui a psicologia encontra a
tecnologia. Se a mulher é, em média, mais sensível à aprovação do grupo e ao
custo de destoar, um aparelho que mede a aprovação alheia em curtidas e torna o
desvio instantaneamente visível cobra um preço maior dela do que de um rapaz
com a mesma idade. O experimento de Asch já mostrava, nos anos 1950, que muita
gente nega o que vê com os próprios olhos para não destoar do grupo. A rede
tornou esse teste permanente.
O ponto não é que as jovens
não pensem, é que o ambiente impõe custos sociais assimétricos para discordar,
e esses custos pesam mais justamente sobre quem é mais sensível à exclusão.
Como o consenso dominante nessas plataformas pende para a esquerda, alinhado ao
que vem das universidades e da cultura, o caminho de menor atrito social passa
a ser concordar. Não se trata de incapacidade, e sim de incentivo: discordar
custa caro, e custa mais caro para umas do que para outros.
E a rede não age sozinha. Sua
aliada entra em cena justamente quando a visão de mundo da jovem se forma: a
universidade, hoje a câmara de ressonância perfeita do consenso de esquerda. O
campus é majoritariamente feminino, perto de 60% no total e chegando a duas
mulheres para cada homem nas áreas que mais produzem militância: humanidades,
ciências sociais, educação. E é nelas que o corpo docente é mais uniforme, com
levantamentos encontrando, em departamentos como sociologia e antropologia, até
40 professores esquerdistas para cada conservador. A
jovem mais sensível à pressão
do grupo passa quatro anos cercada de colegas, professores e bibliografia que
apontam numa só direção, na instituição em que mais confia. O consenso
artificial da rede, lá fora, encontra o do campus, lá dentro.
A evolução, de novo,
explica
A mulher sempre foi mais
dependente do grupo para sobreviver; enquanto o homem caçava e se tornava mais
independente, para ela a expulsão costumava ser sentença de morte, dela e dos
filhos. A altíssima sensibilidade à aceitação social não é defeito: foi, por
milênios, ferramenta de sobrevivência. O problema é conectar essa ferramenta
antiga a uma máquina moderna desenhada para explorá-la.
Vale juntar as peças, e
formular a tese com o cuidado que ela exige. Mulheres, em média, são mais
sensíveis ao sofrimento, ao risco relacional e à proteção social. A esquerda
contemporânea estrutura sua linguagem política em torno justamente desses
temas. A queda do casamento e a expansão do Estado ampliaram a importância
dessa linguagem na vida concreta de muitas mulheres. E as redes sociais e as
universidades intensificaram a pressão conformista em ambientes jovens e
femininos. Nada disso determina o voto de mulher nenhuma. Mas, somado, ajuda a
explicar por que as mulheres, e sobretudo as solteiras, jovens, urbanas e
universitárias, tendem mais à esquerda. É uma explicação de probabilidades e de
médias, não de destinos individuais.
Que ninguém me entenda mal.
Nada disto diminui a mulher, pelo contrário. A compaixão, a sensibilidade ao
sofrimento, o instinto de proteger a vida são dons sem os quais a civilização
não existiria. O problema nunca foi a virtude feminina. É o projeto político
que a explora, que finge honrar a mulher enquanto enfraquece o casamento, a
família e a fé, que davam a essa virtude um chão firme.
A esquerda promete cuidar da
mulher e, quando entrega dependência em vez de raízes, costuma deixá-la mais
sozinha e mais ressentida, e essa frustração tende a ser canalizada contra a
“sociedade patriarcal”, num ciclo que corrói o tecido social.
A boa notícia é que a
natureza é teimosa
Onde a família resiste, o voto
muda. Onde a fé permanece, a narrativa não entra. A mulher casada, a mãe
enraizada numa comunidade viva, essa a engenharia não captura, porque o seu
instinto de cuidado já tem destino. A reconstrução da sociedade passa pela
reconstrução do lar.
Defender a família não é
nostalgia, é estratégia de sobrevivência, da civilização e da liberdade, e é o
que produz uma vida melhor para homens e mulheres. Enquanto tivermos vergonha
de dizer isso em voz alta, a tesoura vai continuar se abrindo. Ela só se fecha
quando paramos de pedir licença para defender aquilo que sempre funcionou.
Título, Imagem e Texto: Leandro
Ruschel, Substack,
1-7-2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-