Os movimentos mais recentes da política mostram que o senador é muito mais do que um deputado de luxo. E o eleitor precisa ter cuidado redobrado na hora de escolhê-lo
Um fato que deveria ser óbvio,
do tipo que todo brasileiro deveria estar cansado de saber, veio à tona no
atual mandato parlamentar e, ao que tudo indica, influenciará as escolhas de
muitos eleitores na campanha deste ano. O fato é: o Senado Federal é muito mais
importante do que tem se mostrado nos últimos anos.
De uma hora para outra, o país acordou para a realidade de que o senador é mais do que um deputado de safra especial. É mais do que o condestável que se dizia nos tempos da República Velha, quando a casa nada mais era do que o destino final dos “presidentes dos Estados” — como antigamente eram chamados os governadores — depois que cumpriam seus mandatos.
Um dos que, nos últimos dias,
chamaram atenção para a importância do senado foi o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. Em entrevista a uma emissora de Fortaleza, na quinta-feira da semana
passada, Lula disse que, por ser eleito para um mandato de oito anos — enquanto
todos os demais mandatos eletivos do país são de quatro anos —, o senador
“pensa que é Deus”.
Exageros à parte, os senadores são, de fato, fundamentais na estrutura de poder do Brasil — embora poucos deles venham demonstrando estatura suficiente para agir como protagonistas. Parece que, agora, tudo será diferente. Pela primeira vez, desde a promulgação da Constituição de 1988, os nomes dos candidatos à chamada “Câmara Alta” do Congresso deixarão de ser vistos como coadjuvantes de luxo nas chapas dos partidos e saltarão para o centro do palco.
Outro aspecto importante, que
parece ter sido descoberto agora por quem acompanha a política brasileira,
também precisa ser apontado. Embora ocupe apenas o terceiro lugar na linha de
sucessão da Presidência da República — atrás do vice-presidente e do comandante
da Câmara dos Deputados —, o presidente do Senado tem nas mãos uma das canetas
mais poderosas da República. O Regimento Interno, por exemplo, dá ao senador
escolhido para presidir a Mesa Diretora da Casa, por exemplo, o poder de
definir as matérias que entram e as que ficam de fora da pauta de votações.
Embora o Senado seja, por
definição, um espaço democrático, o poder do presidente é praticamente
ditatorial. Se ele se recusar, por exemplo, a pôr em votação um projeto de lei
apoiado por uma parte expressiva da sociedade, o documento acumulará poeira na
prateleira sem que ninguém consiga mudar essa realidade. Na maioria das vezes,
isso não é notado pelo conjunto da sociedade, mas, em momentos específicos,
como o atual, pode gerar incômodos e causar discussões que prejudicam a
reputação do Legislativo.
SEM MOTIVO APARENTE — A
súbita tomada de consciência da importância do Senado e do papel de seu
comandante se deve, em boa parte, à conduta do atual presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União/AP). Embora fosse um político veterano, com três mandatos de
deputado federal por seu estado e estivesse cumprindo seu primeiro mandato como
senador, o nome dele era praticamente desconhecido fora do Amapá. Em 2019, no
mandato de Jair Bolsonaro, ele saltou do anonimato para o palco principal ao
ser eleito, pela primeira vez, para presidir a instituição.
Alcolumbre não foi capaz, nos
dois anos de seu mandato, de fazer um único gesto que justificasse a escolha de
seu nome para o posto. Uma de suas características, porém, começou a se revelar
já ainda na reta final do mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. Presidente
da Comissão de Constituição e Justiça, cargo que ocupou depois de deixar a
Presidência do Senado, ele levou exatos 142 dias — ou, seja, quase cinco longos
meses — para agendar a sabatina do ex-advogado-geral da União, André Mendonça,
indicado para substituir o ministro Marco Aurélio Mello no Supremo Tribunal
Federal.
Não havia motivo aparente para
segurar a indicação — a não ser a intenção de fazer pirraça ou pressão para
trocar a sabatina por algum favor de Bolsonaro. Alcolumbre deixou a Presidência
do Senado com uma imagem mais do que arranhada junto à sociedade. Mesmo assim,
na atual legislatura, depois de reeleito em 2022, ele foi reconduzido à
Presidência do Senado com uma votação surpreendente.
Depois de jurar fidelidade a
todas as correntes representadas no Senado, ele recebeu surpreendentes 73 dos
81 votos possíveis. O resultado é recorde em toda a história das eleições para
a Mesa Diretora da Casa desde a redemocratização. Só que, depois da posse, ao
invés de trabalhar por todos, se pôs a agir como uma espécie de imperador. E
reduziu as atribuições da Câmara Alta a seus próprios interesses.
Uma das acusações que passaram
a ser feitas a Alcolumbre de algum tempo para cá é a de que, mais do que o
presidente da Câmara, Hugo Motta, ter alienado o Poder Legislativo aos
interesses dos outros poderes. Se uma decisão que ele possa vir a tomar oferece
o risco, ainda que mínimo, de ferir os interesses do Poder Judiciário, ele
simplesmente não a toma. Embora a Constituição atribua ao Senado, por exemplo,
o poder de fiscalizar e, se for o caso, enquadrar os ministros do Supremo
Tribunal Federal, ele não faz um único movimento que demonstre a intenção de
exercer essa prerrogativa — ainda que a maioria dos senadores se mostre
disposta a tomar uma atitude nesse sentido.
SABATINA — E com o
Poder Executivo, como é o relacionamento? Na maioria das vezes, a conduta do
presidente do Senado em relação ao Executivo também costuma ser de absoluta
submissão. Mas há exceções. Quando o assunto fere os interesses mais mesquinhos
do seu grupo político ou de seu estado, o Amapá, Alcolumbre, que normalmente
age como um gatinho diante dos outros poderes, se transforma num leão.
Empenhado, por exemplo, em instalar seu antecessor, Rodrigo Pacheco (PSB/MG),
em uma cadeira do STF, Alcolumbre fez o que pôde para tentar convencer o
presidente Lula a nomear o colega. Fracassou.
Pelo sim, pelo não, Lula
preferiu indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias. A escolha, que havia
sido anunciada em novembro passado, como não poderia deixar de ser, desagradou
os adversários do presidente — que passaram a negar a aptidão de Messias para o
posto. Quem, no entanto, colocar lado a lado as credenciais de Messias e de
Pacheco se dará conta de que o advogado-geral é muito mais capacitado do que o
senador por Minas Gerais.
Pois bem. Na semana passada, o
Planalto finalmente oficializou a indicação de Messias para a vaga no Senado.
Alcolumbre, que lutou até o último minuto para emplacar o nome de Pacheco, não
terá como resistir. Ele certamente se acertará com o presidente da CCJ, Otto
Alencar (PSD/NBA) para agendar a sabatina. É aí que a história começa a ficar
interessante e a ganhar emoção.
No passado, a aprovação dos
indicados do governo a uma vaga no Supremo era uma certeza absoluta e a
sabatina feita pelos senadores, uma formalidade que se reduzia à bajulação do
novo ministro. O ambiente agora é outro e, embora as informações oficiais sugiram
que Messias já conta com o apoio de 56 dos 81 senadores, paira no ar a
expectativa de que, desta vez, a indicação seja negada.
Se Messias, por acaso, tiver
menos de 41 votos, se tornará o primeiro indicado ao STF pelo presidente da
República a ser rejeitado pelo Senado desde o governo Floriano Peixoto, no
final do século 19. Por todo lado, surgem indícios de que, mesmo tendo a maioria
da casa, o governo já não lida na Casa com a mesma situação confortável de
tempos passados. Em novembro passado, por exemplo, Paulo Gonet foi reconduzido
pelo Senado ao comando da Procuradoria-Geral da República com a margem
apertadíssima de apenas 45 votos.
De lá para cá, o governo fez
pressão sobre os senadores, reconquistou o apoio de alguns e, a menos que
aconteça uma zebra fenomenal, Messias será aprovado. Com 46 anos, ele poderá
ficar no STF até 2055, quando alcançará a idade limite de 75 anos. Mas, desde o
julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela primeira turma do STF, a
oposição acordou para a importância de ter uma bancada forte e numerosa o
suficiente para moldar o plenário do Supremo conforme seus interesses. Detalhe:
este ano estarão em disputa 54 das 81 cadeiras — ou seja, dois terços da casa.
Se a oposição estiver mesmo disposta a alterar esse cenário, como se diz nas
aberturas dos desfiles das escolas de samba no Carnaval, “a hora é esta!
”CHANCES REDUZIDAS — Desde
que o processo contra Bolsonaro teve início, a oposição passou a centrar forçar
no Senado e está disposta, inclusive, a sacrificar alguns de seus quadros mais
destacados em nome da estratégia de ter uma bancada numerosa, ruidosa,
ideológica na casa. Nomes que teriam a eleição garantida para a Câmara e que
têm se destacado como defensores das pautas de direita na Câmara — como o do
gaúcho Marcel Van Hatten (Novo), do goiano Gustavo Gayer (PL), da brasiliense
Bia Kics (PL) ou do paulista Guilherme Derrite (PP) — podem aparecer no ano que
vem como senadores da República. Ou, então, ficarem fora da política.
Outros nomes de destaque
identificados com a direita, que no momento estão sem mandato, também têm
chances de conseguir vaga na Casa. São os casos, por exemplo, da
ex-primeira-dama Michele Bolsonaro (DF), do filho de Bolsonaro, Carlos, que
transferiu seu domicílio eleitoral para Santa Catarina, e do ex-procurador da
Lava Jato, que disputará uma vaga pelo Paraná depois de ter tido o mandato de
deputado federal, que conquistou nas urnas em 2022, cassado pela Justiça
Eleitoral.
Políticos que tinham chances
reduzidas na disputa ganharam impulso nos últimos meses depois que
acontecimentos políticos recentes projetaram seus nomes. O senador por Minas
Gerais, Carlos Vianna, que tinha chances diminutas na corrida pela reeleição,
tornou-se favorito depois de sua atuação como presidente da CPMI que apurou as
fraudes contra os aposentados do INSS. O ex-governador do Rio de Janeiro,
Cláudio de Castro, era visto como uma carta fora do baralho até a megaoperação
realizada em outubro no ano passado, contra o crime organizado nos complexos da
Penha e do Alemão. Agora é favorito.
Castro, no entanto, enfrenta
problemas com a Justiça Eleitoral e pode ficar fora da chapa. Caso perca a
chance de concorrer, seu lugar provavelmente será ocupado pelo atual senador
Carlos Portinho (PL), que era primeiro suplente e assumiu o posto depois da
morte do titular, Arolde de Oliveira, vítima da Covid-19, ainda em outubro de
2020 — ou seja, logo no início do mandato. Portinho chegou ao posto como uma
figura discreta, mas, no exercício do mandato, revelou-se um político
habilidoso a ponto de assumir a liderança de seu partido na Casa.
A trajetória de Portinho, para
quem acompanha política, é um exemplo de que o nome do suplente a uma vaga no
Senado é importante, embora o eleitor nem sempre preste atenção a essa escolha.
No caso de Arolde de Oliveira, a escolha foi positiva e Portinho mostrou à
altura da importância do cargo que ocupa. O mesmo não pode ser dito, no
entanto, do paulista Major Olímpio, que substituído por um certo Alexandre
Giordano em 2021, depois de morrer, também vítima da Covid.
Como senador, Giordano foi uma
nulidade e o episódio mais marcante que protagonizou aconteceu há duas semanas.
Ao volante de um Land Rover preto, sem placas e com as luzes de sinalização
utilizada por carros descaracterizados da polícia, Giordano tentou fugir de uma
blitz da PM. Estava com a habilitação vencida e quis dar uma carteirada nos
policiais. Foi preso e só deixou a cadeia após pagamento de fiança. Ao
contrário de Portinho, Giordano jogou pela janela a oportunidade de se firmar
na política depois da morte do titular. Não deve se candidatar a qualquer cargo
nas eleições deste ano.
Casos como esses revelam, de
qualquer maneira, que a importância do suplente é fundamental e acabam
revelando o que a política brasileira tem de melhor ou de pior. A verdade,
infelizmente, é que os exemplos negativos têm superado os positivos com enorme vantagem.
Na semana passada, o senador Marcelo Castro (MDB/PI), um veterano de 76 anos de
idade que está na política desde 1978 e é favorito na corrida pela reeleição,
deixou clara a intenção de nomear seu filho, Marcelo Filho, com primeiro
suplente. Caso algum evento o impeça de chegar ao fim do mandato, Castro legará
o cargo ao filho como se ele fosse hereditário. Pode não ser ilegal. Moral
também não é.
PESOS PESADOS — Seja
como for, a atenção à oposição não estará sozinha na disputa pelo Senado e o
governo também pretende arriscar nomes de destaque numa disputa que tem tudo
para ser incandescente. A deputada Gleisi Hoffmann, por exemplo, disputará uma
das vagas no estado do Paraná. Na Bahia, Jacques Wagner deve ser reeleito,
assim como o ex-ministro Humberto Costa, em Pernambuco. Helder Barbalho (MDB)
deixa o governo do Pará e está praticamente eleito para uma das vagas no
Senado.
No caso de São Paulo, uma das
vagas na chapa governista será ocupada pela ex-ministra Simone Tebet (PSB). Sem
espaço em seu estado de origem, o Mato Grosso do Sul, depois de ter feito o
papelão de participar do governo depois de ter passado a campanha passada
inteira não poupando o então candidato Lula das críticas mais pesadas, ela
pretende se apoiar na votação expressiva que teve no estado nas eleições
passadas para tentar se eleger senadora por um estado que mal conhece.
Alguns dirão que a mudança de
domicílio não chega a ser um problema. Afinal, o atual governador, Tarcísio de
Freitas, também caiu de paraquedas no estado nas eleições passadas e acabou
chegando ao Palácio dos Bandeirantes com o apoio do ex-presidente Bolsonaro. Só
que, uma vez lá, fez uma administração de primeira qualidade. Governou com a
lógica, se apoiou em dados concretos e se firmou como favorito nas próximas
eleições.
E quanto a Simone? Bem... na
disputa pela Presidência da República, Simone teve em São Paulo (onde
conquistou 1,6 milhões de votos ou 6,34% do total) uma votação mais expressiva
do que no conjunto do país (onde obteve 4,16%). Será que os eleitores que a apoiaram
em 2022 pelo fato de ser uma alternativa a Lula e a Bolsonaro estarão dispostos
a levá-la para o Senado só porque o governo a apoia?
Na divisão de funções entre as
Casas do Congresso Nacional, a Câmara representa a sociedade. O Senado, por sua
vez, tem a obrigação de defender os interesses dos estados. É por isso que,
independentemente do tamanho das populações, cada bancada tem três integrantes.
Ou seja: a disputa para o Senado envolverá pesos pesados e promete grandes
emoções para 2026. O eleitor, porém, não deve perder de vista um aspecto mais
do que importante: o Senado não serve apenas para escolher e julgar integrantes
do STF.
Em tempo: eram dois senadores
por estado até as eleições de 1974, quando o partido da oposição à ditadura
militar, o velho MDB, elegeu 16 entre as 22 cadeiras que foram disputadas. Para
evitar que seu partido de sustentação, a Arena, perdesse maioria no Congresso,
o governo do general Ernesto Geisel, alterou os critérios de composição da
Câmara a partir das eleições de 1978, criando a aberração representativa que
prejudica os estados de maior população e vigora até hoje e aumentando de dois
para três o número de senadores de cada estado.
Uma das vagas seria preenchida
não pelo voto popular, mas por indicação do governo. Esses senadores,
apelidados de “biônicos”, exerceram até o fim os seus mandatos e participaram
até mesmo da elaboração da Constituição de 1988, que, por sinal, manteve critérios
de representação e as três cadeiras no Senado impostas pelo governo militar.
Tomara que, desta vez, o eleitor preste mais atenção a esse voto e esteja mais
atento aos interesses reais dos estados que os elegeram.
Título e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 5-4-2026

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