domingo, 5 de abril de 2026

[As danações de Carina] De repente, a cortina de fundo se abre revelada

Carina Bratt

NO TEATRO DA VIDA, há sempre uma cortina. Essa cortina não sei por qual motivo é pesada, vermelha, aliás, um vermelho tétrico às vezes parece empoeirada, outras vezes se coaduna reluzente. Ela separa o que se mostra do que se esconde, o espetáculo da preparação, o riso da lágrima. 

Naquela noite de estreia, a pequena cidade interiorana parecia suspensa em expectativa. O público aguardava, inquieto, o início da peça. As luzes se apagaram, e o silêncio se fez tão profundo, tão intenso, que até o respirar dos presentes parecia um ato ousado. A cortina, imóvel, guardava segredos.

Mas eis que, por descuido ou destino, ela, do nada, se abriu de repente. Se escancarou antes da hora. Não havia atores prontos, nem falas ensaiadas. Apenas gente comum, em seus gestos banais. O contrarregra ajeitando o cenário, a atriz principal acertando a calcinha, uma outra retocando o batom.

O diretor nervoso, com olhar aflito mordia as unhas. O público, sentado, sala cheia, se fazia quieto, mas num instante, se moldou atônito. Na verdade, essa galera viu, num piscar de olhos, o que não deveria ver. E o que exatamente não deveria ser visto? A verdade por trás da ilusão.

E foi nesse instante de clima denso que se revelou o maior espetáculo. Porque a vida, ao contrário do teatro, não tem ensaio. O que se mostra sem máscara é sempre mais intenso. A cortina de fundo, ao ser revelada, expôs não a fragilidade da arte, mas a sua essência: o humano, imperfeito, o mundo real, o agora de todos nós.

O aplauso no final, retumbou. Veio tímido, depois forte, como quem agradece não pela ficção, mas pela coragem de mostrar o que há por trás dela. Desde então, euzinha, aprendi a desconfiar das cortinas. Aliás, confesso, tenho um medo meio mórbido. Motivos não me faltam. Elas escondem, mas também protegem. E quando se abrem sem aviso, revelam que o espetáculo mais bonito é aquele que efetivamente não estava no ‘script’, se esvaiu dentro de um previsto meio que impreciso.

Imagina só: o espetáculo tem início sem roteiro fixo, sem personagens definidos. A cortina se abre e, em vez de atores, entram pessoas comuns. O padeiro da esquina, a professora cansada, a criança curiosa, o longevo de idade avançada tentando rememorar o seu ontem. Cada um, em particular, traz a sua própria história, e o faz sem ensaio, melhor dito, o faz sem maquiagem.

O inédito está justamente aí: o palco se torna um espelho claro da vida, e o público assiste ao que nunca se repete, porque cada gesto cotidiano é único. Nesse ponto, entre em cena a seguinte questão: O que seria esplendoroso nesse espetáculo? A meu entendimento, a espontaneidade.

Nada é ensaiado, tudo acontece no calor do momento. Em seguida, temos a mistura de papéis: quem era espectador pode virar ator, quem estava nos bastidores pode assumir o centro da cena. Não podemos nos esquecer da revelação do invisível. E o que é isso exatamente?

É aquilo que normalmente fica escondido, oculto. Penso, seja a preparação, o nervosismo, o improviso, a virada transformada em protagonista. A quebra da ilusão, em vez de fingir, o espetáculo mostra o real, e o real, o agora, o já, por si só, é mais surpreendente do que qualquer ficção.

A sensação de irrepetível: em cada noite, seria diferente. Seria porque a vida nunca se apresenta duas vezes da mesma forma. O inédito, portanto, não estaria em efeitos especiais ou cenários grandiosos, mas se escudaria, ou se agarraria de unhas e dentes na coragem de mostrar o que sempre se esconde.

O humano em sua essência, o tolo, o boçal, em face do levantamento inopinado da cortina, o pego de surpresa e sem máscara desfaz toda a vida e a deixa nua, crua, exposta, tímida como ela, de fato é.

Se as minhas leitoras de todos os domingos me permitem, vamos pular, dar um salto. Imagina, você, que está lendo meu texto. O final desse espetáculo, a plateia já se prepara para os aplausos, acreditando que tudo terminou. A cortina então começa a se mover lentamente, anunciando o derradeiro fim.

Mas antes de se fechar por completo, algo acontece. Uma revelação inesperada, quase mágica cria vida. O invisível se torna visível. Atrás do cenário, nas coxias, surge uma projeção de memórias, fragmentos da vida dos próprios espectadores, como se o palco tivesse captado seus segredos e os devolvesse em forma de arte.

No espanto coletivo, cada pessoa presente se vê refletida num gesto íntimo, tipo uma lembrança esquecida, um detalhe que só ela reconhece. É como se o espetáculo tivesse atravessado a cortina da realidade e tocado o invisível de cada um sentado na plateia. Por assim, em face da quebra da fronteira, não há mais separação entre palco, atores, atrizes e figurantes.

O espetáculo revela que os ‘verdadeiros protagonistas’ não são os atores, mas o público que assiste, observando que cada vida é uma peça inédita. O silêncio arrebatador, em vez de aplausos imediatos, se avulta, se agigante, cria vida, asas, voa alto. Há um instante de silêncio profundo, porque todos estão atônitos diante do que foi revelado.

Só depois, muito depois, vem os aplausos, e eles vem, se achegam, não pelo que viram, mas pelo que sentiram. Assim, a cortina se fecha de vez, se esconde, mas, apesar de se esconder, deixa no ar a sensação real de que o espetáculo não acabou. Ele continua firme e forte, pulsante e eterno dentro de cada um de nós.

O melhor de tudo. Segue invisível, se faz triunfante, se condensa, único, obeso, mas uauuuu!... para a alegria de todos, agora o espetáculo inteiro se revela apaixonadamente sem máscaras. Em outras palavras. A vida, como ela é, ou como sempre foi, sem nunca, por qualquer motivo, deixado de ter sido.

Título e Texto: Carina Bratt, do ‘Sítio Shangri-Lá’, Pequiá, ES/MG, 5-4-2026 

Anteriores:
[As danações de Carina] Ninguém me ouve, mas estou pedindo socorro 
[As danações de Carina – Extra] Dezenove de março, aniversário de Aparecido Raimundo de Souza, seguidos de 73 velinhas que serão apagadas logo mais à noite 
Onde nós conversamos com nossos silêncios 
Nada mais me irrita, nem eu mesma, quando estou sozinha...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-