Não repita nem espalhe aos
quatro ventos informações falsas. Já bastam as que a esquerda woke injeta
João Pedro Marques
Numa passagem do seu discurso no passado dia 10 de Junho, a escritora Lídia Jorge acentuou, adequadamente, as múltiplas origens do povo português. Disse, a esse respeito, o seguinte: “Consta que em pleno século XVII 10% da população portuguesa teria origem africana. Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui, e nos miscigenámos. O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou”.
Passemos por cima do dado
percentual errado — Lídia Jorge terá eventualmente confundido população
portuguesa no século XVII com população de Lisboa no século XVI. Segundo
Arlindo Manuel Caldeira a percentagem de escravos e negros livres, em Portugal,
situar-se-ia entre os 3 e os 4%. Passemos, também, por cima de um curioso
esquecimento relativamente aos árabes, isto é, aos asiáticos, que — esses, sim
— nos invadiram, e muito antes do século XVII já constituíam parte
significativa da população portuguesa. Somos a soma não apenas do europeu e do
africano, mas também do asiático.
Mas tudo isso são detalhes. O
que importa acentuar é que a escritora tem razão no resto que afirmou nesta
breve passagem do seu discurso. Discurso
que provocou reações desencontradas, com o Chega, pela voz de André Ventura, a
contestar, e a esquerda a vir para as redes sociais e, quase que imediatamente,
para os jornais, a celebrar e a apoiar estas afirmações de Lídia Jorge.
Contudo, essa esquerda não terá reparado que está a entrar em forte contradição
(a esquerda é muito dada a não se prender com essas minudências). É que, se de
facto, nós, portugueses, descendemos dos africanos e dos europeus, dos escravos
e dos seus senhores, por que razão é que essa mesma esquerda que rejubila com o
discurso de Lídia Jorge, apoia e exige, por outro lado, reparações pela
escravatura? Se não somos apenas descendentes dos senhores, mas também daqueles
que eles traficavam ou mantinham em escravidão, teremos de pagar reparações a
quem? A nós próprios?
Fica a pergunta e passo adiante porque o discurso de Lídia Jorge suscita-me uma segunda questão, bem mais importante. É que numa outra passagem da sua intervenção, a escritora, referindo-se ao local do Algarve em que discursava e mais especificamente à questão dos Descobrimentos versus escravatura. Disse o seguinte:


















