sexta-feira, 19 de junho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Marlucia

Aparecido Raimundo de Souza

AS PESSOAS MAIS CHEGADAS a mim e a minha trajetória de vida meio tresloucada, ou melhor, totalmente desvairada e sem nexo, sem o brilho ofuscante e resplandecente da felicidade, me perguntam com certa insistência: quem é Marlucia? Marlucia é uma das muitas mulheres que passaram pela minha vida. Ela não foi a primeira, nem a última, mas elegantemente teve o seu jeito, a sua hora, o seu tempo de convivência.

Nessa passagem pela minha vida, deixou a sua marca indelével, o seu talento inquestionável, a sua ternura, a sua luta tenaz para tentar viver comigo, como as anteriores que cruzaram o meu caminho. As precedentes foram Dalva, com quem tive o primeiro filho, o Eduardo. Depois foi a vez de Carla, que me agraciou com a Narjara.

Mas o foco desse texto é a Marlucia. Conheci essa jovem inimitável logo que me separei de Carla. E diante da minha tristeza, ela me fez voltar a ser feliz outra vez. Me divinizou com a Amanda, e logo adiante, me enalteceu com o sorriso indescritível de Luana Cristina. Sem juízo, depois de alavancar a minha vida, de conseguir tornar real o advento da aquisição da primeira casa (junto com ela) eu a abandonei à própria sorte.

Belo dia, do nada, sem aviso, meti o pé na estrada. Fui embora para Porto Alegre, com outra mulher deixando Marlucia e as duas meninas entregues aos reveses da própria sorte. O tempo de ausência ao qual dei causa, foi muito grande. Levado pela estupidez da maldição de não ter a cabeça no lugar, nem tentar aquietar meus ímpetos, quando voltei, tudo havia se desfigurado para uma transmutação sem o antídoto cordial com ares benfazejos para uma acomodação harmoniosa.

Embora as crianças (notadamente a Amanda) nunca tenha me esquecido, apesar da ausência prolongada e sentida, quando atinei em dar os ares da graça, revolvendo os tempos dos idos de outrora, a miudinha não me rejeitou. Me amou sem a pecha da rejeição ou da esquives. Luana, entretanto, foi a mais afetada. Seguiu pelas asperezas dos enjeitamentos. Durou pouco para me aceitar como o pai safado que havia voltado das sombras.

O tempo continuou passando inexorável.  Sisudo e de concepção frágil como um vidro bonito que se quebra e se estilhaça, eu não consegui colar os caquinhos que se espalharam. Por conta disso, arrasado e vazio, de igual forma também nunca mais angariei a sorte duradoura de me aprumar. Nesse tom acre e declivoso, ladeirento e escareado, de tropeço em tropeço, passei por outras jovens, mas nunca, efetivamente, alcancei o objetivo de me soerguer de maneira próspera e definitiva.

Nem mesmo a Cleusa, (uma de minhas muitas), apesar de todos os esforços, teve a felicidade plena de me colocar nos trilhos. Vegetando de deu em deu, sofrendo na carne em face de caídas e levantadas, de alçamentos e porradas, de baques e bateções de cabeça e pancadas do cotidiano segui com a minha vida errônea. Fui em frente, vivi sem mulher, sem as filhas, sem um teto para voltar e tentar me reconstruir de todas as mazelas que eu próprio fiz a gentileza de dar causa.  

Marlucia não era de muitas palavras. Sofreu silenciosa e calada. Aguento u rojão, criou as meninas sozinhas, o dizia nas raras vezes, quando nos encontrávamos, que “sentia solidão, às vezes medo”. A sua voz tinha peso, entonava coerência.  Dentro de mim, eu sentia que em vista das mágoas e tristezas os encantos do nosso relacionamento de outrora haviam perdido a magia bucólica dos primeiros encontros. Por conta, o bonito e suave se apagaram, e, de roldão as nossas noites dormidas no chão de um escritório que eu havia comprado e tentava exercer a profissão de advogado descambaram para o beleléu.

Em dias de agora, sempre que me recordo dela, me vem acudir à memória uma moça inigualável, linda e perfeita. Desde os primeiros dias grudou em mim essa pérola nacarada, como nenhuma outra, sem falar que de todas as filhas do velho Didino (meu sogro, falecido), ela era e se fazia a mais bonita e perfeita. Nunca antes eu tivera uma mulher assim. Marlucia possuía os cabelos pretos, e agora, com o gotejar dos anos, o coração magoado, capturo alguns fios mudando de cores e, no mesmo rastro, as mãos calejadas de tanto trabalhar.

Hoje, do nosso ontem, apenas quimeras. Confesso, eu a espreito de longe, vigio escondido, quando ela salta do ônibus. Nessas resumidas e curtas anagogias (quase místicas), eu mato as saudades sempre no horário que ela volta para casa. De longe, feito um bicho do mato a acompanho sem que me veja. Ao entrar em sua casa, ela se faz em festas expansivas. Se abre em mesuras, se alastra num sorriso eterno, ao tempo em que se dedica aos nossos netos João Eduardo (filho de Amanda) e Heitor (filho de Luana Cristina).

Fico imaginando, com meus desesperos, se não tivesse ido embora, fugido, criado asas enormes, talvez eu fosse um cara feliz e, realizado. Quem sabe tivesse a minha casinha simples junto com ela e as meninas, quem sabe, essa humilde morada virado um palacete, com ela dentro, os netos, e quem sabe ainda, as filhas. Dizem que o amor verdadeiro é coisa de novela, de poesia bonita. Com Marlucia, o amor se fazia palavras de Mario Quintana.  Bastava partilhar o pouco que tínhamos, acordar antes do sol, eu me aprontar para o trabalho... talvez não apagasse o fogo.

Ela era o meu calor, o meu mundo desconhecido e certamente a estrela da minha vida inteira não tivesse se esvaído e o que restou do que fomos, se embrenharia por outros rumos e eu fosse verdadeiramente feliz até hoje, na acepção da palavra, juro, eu estaria vivendo tranquilo na “Rua dos Cataventos”. Não foi o nosso pouco tempo de convivência, um “casamento de flores e festas grandes”. Foi sim, uma união feita de amor, de necessidades e também de um carinho quieto, meigo, silencioso, respingado de uma efemeridade à flor da pele que não precisava ser gritado para existir.

Tivemos dias bons. Dias em que se assemelhado a colheita, o nosso cotidiano virava um jardim florido. Apesar do pouco tempo em que vivemos uma vida a dois, tinha tudo para a união dar certo. Houve dias, é bem verdade, em que a chuva chegava na hora certa, as tardes de rostos faceiros em que a gente sentava na porta da rua e sorríamos ouvindo os gritos estridentes das meninas, sem precisar de mais nada para nos alegrar. Também tivemos dias difíceis: essas coisas corriqueiras, aqueles entraves que todo casal enfrenta quando a vida aperta.

Com o tempo, os nossos caminhos foram se afastando. Não houve briga feia, nem ódio. A vida foi seguindo o seu rumo, como o rio que às vezes muda de margem. Ela foi para um lado, a cabeça erguida, eu para outro, olhando firme para o chão que pisava. Nunca falei mal dela, nem ela de mim. Respeitamos o que vivemos, mesmo que a felicidade não tenha durado para sempre.

Hoje, matungo e expatriado, quando alguém me pergunta sobre ela, eu digo a verdade: Marlucia foi uma mulher honesta, trabalhadora, uma “Encantada” que deu o que podia e viveu como sabia. Amava a simplicidade. Não foi perfeita, nem eu fui. Ninguém de fato se vangloria disso. Mas ela, o meu eterno amor, deixou comigo, grudado em mim, na minha pele, no meu sangue, no meu “eu” escondido, a sua parte na minha história. A vida é feita de encontros e despedidas.

Algumas pessoas ficam para sempre, outras passam, mas deixam um pedacinho de si. Marlucia foi assim, ou melhor dito, ainda é. Marlucia é uma página não virada, uma crônica que não se esquece quando alguém a lê. Marlucia é uma página moldada com a simplicidade e a verdade incomensuráveis de quem apenas tentou viver aos trancos e barrancos, sofrendo altos e baixos, ao lado de um ser desgraçado infame, desmiolado... e cá entre nós, ela fez de tudo, para ser e me fazer feliz.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 19-6-2026

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