Bolsonaro acabou com a desculpa de todo mundo
Rogerio Pires
Existem gestos na política que
valem muito e são emblemáticos. A carta manuscrita de Jair Bolsonaro, lida por
Flávio Bolsonaro em transmissão ao vivo, é um desses gestos. Não estamos diante
de um comunicado partidário qualquer, redigido por assessores e revisado por
marqueteiros. Estamos diante de um pai que, impedido de falar diretamente ao
povo, escreve de próprio punho para entregar ao Brasil aquilo que tem de mais
precioso.
Ele já havia dito isso com
todas as letras em dezembro, na primeira carta: “Entrego o que há de mais
importante na vida de um pai: o próprio filho para a missão de resgatar o nosso
Brasil”. Agora, meses depois, o recado ganhou urgência. “O momento é de arregaçar
as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo
nosso pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro”, escreveu o ex-presidente.
E completou com a frase que deveria ecoar em cada casa conservadora deste país:
“Ele é meu pré-candidato, creio que o seu também, meu porta-voz, no qual confio
para resgatar o Brasil”.
Creio que o seu também. Leia
de novo. Jair Bolsonaro não está pedindo um favor. Está fazendo uma convocação.
E aqui é preciso ter coragem
para dizer o que muita gente prefere sussurrar nos bastidores: chega de
silêncio. Não é mais hora de construir carreira apenas criticando Lula e o PT
nas redes sociais, colhendo likes enquanto o candidato do movimento caminha
sozinho. Criticar o governo é fácil. Difícil é sair da zona de conforto, subir
no palanque e declarar apoio quando a guerra ainda não está ganha.
Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Marcos Pontes, Damares Alves, Tarcísio de Freitas. Cada um desses nomes chegou onde chegou porque um dia Jair Bolsonaro abriu a porta, emprestou o palanque e transferiu a confiança de milhões de brasileiros. Ninguém aqui construiu capital político no vácuo. Esse capital tem origem, tem história e tem dono: chama-se direita bolsonarista, e essa grande massa popular tem memória longa. Gratidão não é palavra bonita para discurso de posse. Gratidão é atitude, e atitude se mede na hora em que custa alguma coisa.
O próprio Flávio, ao ler a
carta, foi claro ao interpretar o recado do pai: a definição do porta-voz serve
justamente para evitar falas conflitantes e direções paralelas dentro da
pré-campanha. Traduzindo do político para o português: acabou o tempo das candidaturas
de gaveta, dos projetos pessoais disfarçados de estratégia e das declarações
ambíguas para agradar a todos os lados. Como resumiu o senador, o pedido é para
deixar diferenças menores de lado e combater o verdadeiro adversário do Brasil.
Sei que houve ruídos. Sei que
houve mágoas, algumas delas públicas e dolorosas. Mas movimento político que se
paralisa por vaidade ferida não merece governar nação nenhuma. A esquerda, que
se odeia internamente como poucos, sabe se unir na hora do voto com uma
disciplina que a direita ainda precisa aprender. Se em 2026 o campo conservador
repetir o erro da fragmentação, não poderá culpar o sistema, a imprensa ou as
urnas. A culpa será de quem recebeu a carta e fingiu que não leu.
Jair Bolsonaro está saudoso do
contato com o povo, como ele mesmo escreveu. O povo também está saudoso dele. E
a forma mais concreta de retribuir tudo o que esse homem representou para o
Brasil é simples: fechar com Flávio, sem meias palavras, sem cálculo, sem
espera estratégica. O pai entregou o filho. Agora a pergunta que fica para cada
liderança da direita brasileira é uma só: você vai estar na foto quando a
história for contada, ou vai entrar para ela como quem abandonou o movimento na
hora da guerra?
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, TIMELINE,
11-7-2026
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


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