Henrique Pereira dos Santos
Um dia destes, o Público tinha uma chamada de primeira página e uma página inteira (que não li, passei os olhos por um ou outro parágrafo para confirmar que não valia a pena ler, tratava-se de um artigo de mal dizer do jornalista sobre Ronaldo, disfarçado de análise numérica rigorosa) sobre o facto de Ronaldo ser o que menos tinha corrido dos 16 finalistas.
A coisa era toda ela
completamente ridícula, consistia, tanto quanto percebi, em pegar no jogador
mais avançado de cada uma das 16 equipas que chegaram aos oitavos, e ver quanto
tinham corrido, essencialmente para dizer que o Ronaldo não joga nada e está
quieto, sem que se perceba o que serve dizer se alguém corre mais um bocadinho
ou menos um bocadinho, fora do contexto do jogo de equipa.
Tinha uma tabela com os ditos
jogadores, a maior parte dos quais nem sei quem são, portanto não sei se têm
estado a jogar bem ou mal, mas reparei que imediatamente antes de Ronaldo, com
números muito semelhantes, estava um jogador de que tenho ouvido falar bem
neste campeonato, um tal Mbappé.
Assim sendo, normal seria o
jornalista concluir que isso de correr muito ou pouco talvez não seja o que
define o que cada um joga, só que como o jornalista queria é dizer que Ronaldo
está a mais, este pequeno pormenor de ter números semelhantes a Mbappé passou a
irrelevante.
O governo (finalmente!),
resolveu começar a mexer um bocado mais no mercado de arrendamento e claro que
a imprensa, os comentadores e a oposição que criticam o governo por não fazer
nada de relevante e se limitar a cumprir o papel de rolha, começaram a criticar
o que o governo quer fazer.
Na televisão que estava a ver, aparece o senhor da associação de inquilinos lisbonenses, ou um nome semelhante, a defender coisas completamente idiotas como que reina a informalidade à margem da lei no mercado de arrendamento, de maneira que mudar a lei para a qual as pessoas se estão nas tintas ia aumentar a instabilidade dos inquilinos que fazem acordos com os senhorios à margem da lei.
Como faço frequentemente
quando aparece um representante de grupos difusos, como os inquilinos, os
utentes, os moradores e outras macacadas, vi o nome, escrevi-o no google e
acrescentei "candidato".
Bingo! Lá esta a Mafra TV a entrevistar o candidato da CDU à Câmara de Sintra, o tal senhor que fala em nome dos inquilinos lisbonenses, sem que os jornalistas queiram saber qual é a representatividade dessa associação e como são escolhidos os seus dirigentes: "Entre abril de 2012 e outubro de 2017 foi vereador em Sintra, assumindo as Atividades Económicas, Licenciamentos e Gestão de Mercados e Serviço Municipal de Informação ao Consumidor, além de presidente da Agência Municipal de Energia de Sintra (AMES), administrador da Fundação CulturSintra, e fundador da Associação Saloia (A2S). Militante do PCP, membro da Direção Regional de Lisboa, do executivo e da Comissão Concelhia de Sintra, Pedro Ventura foi também, entre 2016 e 2021, consultor nos Serviços Intermunicipalizados de Águas e Resíduos (Simar) de Loures e de Odivelas".
A esmagadora maioria do
jornalismo acha irrelevante dizer que quando Joana Bordalo e Sá fala sobre
saúde, não sabemos se fala como médica, como dirigente sindical, ou apoiante
sistemática da CDU, tal como Tiago Oliveira é sempre apresentado como representando
os trabalhadores por ser secretário geral da CGTP, omitindo-se sistematicamente
a sua qualidade de membro do comité central do PCP.
Agora que o processo de exames
está a correr mal, desata toda a gente a dizer que não se percebe por que razão
o governo foi mexer numa coisa que corria bem (traduza-se, era igual ao que
sempre foi, evitando-se os riscos de qualquer mexida que pudesse tornar as
coisas mais eficientes e melhores), e que o ministro anda feito barata tonta
para a frente e para trás, a tentar resolver os problemas que existem.
Susana Peralta escandaliza-se
porque o ministro já teve de recuar não sei quantas vezes (felizmente, digo eu,
isto é uma crítica típica de quem nunca teve de gerir coisa nenhuma, e portanto
não sabe que nem sempre as decisões correm bem e é útil ter flexibilidade de
adaptação à realidade quando as coisas correm mal, recuando as vezes que for
preciso para resolver os problemas não previstos) e, pior, na opinião de Susana
Peralta, o ministro foi vítima da sua vontade de poder apresentar obra feita
(felizmente, digo eu, o que me chateia é haver tantos ministros cuja vontade
maior é ser ministros, e não correr riscos de decidir o que é difícil e
complexo).
Bem sei que Susana Peralta não
é jornalista, é uma prolixa comentadora que fala e escreve em vários sítios ao
mesmo tempo, sempre com certezas absolutas de que faria muito melhor que os
outros, porque tem três estudos que confirmam as suas ideias, faz parte deste
ambiente mediático malsão em que qualquer erro, qualquer coisa que corre mal,
tem de ter consequências definidas por quem critica e que raramente respondem à
questão concreta que é preciso resolver.
Miguel Pinheiro, esse sim,
jornalista e, ao mesmo tempo, comentador e gestor de jornalismo, até diz que
não é qualquer um que é um bom político, dá até o exemplo de David Cameron, que
um dia perdeu força política, demonstrando que não era um bom político.
Miguel, ao contrário dos
jornalistas, que podem dizer o que entendem sem que isso tenha qualquer efeito
na sua reputação (O comentador da CNN Portugal, Miguel Pinheiro, considera que se Luís Montenegro continuar a estratégia de "assobiar para o lado" as eleições vão ser "uma hecatombe".), nisso se aproximando dos académicos, os
políticos, como os futebolistas, vivem num palco em que são duramente
escrutinados, de forma permanente, num confronto desigual com os seus críticos
mediáticos.
O percurso de Passos Coelho,
um bom político, com certeza, demonstra de forma clara como é desigual e
injusto o escrutínio imposto pelo mundo mediático, demonstrando como o
jornalismo pode dizer o que quiser, mesmo que seja mentira, e fazer pulhices
permanentemente a alguém, sem que os jornalistas paguem outro preço que o que
advém de, aos poucos, o jornalismo passar de ativo fundamental da democracia a
passivo sem qualquer raiz social sólida.
Ainda esta semana ouvi Susana
Peralta repetir a mentira inventada pelo jornalismo de que Montenegro era primeiro-ministro
e continuava a receber uma avença da Solverde, sendo os factos irrelevantes
face à sua interpretação criativa de que Montenegro está a receber uma avença
porque familiares são donos e gestores de uma empresa que presta serviços pelos
quais recebem uma avença.
Podemos discutir se um
primeiro-ministro deve ter familiares que têm empresas, o que manifestamente é
mentira que esse primeiro-ministro esteja a receber uma avença.
E é isto o jornalismo hoje em
dia.
Paulo Querido fez um trabalho
monumental de caracterização dos comentadores que escrevem em jornais,
classificando-os politicamente, só que o problema fundamental não são os
comentadores (há um problema sério com o comentariado que consiste no facto de
se dizer ou escrever uma mentira, factualmente demonstrável, não acarretar o
imediato afastamento do comentador), o problema são mesmo as redações, essas
sim, que funcionam da forma que descrevi, seja no jornalismo desportivo, seja
no jornalismo político.
Título e Texto: Henrique
Pereira dos Santos, Corta-fitas,
12-7-2026, 10h30
[Língua Portuguesa] Militantes DAS ou NAS redações?
O silêncio da imprensa brasileira sobre isso é assustador
Muito além do futebol — 2
“Defender a democracia através da censura é como defender a liberdade através da prisão”
Esse é o nível de parte do jornalismo brasileiro
Militantes NAS redações: “Tenham vergonha!”

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