domingo, 12 de julho de 2026

[As danações de Carina] O meu maior desejo vem exatamente daquilo que sequer tenho coragem de revelar

Carina Bratt

ESTOU aqui sentada na varanda do meu apartamento, olhando para o mar imenso em frente ao meu prédio na Gil Veloso ir ficando de uma cor esquisita conforme o sol vai descendo devagar, como quem não quer incomodar ninguém. O vento traz o cheiro desse mar, tipo assim, de barro molhado, de pão quente que acabou de sair do forno da padaria da esquina.

Nesse momento, passa, lá embaixo, um cachorro com o rabo baixo, seguido de uma senhora com sacolas na mão. Logo atrás, vem o tempo, que é o que mais passa por essas bandas, sem pedir licença, sem dar explicação. E eu fico pensando numa coisa que carrego há anos, desde menina, e da qual nunca, em texto nenhum, em conversa nenhuma, em pensamento mesmo que seja muito organizado, eu quis declarar o nome.

Dizem por aí que tudo o que existe tem nome. Que para cada coisa, sentimento, sonho ou dor, a nossa língua pátria, ou qualquer outra guarda uma palavra pronta, medida, etiquetada, que serve para todo mundo. Dizem também que nomear é dominar, é entender, é trazer para a luz o que estava na sombra. Eu já acreditei nisso. Escrevi só aqui para a ‘Cão que Fuma’, em meu espaço ‘Danações’, mais de duzentas crônicas tentando botar nome em tudo.

Nome na saudade, na ironia, na hipocrisia do mundo, no amor que acaba, no amor que não finda nem quando devia, na solidão que vem de visita e fica sentada esperando para o jantar. Mas há um desejo em mim, o mais fundo de todos, o que na verdade é a raiz de quase todos os outros, e esse eu não cito o nome. Nem para euzinha, quando estou só, de madrugada, com os cômodos todos em silêncio.

Vocês, minhas caras leitoras já devem estar imaginando coisas. Certamente pensando que é algo vergonhoso, proibido, daqueles que a gente esconde debaixo do colchão, que só sai de noite, que tem cheiro de pecado ou de perigo grande. Ledo engano. Não é dinheiro, até que dinheiro é bom. Tem nome certo, todo mundo sabe o que é, todo mundo quer, não tem segredo nenhum. Não é poder, nem fama, nem vingança, nem amor de quem não pode, nem saúde eterna, nem viagem para o fim do mundo. É um pouco de cada uma dessas coisas, talvez, mas só o que fica sobrando quando você tira tudo o que as palavras já explicaram.

É o resto. É o que fica no fundo do copo depois que você já bebeu tudo o que tinha para beber. É o que você sente de repente, parado no meio da rua, ouvindo ‘uma música dos ‘tempos do ronca’ do Roberto Carlos’ que não ouvia há trocentos anos, e os olhos molham, e você não sabe explicar para ninguém por quê, nem para você mesma. É o aperto no peito quando o mar está muito calmo, muito azul, e parece que no íntimo está guardando uma verdade que ele nunca vai contar para ninguém.

Esse desejo não mora nas frases grandes. Reside nos intervalos. Se esconde no silêncio entre uma palavra e outra. Se esvai no momento em que você está conversando com alguém que ama, e de repente para de falar, e olha, e entende tudo sem precisar dizer mais porcaria nenhuma. Na luz que entra pela fresta da porta à tarde, fazendo pó de ouro no ar.

Na lembrança de uma cena que você não viveu, mas que tem certeza absoluta que conhece de algum lugar, de alguma vida antes dessa. É isso. É algo que não cabe em sílaba nenhuma. Que se você tentar dizer, na mesma hora ele encolhe, esse algo fica pequeno, comum, ordinário, e deixa de ser o que é. É como tentar pegar fumaça com a mão: no exato momento em que você fecha os dedos, ela já não está mais lá.

Já escrevi, como disse acima, um amontoado de crônicas, postadas em um pedacinho dessa grandiosa revista, muita gente já leu, muita gente achou que o título falava de coisas vazias, de lembranças desfalecidas, superadas, de camas vazias, de saudades de rostos severos ou de poder. E até eu falava, sim, um pouco. Mas o perigo maior, o que eu não disse direito em página nenhuma que publiquei.

É exatamente essa ligação que cada um de nós tem com o seu desejo sem nome. Porque ele não tem regra. Não tem contrato. Não tem data para acabar, nem caminho certo para seguir. Ele não promete nada, não entrega nada, não garante realização nenhuma. E mesmo assim é mais forte do que todos os outros desejos juntos, os que têm nome, os que a gente lista no papel, os que conta para o amigo, para a mãe, para o vigário ou para o terapeuta. Esse não pede para ser realizado. Ele só pede para existir. Quieto. Lá no fundo, onde ninguém vê, ninguém toca, ninguém julga.

Todo mundo tem um igual. Euzinha tenho certeza. Você que está lendo agora, tem o seu. Pode até ser que você nunca tenha parado para pensar direito, mas ele está lá. É o que faz você levantar da cama nos dias em que nada parece valer a pena. É o que faz você olhar para o céu à noite, sem saber o que procura. É o que faz o coração bater mais forte de vez em quando, sem motivo aparente. Uns, como o poeta ‘Marien Calixte’ chamam de ‘Deus’.

Outros mestres da literatura, de ‘saudade ou do que nunca aconteceu’. Outros preferem rotular ‘de esperança sem objeto, outros de nada mesmo’... como João Cabral de Melo e Hilda Hilst. Mas nenhum desses nomes serve. Todos são só disfarces. Todos são só o que a gente inventa para poder falar sobre aquilo do qual não se pode trazer à baila, de verdade.

O sol já quase sumiu por trás dos navios parados bem lá no longe da praia. A luz já é quase pálida, o vento ficou mais fresco, as luzes da Gil Veloso se acenderam uma por uma, como vagalumes grandes e quietos disfarçados de postes de pernas compridas. O cachorro já voltou, agora mais devagar. A senhora das sacolas já entrou no prédio ao lado. E esse desejo continua aqui, ao lado de mim. Segue firme, calmo, antigo e novo ao mesmo tempo. E eu continuo muda, sem dizer a droga do nome.

Não é por teimosia. Não é por vergonha. É por respeito. É por saber, no mais profundo do meu âmago, que a sua força, a sua graça, a sua razão de existir dentro de mim, está toda inserida nesse segredo. Se eu pronunciar aquelas sílabas, se eu escrevê las aqui mesmo nesse texto, na mesma hora, ele vira coisa. Se transforma em mercadoria. Se prostitui em assunto de roda de conversa. Opinião alheia. E deixa de ser inteiramente o meu.

Por derradeiro, deixa de ser o que me move devagar, ou silenciosamente, todos esses anos, através de tantas páginas, tantos dias, tantas crônicas publicadas das minhas ‘Danações’ danadas, ou ‘danosas’ que a vida nos faz e nos permite fazer. Algumas coisas, a gente só pode tocar com o silêncio. E o maior desejo que eu tenho, esse mesmo, do qual nem vou citar o nome é que ele permaneça assim para sempre, ou seja: vivo, inteiro, meu, sem nunca ter precisado ser dito e propagado em voz alta.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 12-7-2026

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