As feições do presidente Lula e de seus aliados durante o discurso
depois do 1º turno das eleições são o retrato perfeito do resultado das urnas
neste 4 de outubro. A cara fechada de Fernando Haddad, o olhar desolado de
Geraldo Alckmin, o cenho franzido de Guilherme Boulos, o semblante abatido de
Edinho Silva e o bico de Janja deixam claro que não havia nada a comemorar.
Dos 21 governadores eleitos no primeiro turno, a oposição emplacou 12. Sete a
mais que o PT e seus aliados. Na Câmara, só o PL conquistou 121 das 513
cadeiras. Somando os partidos assumidamente de direita àqueles que já
declararam apoio a Flávio Bolsonaro no 2º turno, o total chega a 286
deputados — 55% da Casa.
No Senado, os conservadores conquistaram 33 das 54 vagas em disputa. Ou seja:
em 2027, 49 dos 81 senadores estarão vinculados a partidos de direita. A
reportagem de capa desta edição, assinada por Cristyan Costa, Matheus
Santos e Sarah Peres, mostra que, fortalecida no Congresso e nos governos
estaduais, a direita ganha poder para seguir adiante com reformas estruturais
e abertura de processos de impeachment contra ministros do STF. “Quando os
resultados das eleições foram computados, ficou evidente a repulsa do eleitor
pela coalizão PT-Oligarquias-Juristocratas”, resume Roberto Motta.
Os nomes escolhidos pela maioria do eleitorado também comprovam uma mudança
geracional na política brasileira. Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, José
Dirceu, Marina Silva, Haddad, Rui Falcão e Randolfe Rodrigues, entre outros,
saem de cena e abrem espaço para campeões de voto, como Nikolas Ferreira,
Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano e Lucas Polese.
Augusto Nunes conta quem são os demitidos pelo povo neste ano. Vanessa
Araújo, Rachel Díaz e Tauany Cattan explicam por que a jovialidade
dessa nova geração não se limita à idade. Está também nos métodos usados por
esses políticos para se comunicarem com os eleitores e transformarem a
presença digital em votos. Como disse Nikolas em resposta a uma provocação de
Janja, que o chamou de “piá de bosta” durante um evento de campanha, “nunca
subestime um piá”.
Essa renovação revela outra consequência do resultado eleitoral. Enquanto
Lula não tem um sucessor porque nunca estimulou o crescimento de quem pudesse
lhe fazer sombra, Jair Bolsonaro deixou uma série de herdeiros políticos. A
segunda geração do movimento que se formou em torno do ex-presidente chega
fortalecida ao Congresso e aos governos estaduais, enquanto novos
protagonistas ganham espaço. Yasmin Alencar retrata a força nas urnas
do sobrenome Bolsonaro, que ajudou a eleger seis candidatos — quatro deles
familiares do ex-presidente.
Não é por acaso que Lula venceu no 1º turno em alguns dos Estados mais pobres
do Brasil. A reportagem de Uiliam Grizafis examina a relação entre a
dependência de programas sociais e o desempenho eleitoral do PT. Em Bonfim do
Piauí, onde Lula recebeu 88% dos votos, mais da metade da população depende
do Bolsa Família. Em Alagoas e no Piauí, primeiro e segundo colocados no ranking
nacional de analfabetismo, o petista venceu com 54% e 70% dos votos,
respectivamente. Números semelhantes se repetem em localidades marcadas pela
violência, pela pobreza e pelo baixo IDH. A reportagem questiona a quem
interessa a perpetuação dessa dependência do Estado.
Apesar da dependência estatal, Lula perdeu força no Nordeste, como mostra a
reportagem de Anderson Scardoelli. No Maranhão, por exemplo, aliados
do ministro Flávio Dino sofreram derrotas em série. E, pela primeira vez em
mais de 70 anos, a família Sarney não terá nenhum representante com mandato.
Embora tenha perdido no Nordeste, Flávio Bolsonaro conquistou 10,4 milhões de
votos no 1º turno, superando em 1,3 milhão a votação de seu pai na disputa de
2022 — um crescimento de aproximadamente 14%.
Já Estados economicamente mais fortes, como Santa Catarina (uma das menores
taxas de desemprego do país), Mato Grosso (maior produtor de soja do Brasil)
e São Paulo (responsável por cerca de um terço do PIB nacional), votaram
majoritariamente em Flávio. No segundo turno, mais do que escolher um
presidente, o eleitor decidirá em qual desses dois Brasis deseja transformar
o país.
Boa leitura.
Branca Nunes
Diretora de Redação |
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-