domingo, 15 de fevereiro de 2026

[As danações de Carina] Os gritos das ‘Três Graças’, ou de quando o silêncio incurável se torna remédio para saudar a vida em sua melhor forma de expressão

Carina Bratt

HÁ CERTOS TIPOS de dores que não se curam, nem se apaziguam. Apenas se acomodam, ou fingem se ajustar. O trauma, por exemplo, é uma dessas feridas invisíveis que, ao contrário das cicatrizes na pele, não se fecha com o tempo. Ele se instala como hóspede indesejado, rearranja os móveis da memória e insiste em acender a luz quando a casa já deveria estar no escuro e em paz.

Marlucia aprendeu isso cedo. Não havia remédio que apagasse o estampido da noite em que perdeu o marido. O cara simplesmente foi embora e deixou a sua família, ou seja, abandonou a Marlucia, a Amanda e a Luana. Não havia abraço que desfizesse o nó que se formava em sua garganta sempre que o silêncio se tornava profundo demais. O trauma não era uma lembrança, era uma presença: caminhava com ela, sentava ao seu lado, dormia em sua cama. E falava do vazio...

O mundo, com sua pressa, dizia que era preciso seguir em frente. Mas como seguir quando o chão se parte em cada passo? Marlucia descobriu que o incurável não é sinônimo de fim, mas de convivência. O trauma não desaparece; a gente aprende a viver com ele, como quem carrega uma sombra que nunca se desprende.

Paradoxalmente, foi nessa convivência que ela encontrou uma forma de resistência. O trauma a lembrava da fragilidade da vida, mas também da força que brota quando se insiste em continuar. Não havia cura, mas havia caminho. Não havia esquecimento, mas havia sobrevivência.

Assim, Marlucia passou a escrever cartas de amor que nunca enviava. Em cada palavra, depositava o peso daquilo que não podia ser dito em voz alta. Era à sua maneira de transformar o incurável em linguagem, de dar forma ao silêncio que tomava conta do seu ‘eu interior’.

O trauma, afinal, não se cura. Mas pode ser narrado. E, ao ser narrado, deixa de ser apenas dor: se torna memória, se torna história, se torna parte de quem insiste em existir apesar dele. Há dores que não cicatrizam. São como rios subterrâneos: invisíveis à superfície, mas sempre correndo, erodindo. O trauma incurável é esse rio que insiste em atravessar a alma, mesmo quando a vida parece seguir em frente.

Sua filha Amanda descobriu isso numa noite qualquer, ao ouvir um estalo de porta que lembrava o da madrugada em que tudo se partiu. O corpo reagiu antes da mente: suor frio, coração disparado, a sensação de estar de volta ao abismo. Não era lembrança, era presença. O trauma não pede licença; ele invade, ocupa, e se instala como sombra permanente.

Mas há também uma estranha poesia nesse convívio. O incurável não é apenas dor: é memória viva, é testemunho de que algo foi tão intenso que deixou marcas impossíveis de apagar. Amanda aprendeu a caminhar com essa sombra, como quem carrega uma cicatriz aberta feia, dolorida, mas prova insofismável de sobrevivência.

O realismo cru está no corpo que treme, no olhar que se perde, na insônia que não se explica. Mas o lirismo nasce quando, ao amanhecer, Amanda escreve versos que transformam o peso em canto, ainda que desafinado.

E talvez seja isso o destino do incurável: não desaparecer, mas se transfigurar. Ser dor e ser arte. Ser silêncio e ser grito. Ser sombra a coragem de quem insiste em existir apesar de tudo.

Há dores que não se apagam, apenas mudam de lugar dentro da gente. O trauma incurável é como um espelho quebrado: mesmo recolhendo os cacos, cada fragmento ainda reflete o instante da queda. E nesses cacos, Amanda via seu pai, sentia a sua presença, mas de repente, ela sumia em pleno ar. E ficava só a sua voz ecoando: minha ‘Barriguinha, minha Barriguinha...’

Luana sabia disso. O corpo dela carregava sinais invisíveis, o coração acelerado diante de um cheiro, o arrepio súbito ao ouvir uma voz parecida com a que um dia lhe trouxe medo. O realismo estava ali, cru, na pele que suava sem motivo aparente, nos olhos que evitavam certas ruas. Mas havia também o lirismo: a forma como ela transformava o peso em poesia, escrevendo versos que eram quase orações, quase pedidos de perdão ao tempo.

O incurável não é apenas dor: é lembrança viva, é testemunho de que algo foi tão intenso que deixou marcas impossíveis de apagar. Luana também aprendeu a caminhar com essa sombra, a viver sem o pai, sem seu carinho, sem seus afagos, como quem carrega uma cicatriz aberta, feia, dolorida, mas prova de sobrevivência.

E nesse equilíbrio entre o visceral e o poético, ela descobriu uma verdade: o trauma não se cura, mas pode ser narrado. Ao ser narrado, deixa de ser apenas ferida e se torna história. E história, por mais dura que seja, é também resistência.

Assim, Luana seguiu. Não inteira, mas possível. Não curada, mas viva. E talvez seja isso o que importa: existir apesar da sombra, e transformar o incurável em palavra, em memória, em canto.

Há dores que se escondem em frestas, como poeira que insiste em voltar mesmo depois da faxina. O trauma incurável é essa poeira: invisível, mas sempre presente, sempre lembrando que a casa nunca estará totalmente limpa. Sempre faltará a imagem do pai que se foi embora viver com outra família...

Marlucia, mesmo modo, carregava esse pó dentro de si. Às vezes, bastava um cheiro, um som, um olhar atravessado para que tudo voltasse. E via o marido. O corpo tremia, o coração disparava, e a vida se tornava um campo minado.

O realismo estava ali, cru, nos sintomas que não se explicavam. Mas havia também o lirismo: Marlucia escrevia cartas para o vento, como quem confessa segredos a um cúmplice invisível.

O incurável não se cura, mas se transforma. E Marlucia descobriu que podia moldar a sua dor em palavras, em gestos, em pequenos atos de resistência. O trauma era sombra, mas também chama, ou seja, queimava, mas igualmente iluminava.

E foi numa noite silenciosa que Marlucia, Amanda e Luana entenderam: o trauma não sinalizava o fim, na verdade, indicava o direcionamento para um início ou uma outra forma de existir. Ao mesmo tempo, cada uma em seu quadrado, se levantou. Abriram as janelas e gritaram. Não gritos de desespero, mas da mais pura libertação. O som de Marlucia, de Amanda e de Luana atravessou a rua, acordou vizinhos, assustou pássaros. E, por um instante, o mundo das três parou.

Explosivos esses gritos?  Sim! Mas não de dor, de vida. Marlucia se curou, Amanda se reinventou. Teve um filho, João Eduardo. Hoje Amanda viaja engajada como aeromoça numa empresa aérea. Luana ficou no mesmo lugar. Deu vida ao Heitor.

Voltou a sorrir de modo grandioso e envolvente. Todos os vizinhos que ouviram aqueles gritos ficaram de bocas abertas, não pelo trauma, mas pela força de quem ousa transformar a própria sombra em claridade. E a claridade em vitórias para o enfrentamento de dias melhores.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 15-2-2026

Anteriores:
A tarde eterna dos que se esqueceram que precisavam partir 
Onde foram parar os bons tempos de ontem que não voltam mais? 
Essa droga chamada Carnaval 
Inexplicável 
[Livros & Leituras] Comédias da vida na privada 
[As danações de Carina] O bom de ser velho quando chegar nosso tempo de velhice

Um comentário:

  1. Carina, você é dez. Aliás, você é mil. Parabéns pelo texto.
    Taatiana Gomes Neves. Viva, viva estou no Rio de Janeiro. Uauuuuuuuuuu...

    ResponderExcluir

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-