Aparecido Raimundo de Souza
“É maravilhoso passar por um momento de medo tétrico, notadamente depois que ele se vai e fica, em seu lugar, a mais completa e envolvente paz de espírito”.Tompson de Panasco, pensador de rua, Praça da Sé, São Paulo, Capital
ELE CHEGA sorrateiramente. Sempre
devagar, quase sem barulho. É na hora em que a luz se apaga, que o silêncio da
casa aumenta, que o corpo pede um pouco de paz e a mente meio cansada, ou
melhor, para lá de estafada, insiste em ficar acordada. É nessa hora que
aparece o meu medo do amanhã. Justamente o receio do amanhã. Não sei explicar
os motivos. Não é um sobressalto grande, gritante, sufocativo de monstros ou
abarrotado de catástrofes anunciadas. É uma onda pequena, fina, persistente,
que se instala no meu peito como uma sombra leve, mas ao mesmo tempo
intransigente que não sai de jeito nenhum. É um sobressalto inesperado,
acredito, do que eu não sei, do que não posso controlar. Obviamente um
espavento de tudo o que ainda não aconteceu e que, no entanto, dói dentro de
mim como se fosse algo real.
Tenho uma pusilanimidade acovardada,
por exemplo, de que o amanhã traga dores que eu ainda não aprendi a suportar.
Um destoado tremelique de perder as pessoas que moram no meu coração, de ver
quem amo sofrer sem que eu possa fazer nada, de ouvir notícias que mudem tudo
de uma hora para outra. Sinto uma asfixia meio que pesada de não dar conta: dos
pagamentos mensais, das obrigações, das expectativas, do cansaço que já sinto
hoje (aos setenta e três) e que parece que tudo em derredor vai crescer ainda
mais quando o sol nascer outra vez. Tenho ojeriza de que os meus sonhos
continuem só sonhos, de que o tempo passe mais rápido do que a minha capacidade
de realizar, de chegar ao fim de mais um dia e sentir que mais uma vez eu
fiquei devendo a mim mesmo alguma coisa que deixei de fazer.
Tenho medo de igual forma de mudanças que eu não pedi, de caminhos que se fecharam sem aviso, assombro de ficar sozinho mesmo no meio de gente. Me invade um cagaço de errar de novo, de não ser suficiente forte, de ver a vida seguir seu curso e eu ali, aqui ou acolá, parado, estático, os olhos chorosos, embaçados, só olhando o meu tempo se esvair. Muitas vezes eu finjo que ele, o meu espavento não existe no meu dia a dia. Levanto cedo, tomo meu banho, faço meu café, cumpro a rotina, sorrio, converso comigo mesmo num diálogo onde ninguém me responde, sequer viva alma me retruca, e por algumas horas esse entrave se esconda atrás dos movimentos do dia. Mas logo ele volta. Na hora da pausa, no olhar vazio para a varanda do apartamento, às vezes na janela do quarto, na respiração mais funda que eu preciso fazer de vez em quando para jurar a mim mesmo que estou vivo.
E nesses momentos eu questiono: será
que só eu sinto isso? Será que todo mundo também carrega esse receio quieto,
mas ninguém comenta, como se ter sobressaltos do futuro fosse uma vergonha, uma
espécie de atimia que não podemos admitir? Depois, aos poucos, vou entendendo
uma coisa: essa prostração não é um defeito meu. Ela existe exatamente porque
eu amo. Porque eu amo a vida, amo as pessoas que não estão comigo, amo minhas
filhas que deixaram de falar comigo, amo os netos que igualmente sumiram, amo
os pequenos prazeres de cada dia, os que vivi no ontem e desejo ardentemente
que tudo dê certo, que tudo fique bem, inclusive a incerteza do que vem daqui a
pouco, ou mais à noite, ou que, por algum motivo, tudo acabe doendo de maneira
insuportável. Ter pânico-fobia do amanhã alguém já me disse, não é sinal de que
sou fraco.
É a convicção maviosa de que estou
vivo, de que me importo, de que o coração em mim ainda bate forte e quer
continuar bombando a vida plena, com tudo o que isso significa. E eu também
lembro: já tive tantos amanhãs antes, porvindouros esquisitos que eu temi mais
do que tudo. Já passei noites em claro imaginando o pior, e quando o dia
chegou, ele não foi nem tão bom quanto eu queria, mas também não se fez tão
terrivelmente quanto a minha mente inventara. De algum modo, eu fui passando.
De algum modo, eu fui aprendendo, me adaptando, encontrando forças que nem
sabia que tinha. O porvir, afinal, nunca chega inteiro, ou de uma vez só. Ele
se aproxima sempre coerente, tipo um minuto de cada vez, um passo de cada vez,
um respiro de cada vez. E para cada milésimo de minuto, para cada passo, para
cada respiro, sempre acabo tendo o que preciso, mesmo que na hora agá eu não
acredite.
Não vou dizer que hoje já não tenha uma
mala repletada de desmazelamentos infiltrados no meu DNA. Tenho, e acho que
sempre ajuntarei um pouco a cada novo dia. Mas hoje, ou melhor, agora, eu sei
que ele não precisa ser o dono dos meus dias. A minha poltronaria pode vir
comigo, pode sentar ali do meu lado, seja no sofá velho da sala, ou na minha
cama. Pode até fazer um barulho espalhafatoso de vez em quando, no raio que o
parta, mas quem segura o volante da minha vida sou eu, embora não seja um
carro. Eu não preciso dominar todo o amanhã de uma só vez, disso tenho plena
consciência. Todavia, preciso cuidar do hoje, necessito do agora. Tenho pressa
do já deste momento que é o único que realmente me abraça. E isso, mesmo
pequeno, já é muita coragem, percebo uma companheira absoluta. O amanhã virá,
chegará, aportará como uma canoa, como a noite, e também como o novo dia,
trazendo tudo o que tiver que vir. E quando ele chegar, eu certamente estarei
aqui: esperarei com os meus tiques nervosos, sim, mas também com todo o amor,
com toda a história e toda a força pujante com a qual eu fui me construindo.
Por enquanto, até aqui, graças ao Pai Maior, tudo isto basta. Me contento por
inteiro para continuar vivo e seguindo de cabeça erguida, sempre em frente.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 30-6-2026
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