Eça de Queiroz
Pode alguém estranhar que As
Farpas não contenham nunca uma página dada ao romance, à imaginação. Pois
bem – aqui está um conto, com paisagem, passado à beira-mar.
Era há dias, ao fim da tarde,
na Foz. O céu, no alto, tinha a brancura de uma porcelana: já a decoração
inflamada do poente se apagava, e grandes tons dourados desbotavam numa tinta
roxa. O mar, de um azul duro, estava riscado de espumas. Entre as rochas, na
praia, a maresia era violenta; e na linha da barra sucediam-se, uma após outra,
largas ondas monótonas.
Vinha a entrar uma lancha à
vela. As ondas tomavam a pequena embarcação pela popa; ela fugia à bolina,
rijamente impelida. Uma vaga maior sacode-a furiosamente. Pescadores, mulheres,
no largo, ao pé do Castelo, rompem a gritar. Há ali perto uma barraca de
saltimbancos. Dois palhaços, já vestidos, caiados, com guizos, vieram olhar,
pasmados.
A lancha corria. Ergue-se
sobre ela outro mar mais forte. “Está livre!, não está livre! Santo Deus!
Jesus!” A onda, quebrando, apanhou-a pela popa, ergueu-a, balançou-a, e por
momento viu-se apenas, na espuma, a vela oscilar, com a lenta palpitação da asa
de um pássaro que morre.
Nas praias mulheres gritavam,
de bruços sobre o chão. Os palhaços empalideciam sob o alvaiade. A sombra da
noite caía.
A lancha tinha escapado. Correram todos ao cais, vê-la atracar. Vinha cheia de água, com a vela molhada até meia altura, os remos partidos. O patrão, um velho baixo, seco, de cabeça branca sob um barrete de pele de lontra, atirava para fora a corda da rede. Tinham trazido dez ou doze pescadas!
Cada pescada podia valer seis
vinténs! E tinha estado perdida, a lancha! E era ao anoitecer, longe de
socorro, na água impiedosa!
Ora, sabem qual é o imposto
que sobre este duro trabalho lança o fisco? Quarenta réis por pescada! Não é o
antigo dízimo absolutista – é o terço liberal! E assim acaba o
romance!
Texto: Eça de Queiroz, in
“Uma campanha alegre”, páginas 118 e 119; Digitação: JP, 15-7-2026 
Barco desaparecido é uma pintura a óleo sobre tela de 1890, do artista português Souza Pinto (1856-1939) ligado à primeira geração do Naturalismo e que está atualmente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa. Wikipédia
Uma campanha alegre
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