Gazeta do Povo
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| Imagem: ChatGPT sobre foto de Antonio Augusto/STF |
Alexandre de Moraes está nas cordas desde o início da
semana passada, quando seu colega André Mendonça levantou o sigilo de um relatório
da Polícia Federal com mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro direcionadas a Moraes, evidenciando um
relacionamento de extrema proximidade e confiança – “promiscuidade” não é
exagero – entre magistrado e investigado. Sem ter como questionar os fatos, os
aliados de Moraes no STF,
na política e na imprensa partiram para uma outra estratégia, vil e rasteira: a
de estabelecer uma falsa equivalência moral entre Moraes e Mendonça, para
tentar abafar o escândalo.
O mote usado para levar adiante a
trapaça é dizer que “Moraes errou, mas Mendonça errou também” – uma afirmação
que exige duplo escrutínio. Em primeiro lugar, que “erros” seriam esses? O
procurador-geral da República, Paulo Gonet – também ele mencionado nas
conversas de forma nada positiva, aliás –, diz ter encontrado um desses “erros” no procedimento usado
por Mendonça, mas seu argumento já foi devidamente (e facilmente) refutado. Outro desses “erros” seria o momento escolhido
por Mendonça para retirar o sigilo sobre o relatório, já que estamos em meio a
uma campanha eleitoral – como se investigações e processos tivessem de se
submeter ao calendário político.
Sem ter como questionar os fatos, os
aliados de Moraes partiram para uma outra estratégia, vil e rasteira: a de
estabelecer uma falsa equivalência moral entre Moraes e Mendonça
Erros, portanto, não houve. Mas admitamos, por um segundo que seja, e apenas para fins retóricos, que eles tivessem existido. Por acaso seriam igualmente graves? De um lado, um ministro que “atropelou o rito” (e, repetimos, o afirmamos apenas por amor ao debate, pois não foi o que ocorreu); de outro, um ministro que atua como conselheiro informal de banqueiro investigado, que envia mensagens autodestrutíveis (um tipo de ocultação que esse ministro já usou para condenar uma pessoa, afirmando que isso indica a consciência da ilegalidade), que tem a esposa contratada a peso de ouro por esse mesmo banqueiro (por meio de um contrato editado por esse ministro), que é visto pelo investigado como alguém com poder para frear investigações, e que contra-ataca juridicamente usando um relatório apócrifo e sem valor legal algum.
Apenas pessoas muito comprometidas
ideologicamente, ou umbilicalmente ligadas a Moraes, ou que também estejam no
bolso de Vorcaro e queiram acabar com toda a investigação poderiam afirmar que
existe um “zero a zero” moral entre essas duas situações. Pelo contrário,
qualquer indivíduo cuja bússola moral esteja funcionando, mesmo que
precariamente, e que tenha independência intelectual haverá de reconhecer que
um caso é infinitamente mais grave que outro (que, reiteramos, não envolve
irregularidade alguma), e que seria um enorme insulto ao povo brasileiro
tratá-los como minimamente semelhantes e merecedores das mesmas providências.
Entre os defensores da falsa
equivalência moral destaca-se uma figura cuja covardia e pusilanimidade já está
gravada na história do Senado
Federal: o atual presidente da casa, Davi Alcolumbre. Mesmo antes do terremoto da semana
passada, os crimes de responsabilidade cometidos por Moraes já eram volumosos o
suficiente para justificar seu impeachment,
mas Alcolumbre sempre blindou o ministro. Agora, o senador (indiretamente
implicado no escândalo do Master devido à atuação de um indicado seu à frente
da previdência dos servidores do Amapá) admite a possibilidade de um
“impeachment cruzado”, afirmando que, se não houver mais clima para proteger
Moraes, ele também autorizará a abertura de um processo contra Mendonça. Por
quais crimes de responsabilidade? Ninguém sabe, e nem teria como saber, já que
eles não existem. Tudo, claro, para baixar a temperatura no Senado. O objetivo
é evidente, e a torpeza o é ainda mais.
E, ainda que o presidente do
STF, Edson Fachin, esteja muito longe de compartilhar das mesmas
motivações de um covarde como Alcolumbre, infelizmente o encaminhamento que ele
tem dado à controvérsia dentro da corte dá força aos defensores da equivalência
moral. Fachin ordenou o mesmo trâmite, com prazo para explicações, no
caso das mensagens de Vorcaro a Moraes, e ao pedido de investigação feito por
Moraes contra Mendonça. O primeiro foi embasado em um relatório oficial, que
levou o relator Mendonça a decidir pelo procedimento correto quando surgiu ali
o nome de uma autoridade com foro privilegiado; o segundo não passa de uma
vingança irracional, baseada em um relatório apócrifo, repleto de ilações – incluindo a de uma suposta
camaradagem entre Mendonça e o advogado-geral Jorge Messias, pelo fato de ambos
serem evangélicos – e feito em circunstâncias tão estranhas que justificaram
o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues,
por ordem de Mendonça.
Fachin acertou ao negar que o pedido
de Moraes fosse incluído no abusivo inquérito das fake news, mas
isso não basta. É essencial suspender qualquer questionamento sobre a conduta
de Mendonça, rejeitando de vez um pedido sem fundamento, inepto, que seria
descartado por qualquer juiz decente. Ao dar prazo para que a PGR se manifeste
sobre a eventual admissibilidade e regularidade de um pedido de investigação
contra Mendonça, Fachin legitimou o que não pode ser legitimado, quando o
momento pede o fim dessa pseudoinvestigação para que o STF coloque todas as
energias onde elas de fato devem estar: na análise da solução adequada para o
caso de Alexandre de Moraes.
O Brasil decente, o que deseja um Supremo que volte a ter o devido respeito, precisa estar atento a essas manobras e resistir a elas de todas as formas possíveis – da tribuna do Senado às ruas (e às urnas). Não existe equivalência moral possível entre Moraes e Mendonça; ainda que este último tivesse cometido algum erro processual (o que tratamos como mera hipótese argumentativa, repita-se), ele jamais teria a mesma gravidade de tudo o que já sabemos sobre as relações entre Moraes e Vorcaro. A estratégia de apontar “erros” de Mendonça, como lembramos no começo, é o último recurso de quem permanece ao lado de Moraes e não tem como negar a realidade. O futuro da República depende de a sociedade brasileira não deixar esse truque prosperar.
Título e Texto: Editorial, Gazeta
do Povo, 8-9-2026, 17h39
Os supremos intocáveis declaram guerra a Mendonça (editorial de 4 de setembro de 2026)
A hora dos ministros dignos no STF (editorial de 3 de setembro de 2026)
Moraes precisa deixar o STF – ou, melhor ainda, ser retirado dele (editorial de 1.º de setembro de 2026)
8-9-2026: Oeste sem filtro – Mendonça freia PF lulista e afasta diretor; Gilmar tenta intervir + E Lula recebe Jorge Messias e ministro da Justiça para reunião de emergência
Segunda Turma adianta votos após vista de Gilmar Mendes e mantém afastamento de Andrei Rodrigues
A foto da risada no Supremo mostra que a pizza começou em 2019
A imprensa que promove a extrema-direita
8-9-2026: Oeste sem filtro – Flávio Bolsonaro reúne apoiadores e aliados em Ato na Avenida Paulista + Povo vai às ruas no 7 de setembro pedir “Fora Moraes” + Degradação moral no Brasil não é acaso, foi construída

Jornalistas continuam a tratar a indecência escandalosa no STF como se fosse uma disputa política entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Não é. Trata-se de um confronto entre o crime e a lei.
ResponderExcluirAos que resolveram escrever manifestos e notas de repúdio de forma genérica, um conselho: citem o protagonista da crise pelo nome (Alexandre de Moraes) ou teremos o STF arrumando um bode expiatório (André Mendonça).
ResponderExcluirSem isso, fica parecendo que vcs estão tentando simular indignação para se afastar de uma crise da qual também são responsáveis indiretos.
Já identifiquei vários nomes que assinaram a cartinha da democracia de 2022, inclusive. Estamos de olho.
Compare Gilmar com Gilmar. Em 2021, Gilmar criticava duramente a possibilidade do relator de julgamento iniciado pela Turma levar o processo para o Pleno.
ResponderExcluirAgora, pede que o processo já iniciado na Turma vá a fórceps para o Pleno.
Moral da história: não se trata de normas jurídicas, mas de interesses de momento. Não se trata de convicção sobre o Direito, mas de casuísmo.
Quase todo político de esquerda hoje está por aí dizendo que luta para proteger a investigação do Banco Master, quando na verdade todos estão fazendo o oposto. De longe, as revelações mais graves são sobre o que Moraes fez, mas são justamente eles que estão tentando blindá-lo, e já vêm fazendo isso há semanas.
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