sábado, 12 de setembro de 2026

As origens do wokismo: António Gramsci - o intelectual que percebeu que o poder começa pela cultura

Francisco Henriques da Silva

António Gramsci foi provavelmente um dos pensadores marxistas que melhor entendeu uma dificuldade fundamental da revolução no Ocidente. Por que as sociedades capitalistas não colapsavam apesar de suas contradições económicas e sociais?

A resposta de Gramsci era diferente do marxismo mais ortodoxo. O poder não se mantinha só pela força do Estado ou pelo controle dos meios de produção. Mantinha-se também, e talvez até mais, por meio da cultura, das ideias, dos valores e do senso comum.

É essa maneira de pensar de Gramsci que explica, em larga medida, a grande influência que ele teria muito tempo depois de morrer. 

1. A hegemonia cultural

Para Gramsci, uma classe dominante não governa só porque tem a polícia, o Exército ou as instituições do Estado. Ela governa também porque faz com que sua visão de mundo seja considerada normal, natural e legítima.

A essa concepção chama-se hegemonia cultural.

Quando certos valores, instituições e relações sociais deixam de ser vistos como criações históricas e passam a ser considerados apenas como “o que existe”, a dominação torna-se muito mais forte. A pessoa não precisa ser forçada a obedecer. Ela própria aceita internamente as ideias pelas quais entende a realidade.

Por isso, Gramsci atribui tanta importância à cultura. Antes de mudar a sociedade politicamente, seria preciso mudar as ideias pelas quais essa sociedade se entende. 

2. Da conquista do Estado à transformação da sociedade

Talvez esta seja a principal novidade de Gramsci em termos de estratégia.

Nas sociedades ocidentais, com instituições políticas relativamente consolidadas, uma revolução frontal semelhante à russa seria muito mais difícil. Existia uma sociedade civil forte. Igrejas, escolas, universidades, imprensa, associações, sindicatos, partidos e outras instituições intermédias atuavam como uma espécie de baluarte de defesa cultural da ordem vigente.

Por isso, a mudança precisaria de ser mais demorada e intensa.

Nesse contexto, surge a ideia muitas vezes ligada à “guerra de posições”. Em vez de buscar uma ruptura revolucionária imediata, seria preciso conquistar aos poucos posições na sociedade civil e disputar a definição do senso comum.

A expressão posterior “longa marcha pelas instituições” tornou-se uma forma de descrever essa estratégia, embora Gramsci não tenha cunhado esse termo. 

3. A luta pela educação

A escola tem aqui uma importância muito grande.

Quem educa uma geração não decide exatamente no que ela vai acreditar. No entanto, pode influenciar muito as perguntas que essa geração considera importantes, os conceitos que usa e os valores com que entende a sociedade.

Por isso, a disputa cultural acontece, sem dúvida, no ensino, na universidade, na produção intelectual e na escolha dos currículos.

A questão essencial deixa de ser apenas:

Quem controla o Estado?

e passa a ser:

Quem prepara as pessoas que amanhã vão trabalhar nas instituições do Estado?

É uma mudança importante na estratégia. 

4. O intelectual orgânico

Outro conceito central é o do “intelectual orgânico”.

Para Gramsci, todas as classes sociais criam intelectuais capazes de organizar, explicar e difundir sua visão de mundo. O intelectual não é, por isso, só um académico isolado numa universidade. Pode ser jornalista, professor, escritor, artista, dirigente sindical, comunicador ou qualquer outra pessoa capaz de influenciar o senso comum.

É justamente por meio desses intelectuais que uma certa visão política pode deixar de ser vista como uma ideologia clara. Ela passa a ser cultura, linguagem e senso comum.

É aqui que a análise de Gramsci fica ainda mais relevante. O poder cultural pode durar mais do que o poder eleitoral.

Um partido pode perder eleições. Mesmo assim, pode continuar a influenciar muito a sociedade por causa das ideias que predominam nas universidades, nos meios culturais, nos meios de comunicação ou nas instituições. 

5. O paradoxo de Gramsci

Ainda assim, subsiste uma incrível ironia histórica.

Gramsci passou os últimos anos da sua vida preso pelo fascismo italiano. Mussolini queria impedir um dos principais líderes intelectuais do Partido Comunista Italiano.

Mas a prisão acabou por dar a Gramsci as condições para escrever a sua obra mais importante. Foram os Cadernos do Cárcere.

Neles, pensou sobre cultura, Estado, sociedade civil, hegemonia, intelectuais e estratégia política. Essas ideias foram muito além do contexto italiano.

Morreu em 1937, sem ver a grande influência que suas ideias teriam depois. 

6. O legado depois de 1968

Gramsci começa a ganhar mais influência fora do marxismo tradicional, principalmente a partir da década de 1960.

A nova esquerda ocidental percebeu que a transformação social não precisava necessariamente passar pela tomada revolucionária do poder. As batalhas culturais, académicas, linguísticas e sociais podiam ter um papel igualmente importante.

Maio de 1968 tornou-se um símbolo dessa mudança.

Mas é importante evitar a simplificação. Nem tudo o que aconteceu depois de 1968 foi obra de Gramsci. Também não existe uma cadeia organizada e contínua que ligue Gramsci a todas as transformações culturais contemporâneas. O pensamento gramsciano foi só uma das várias correntes intelectuais que influenciaram a esquerda ocidental, junto com a Escola de Frankfurt, o estruturalismo, o pós-estruturalismo e outras.

Ainda assim, a pergunta fundamental de Gramsci permaneceu extremamente influente:

Como mudar uma sociedade começando pela mudança da sua cultura? 

7. Por que razão Gramsci ainda é relevante

É aqui que precisamos de discutir o legado gramsciano no século XXI.

As guerras culturais de hoje mostram que muitas das grandes disputas políticas já não se limitam a impostos, salários ou propriedade. Elas também ocorrem em torno da linguagem, da educação, da identidade, da memória histórica, dos costumes, da representação cultural e da definição do que a sociedade considera aceitável.

Quem escolhe as palavras direciona a discussão.

Quem decide o currículo influencia as novas gerações.

Quem decide o que pode ou não ser dito controla o espaço público.

Quem consegue transformar uma certa visão política em senso comum ganha um tipo de hegemonia muito forte.

Por isso, Gramsci continua relevante não apenas para a esquerda, mas também para quem quer entender, ou contestar, a transformação cultural do Ocidente. 

Conclusão

A verdadeira importância de Gramsci não está em ter criado um simples “manual para conquistar as instituições”. Essa ideia seria simples demais.

A sua contribuição mais importante foi perceber que o poder político não existe isoladamente no vácuo. Ele depende de uma base cultural que define o que uma sociedade considera verdadeiro, normal, legítimo ou possível.

A grande batalha política, por isso, não começa sempre no Parlamento. Pode começar na escola, na universidade, na linguagem, na imprensa, na literatura, na arte e até no próprio senso comum.

É esta intuição que tornou Gramsci tão influente.

E é também por isso que, quase noventa anos depois da sua morte, continuamos a discutir a sua ideia de hegemonia cultural.

Título e Texto: Francisco Henriques da Silva, ContraCultura, 12-9-2026 

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