Francisco Henriques da Silva
António Gramsci foi provavelmente um dos pensadores marxistas que melhor entendeu uma dificuldade fundamental da revolução no Ocidente. Por que as sociedades capitalistas não colapsavam apesar de suas contradições económicas e sociais?
A resposta de Gramsci era
diferente do marxismo mais ortodoxo. O poder não se mantinha só pela força do
Estado ou pelo controle dos meios de produção. Mantinha-se também, e talvez até
mais, por meio da cultura, das ideias, dos valores e do senso comum.
É essa maneira de pensar de
Gramsci que explica, em larga medida, a grande influência que ele teria muito
tempo depois de morrer.
1. A hegemonia
cultural
Para Gramsci, uma classe
dominante não governa só porque tem a polícia, o Exército ou as instituições do
Estado. Ela governa também porque faz com que sua visão de mundo seja
considerada normal, natural e legítima.
A essa concepção
chama-se hegemonia cultural.
Quando certos valores,
instituições e relações sociais deixam de ser vistos como criações históricas e
passam a ser considerados apenas como “o que existe”, a dominação torna-se
muito mais forte. A pessoa não precisa ser forçada a obedecer. Ela própria aceita
internamente as ideias pelas quais entende a realidade.
Por isso, Gramsci atribui
tanta importância à cultura. Antes de mudar a sociedade politicamente, seria
preciso mudar as ideias pelas quais essa sociedade se entende.
2. Da conquista do
Estado à transformação da sociedade
Talvez esta seja a principal novidade de Gramsci em termos de estratégia.
Nas sociedades ocidentais, com
instituições políticas relativamente consolidadas, uma revolução frontal
semelhante à russa seria muito mais difícil. Existia uma sociedade civil forte.
Igrejas, escolas, universidades, imprensa, associações, sindicatos, partidos e
outras instituições intermédias atuavam como uma espécie de baluarte de defesa
cultural da ordem vigente.
Por isso, a mudança precisaria
de ser mais demorada e intensa.
Nesse contexto, surge a ideia
muitas vezes ligada à “guerra de posições”. Em vez de buscar uma
ruptura revolucionária imediata, seria preciso conquistar aos poucos posições
na sociedade civil e disputar a definição do senso comum.
A expressão posterior “longa
marcha pelas instituições” tornou-se uma forma de descrever essa
estratégia, embora Gramsci não tenha cunhado esse termo.
3. A luta pela
educação
A escola tem aqui uma
importância muito grande.
Quem educa uma geração não
decide exatamente no que ela vai acreditar. No entanto, pode influenciar muito
as perguntas que essa geração considera importantes, os conceitos que usa e
os valores com que entende a sociedade.
Por isso, a disputa cultural
acontece, sem dúvida, no ensino, na universidade, na produção intelectual e na
escolha dos currículos.
A questão essencial deixa de
ser apenas:
Quem controla o Estado?
e passa a ser:
Quem prepara as pessoas
que amanhã vão trabalhar nas instituições do Estado?
É uma mudança importante na
estratégia.
4. O intelectual
orgânico
Outro conceito central é o do
“intelectual orgânico”.
Para Gramsci, todas as classes
sociais criam intelectuais capazes de organizar, explicar e difundir sua visão
de mundo. O intelectual não é, por isso, só um académico isolado numa
universidade. Pode ser jornalista, professor, escritor, artista, dirigente
sindical, comunicador ou qualquer outra pessoa capaz de influenciar o senso
comum.
É justamente por meio desses
intelectuais que uma certa visão política pode deixar de ser vista como uma
ideologia clara. Ela passa a ser cultura, linguagem e senso comum.
É aqui que a análise de
Gramsci fica ainda mais relevante. O poder cultural pode durar mais do
que o poder eleitoral.
Um
partido pode perder eleições. Mesmo assim, pode continuar a influenciar muito a
sociedade por causa das ideias que predominam nas universidades, nos meios
culturais, nos meios de comunicação ou nas instituições.
5. O paradoxo de
Gramsci
Ainda assim, subsiste uma
incrível ironia histórica.
Gramsci passou os últimos anos
da sua vida preso pelo fascismo italiano. Mussolini queria impedir um dos
principais líderes intelectuais do Partido Comunista Italiano.
Mas a prisão acabou por dar a
Gramsci as condições para escrever a sua obra mais importante. Foram os Cadernos
do Cárcere.
Neles, pensou sobre cultura,
Estado, sociedade civil, hegemonia, intelectuais e estratégia política. Essas
ideias foram muito além do contexto italiano.
Morreu em 1937, sem ver a
grande influência que suas ideias teriam depois.
6. O legado depois
de 1968
Gramsci começa a ganhar mais
influência fora do marxismo tradicional, principalmente a partir da década de
1960.
A nova esquerda ocidental
percebeu que a transformação social não precisava necessariamente passar pela
tomada revolucionária do poder. As batalhas culturais, académicas, linguísticas
e sociais podiam ter um papel igualmente importante.
Maio de 1968 tornou-se um
símbolo dessa mudança.
Mas é importante evitar a
simplificação. Nem tudo o que aconteceu depois de 1968 foi obra de Gramsci.
Também não existe uma cadeia organizada e contínua que ligue Gramsci a todas as
transformações culturais contemporâneas. O pensamento gramsciano foi só uma
das várias correntes intelectuais que influenciaram a esquerda ocidental, junto
com a Escola de Frankfurt, o estruturalismo, o pós-estruturalismo e outras.
Ainda assim, a pergunta
fundamental de Gramsci permaneceu extremamente influente:
Como mudar uma sociedade
começando pela mudança da sua cultura?
7. Por que razão
Gramsci ainda é relevante
É aqui que precisamos de
discutir o legado gramsciano no século XXI.
As guerras culturais de hoje
mostram que muitas das grandes disputas políticas já não se limitam a impostos,
salários ou propriedade. Elas também ocorrem em torno da linguagem, da
educação, da identidade, da memória histórica, dos costumes, da representação
cultural e da definição do que a sociedade considera aceitável.
Quem escolhe as palavras
direciona a discussão.
Quem decide o currículo
influencia as novas gerações.
Quem decide o que pode ou não
ser dito controla o espaço público.
Quem consegue transformar uma
certa visão política em senso comum ganha um tipo de hegemonia
muito forte.
Por isso, Gramsci continua
relevante não apenas para a esquerda, mas também para quem quer entender, ou
contestar, a transformação cultural do Ocidente.
Conclusão
A verdadeira importância de
Gramsci não está em ter criado um simples “manual para conquistar as
instituições”. Essa ideia seria simples demais.
A sua contribuição mais
importante foi perceber que o poder político não existe isoladamente no
vácuo. Ele depende de uma base cultural que define o que uma sociedade
considera verdadeiro, normal, legítimo ou possível.
A grande batalha política, por
isso, não começa sempre no Parlamento. Pode começar na escola, na
universidade, na linguagem, na imprensa, na literatura, na arte e até no
próprio senso comum.
É esta intuição que tornou
Gramsci tão influente.
E é também por isso que, quase
noventa anos depois da sua morte, continuamos a discutir a sua ideia de
hegemonia cultural.
Título e Texto: Francisco Henriques da Silva, ContraCultura, 12-9-2026

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