Aparecido Raimundo de Souza
A narrativa é dividida
em duas partes: a banda azul (onde Renato não havia adentrado ainda no abismo
das drogas) e a banda dois, ou a negra bem negra, bem escura, aquela totalmente
sem luz. Essa explanação joga na cara, sem dó nem piedade, uma caminhada exaustiva,
fria, quase sem volta.
Alardeia todas as
desgraças como um castigo enumerando as "esfregas" impostas pela dura
realidade que o vício maldito pode levar uma pessoa jovem e sem experiência a
um abismo que muitas vezes a pessoa não consegue sair. Entrar, é a coisa mais fácil,
como roubar balas de criança indefesa. Sair é que são elas.
“O Estudante”, é para
mim, como a experiência de olhar para o espelho e não encontrar o meu reflexo,
ou como ouvir uma música sem melodia, sem um acompanhamento adequado, ou visto
por outra ótica: varrer uma casa com uma vassoura voadora.
No pior dos mundos,
comer a bucetinha da minha vizinha (bucetinha carinhosamente conhecida como
xoxota), sem deixar rastros de esperma no lençol branquinho da minha cama
barulhenta.
E eu, Aparecido, setenta e dois anos nas costas, aos 19 de março fecharei 73. Em vista desse evento, acrescentaria o seguinte: O meu “eu, sem mim”, no final de tudo, apesar da enorme chuva de farra que eu viesse a fazer, restaria apenas o vazio, ou seja, sobraria um espaço minúsculo onde as palavras não encontrariam eco e os meus pensamentos mais turbulentos não teriam sentido nem origem.
Em paralelo, o meu
mundo de merda seguiria, indiferente, mas eu, apesar dessa frialdade letárgica
atrelada a indiferença, seria sem tirar nem pôr, uma ausência. Uma disjunção
fragmentada, uma angústia camuflada cheia de sombras difusas, tipo essas mazelas
que não se projetam, ou pior, “mais-mau-mal”, que se fecham trancafiadas num
silêncio pétreo que não dá margens à escoamentos.
Ao pensar no "eu,
sem mim", percebo que minha identidade não é apenas feita de ossos e
memória, mas também de tudo aquilo que me atravessa: os afetos, os encontros,
os sonhos e até os fracassos. Sem “mim”, não haveria narrativa, não haveria história.
Não haveria, porra
nenhuma. Eu seria um Renato qualquer desatrelado de um “Estudante” visto por
uma desconhecida, e jamais pela ótica criativa de uma vinhedense Adelaide,
todavia, sem a suntuosidade fascinante do Carraro.
Mas talvez o "eu,
sem mim", lado outro, seja também um convite: convite? Convite a quê? Ao
desapego do meu ego. Ao me desvencilhar dele, tenho em conta que nessa hora eu
me desapartaria, ou me veria longe do meu mundinho hipócrita e me faria parte
ativa de algo muito maior. Ou sei lá, pior.
Nesse sentido, não
vejo a coisa como perda. Seria, em contrário, a expansão. Como se eu deixasse
de ser o centro para ser o fluxo. Deixaria de ser nome para ser movimento.
Deixaria também de ser uma besta quadrada para ser um elefante furioso
procurando pela própria tromba perdida na hora da transa, dentro do cu do rabo
de uma elefoa, ou de uma majestosa e saborosa aliá*.
No fim, "eu, sem
mim" a coisa séria “seria”, tanto ausência, quanto possibilidade. Tipo
assim, o risco de não existir e a chance de viver de outra forma, menos preso
ao que sou, ou mais aberto ao que posso ser amanhã. Nessa confusão, pensar em "eu,
sem mim" se igualaria a como confrontar o limite da identidade com outra
identidade.
O "eu", é
aquilo que se reconhece, que se afirma. Ou que se nomeia por conta própria. O
"mim", é o corpo, a memória, o conjunto de experiências que sustentam
essa afirmação. Separar os dois, entendo, seria como tentar dividir ou separar,
a porca da ruela, o defunto do cadáver, o fogo da chama: impossível sem
extinguir o próprio fenômeno.
Sem “mim”, o meu “eu”,
seria apenas conceito, abstração pura, sem carne de primeira, (ainda que uma
boa picanha vinda de um dos bois do Mula), alguma coisa concreta que
verdadeiramente suportasse o tédio. Seria uma ideia suspensa, sem história, sem
narrativa.
O mundo poderia
continuar lá fora, mas não haveria consciência que o testemunhasse. O "eu,
sem mim" é, portanto, a ausência radical, o vazio de uma subjetividade que
não encontra lugar. Nem aqui, nem na puta que me pariu.
Mas olhando pelo lado
ainda não machucado, percebo que há também uma outra leitura: "eu, sem
mim" no pensar de Veríssimo, a coisa descamba como libertação. “O mim, é o
peso das lembranças, das expectativas, das máscaras sociais”.
Eu acrescentaria o
seguinte: o “eu, sem mim” e o “mim, sem eu|”, suportaria o acúmulo de tudo o
que me prende ao passado e ao olhar dos outros. Resumindo essa crônica sem
sentido, o “ser, sem mim” seria um ser autônomo, sem amarras. Se veria
dissolvido do fluxo da existência, se agigantaria sem fronteiras rígidas entre
sujeito e mundo.
Em sentido paralelo, o
“eu, sem mim” não seria apenas bagaço de perda, mas igualmente fortificação de
possibilidade. Mesmo tapa no focinho, a minha chance de existir como pura
presença, sem a necessidade de identidade fixa. Seria, ainda, o convite a pensar
o “ser” em “ser” para fluir além do ego, como parte objetiva de uma totalidade
maior.
Entre mortos e
feridos, cadáveres em decomposição, o paradoxo se revelaria: "eu, sem mim”
tanto poderia ser a impossibilidade de existir quanto a abertura para uma forma
de existência mais ampla.
Uma porta aberta,
escancarada para o limite entre o nada e o todo, ou entre o todo e o tudo, bem
ainda, a ausência morta e a plenitude magnânima de vida em abundância, se
revigorado altaneira em sua melhor forma de expressão.
Explicação
necessária*: Aliá, é a fêmea do elefante. Aliás, uma palavra que vem do
cingalês. Também é aceito na língua portuguesa, Elefanta ou Elefoa.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital, 3-2-2026
Nem o nosso ouro reluz como em tempos passados
Breves palavras sobre um fundo falso que às vezes nos escapa pelos esbugalhos dos ouvidos
Totalmente falsa como uma pedra de Nagamani (*)
Engraçadices do dia a dia quando não se tem nada melhor para escrever...
Os eternos intocáveis que abundam as bundas do poder
[Aparecido rasga o verbo] Sem saída, sem escape, literalmente de frente para o inferno. Aqui vamos nós...

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