sexta-feira, 24 de abril de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Todos ao meu redor estão indo...

Aparecido Raimundo de Souza

AS PESSOAS do meu convívio, do meu cotidiano estão indo embora. Ontem foi a Márcia, antes dela o Flávio do mercadinho onde eu fazia as minhas compras. No sábado retrasado o Francisco dos picolés que vendia sorvetes na praia. Partiram, essas almas, assim sem mais nem menos, sem dizer adeus.  Se foram daqui sem um telefonema, sem aviso prévio, tipo “minha gente, estou indo. Vim dizer adeus. Chegou minha hora. Talvez, um dia, em algum lugar, não sei onde, a gente se encontre”.

Quem sabe, me pergunto por conta da saudade que ficou, mas sem obter resposta: será que algum dia, poderemos tomar um café, beber uma gelada no capricho, ou comer uns tira-gostos no barzinho do Juliano, ou simplesmente sentarmos e batermos um papo sobre os assuntos mais triviais? Isso me entristece. As pessoas, ao meu redor estão partindo, indo embora, e do nada, a gente fica no vácuo, curtindo um rombo enorme no peito, outro maior no coração. Vejo tanta gente por aí, pessoas que fazem parte do meu cotidiano, brigando por dinheiro, se esfolando por bens, casas, carros, banalidades...

Outras se comem, se depravam, se matam, se esfolam e se digladiam por sociedades. A maioria às portas de se assassinarem por terras, fazendas, sítios, contas bancárias, aviões, barcos, coberturas de frente para o mar... e do nada, como num sopro, essas criaturas partem, se vão, criam asas e desaparecem e tudo, tudo fica aqui... muitas coisas se transformam em vulgaridades sem nexo, gerando brigas e confusões acirradas no seio do convívio familiar. E eu, incrédulo, pasmado, os olhos da fuça arregalados de novo, me questiono, me interpelo e no final das contas, a pergunta é sempre a mesma: para quê?

Na minha família mesmo, tenho irmãos que não se falam, outros que gastam com putas refinadas, mulheres jovens, enquanto seus consanguíneos clamam obstinadamente pela compra de um remédio para dor de cabeça, ou se ajoelham em vista de um dinheiro emprestado para pagarem um simples aluguel e o desgraçado, do seu pedestal, não empresta, não ajuda, sai pela tangente. E ainda se faz de “eu sou o maioral”. Em dias passados, um desses “eternos” respondeu a um amigo que lhe foi pedir socorro. O desgraçado “deus fajuto” disse a ele: “meu irmão, são escolhas. Você fez as suas, eu fiz as minhas”.

Tenho parentes nesses moldes, parentes que subiram na vida fazendo irmãos de “laranjas*”. Vadios e miseráveis, hipócritas e bandidos que galgaram apartamentos de frente para o mar, compraram carros, motos, tudo as custas de trapaças. Em oposto, os “laranjas” esses destituídos da sorte, sobrevivem ao deus dará. Estão hoje às margens da lei, com um amontoado de processos na justiça, ou melhor, nos costados, em face de terem sido os “laranjas”, melhor dito e explicado, por terem cedido o nome à um filho sem mãe.

Esses laranjas sobrevivem a trancos e barrancos, resistem às margens da lei. Tomam no olho do cu. Têm o nome sujo, se acham impossibilitados de comprar uma agulha. Se veem sem a esperança de chegar num restaurante e comer um prato de comida ou carregar nos bolsos, um dinheirinho para um pão com manteiga ou mandar para dentro da barriga, uma xícara de café na padaria. Esses vermes de esgoto, essas lombrigas não morrem. Esses “ratos familiares” sobrevivem às custas dos irmãos abobalhados.

As perguntas que ficam no ar: será que um dia esses canalhas, esses seres do mal, partirão e prestarão contas à Deus? Será que esses demônios em forma de irmãos, tios, sobrinhos ou o caralho a quatro, um dia, sei lá quando, forem de mala sem cuia para o andar de cima, acertarão as contas dos seus atos? Pois é! As pessoas, ao meu redor, estão indo... os bons, os maus, ao passo que os canalhas, os trapaceiros, por algum motivo esses malignos parecem durar mais, se criam e seguem altaneiros, em face de uma vida longa e sadia.

Enfim... não posso julgar. Não posso fazer nada. Apenas, do meu cantinho observar atentamente e deixar a minha preocupação em forma de um texto, porém, sem uma resposta objetiva. Em face disso, sigo aqui. Caminho à esmo, me beliscando, me questionando na tentativa vã de saber se um dia, esses “pilantras”, esses “demônios”, esses “safardanas”, amanhã ou depois, se verão de joelhos aos pés sagrados do Pai Maior? Talvez eu nunca encontre ou saiba o que aconteceu com esses vigaristas que alcançaram, que galgaram, que se fizeram poderosos às custas de seus humildes e pacatos familiares.

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA: “Laranja*”, aquele abestalhado imbecil, otário e mané, que empresta seu nome para alguém colocar uma empresa no seu nome, em troca de uns míseros trocados.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 24-4-2026            

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