Paulo Hasse Paixão
No épico ensaio vídeo que
deixamos em baixo, Disparu diz muito daquilo que é preciso saber sobre a
infame manobra a que Christopher Nolan sujeitou a obra de Homero.
Para além da iniquidade do casting e
das aberrantes incorrecções históricas que implodem na cenografia (o guarda
roupa é pobre ou implausível e um dos barcos usados no filme é uma
reconstituição de um Drakkar, usado pelos vikings dois mil anos
depois da era em que se desenvolve a acção da Odisseia); para além da
cinematografia desleixada e do processo de banalização e desvalorização da
linguagem (aparentemente, as “audiências modernas” são excessivamente estúpidas
para suportarem uma tradução séria do grego homérico); para além de ser mais que evidente que existe no projecto de Nolan a clara intenção de
destituir a obra dos seus mais elevados valores (e por acréscimo ou
consequência, destituir a civilização ocidental das suas mais gloriosas
referências); para além da eloquência de Disparu, que vale a pena apreciar (não
é fácil fazer o que ele faz, assim espontaneamente, em vídeo), há que enfatizar
o que o youtuber afirma no fim da sua assertiva dissertação,
porque é mesmo necessário que toda a gente tenha consciência do que está aqui
em causa.
Um dos eixos fundamentais na
narrativa da Odisseia assenta na circunstância de que um grupo de aristocratas
de Ítaca e de outras ilhas vizinhas ocupa literalmente a casa real de Ulisses,
usando e abusando da mesa e da adega e dos criados durante a sua prolongada
ausência (20 anos – 10 de guerra, 10 de regresso), na expectativa de que um
deles seja escolhido para usurpar o seu trono e desposar a sua mulher,
Penélope, que tenta por todos os meios recusar avanços e protelar a decisão de
declarar rei morto, rei posto. A pressão e a humilhação a que a rainha é
submetida é imensa e insustentável, mas ela persiste na sua fidelidade ao
marido, acreditando que ele está vivo e regressará a casa.
Quando enfim Ulisses chega a Ítaca, apercebe-se da intrusão, do abuso, da arrogância e da deslealdade dos seus súbditos e mata-os a todos.
Moral da história: sê fiel ao
teu marido. Sê fiel ao teu legado. Sê fiel ao teu Rei. Modera a tua ambição.
Modera a tua arrogância. Modera a tentação de desafiar os deuses e o destino e
a ordem natural das coisas. Caso contrário, pagarás essa ousadia com a vida.
Ora, há aqui um paralelo
arrepiante com o episódio Nolan.
Como um intruso, o cineasta,
que também é um aristocrata (da oligarquia liberal), apodera-se indevidamente
da obra de Homero (que vive ainda na cultura ocidental) para abusar dela, para
se aproveitar dela, para distorcer e vilipendiar o seu legado, para fazer da
epopeia o que bem entende na falsa consideração de que o texto original é letra
morta, manifestando no processo toda a hubris de Hollywood, e
total deslealdade para com o imortal poeta. A traidora expectativa do súbdito
é, também neste caso, substituir o amo, ao colocar-se como um revisor oficial
da história, interpretando-a e recontando-a de tal forma que a faz
irreconhecível, tomando assim os louros da autoria e massificando esse cunho
corruptor.
É deprimente, mas nos tempos
que correm, haverá mais gente no mundo que conhece a obra de Christopher Nolan
do que a obra de Homero. Pior ainda: As massas contemporâneas vão conhecer a
literatura do bardo eterno pela versão infame e conspurcada de um realizador
que se consagrou ao filmar uma trilogia do Batman.
Mas neste caso, a moral da
história é simetricamente inversa e muito pouco, ou nada, edificante: O
traidor, o vilão, aquele que não modera a sua ambição nem a sua arrogância,
aquele que é infiel à História, à Cultura, ao legado clássico da Civilização Helénica,
é recompensado com fama e fortuna, glorificado pelas máquinas de propaganda,
elevado ao patamar homérico, que usurpou.
Um claro e infernal sinal dos
tempos.
Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 18-7-2026

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