sábado, 18 de julho de 2026
[Versos de través] Eurídice
Estive hoje na tua campa coberta de flores.
Partiste há mais de vinte dias neste janeiro frio e chuvoso.
Um de janeiro do ano do senhor de dois mil e vinte e quatro
para ser mais preciso. O dia da tua paixão e morte. Recordo essa manhã terrível
que desceu sobre mim em rajadas de granizo e fogo.
A voz ao telefone era assim, sem mel, e debitou a notícia:
simples, informal, de funcionário… tinhas falecido, e às dez e cinco.
Sacaram-me a alma pelas costas e ficou lá um vazio
por onde por vezes fito o infinito…
Solta-me, senhor, um véu de estrelas nos olhos
para que eu possa voltar a vê-la.
Tenho saudade de Orfeu correndo-me nas veias.
Tangerei a minha lira e descerei aos infernos…
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