domingo, 13 de setembro de 2026

[As danações de Carina] Memórias póstumas do 11 de setembro, vinte e cinco anos depois

Carina Bratt 

EXISTEM DIAS que ficam gravados, ou melhor, grudados não só em nossa cabeça, como também nas memórias do mundo e permanecem assim, como uma cicatriz profundamente aberta e funda, que o tempo não apaga, só ensina a carregar. O 11 de setembro de 2001 foi, ou melhor dito, é um desses dias. Naquela manhã, o sol brilhava limpo sobre o céu maravilhado de Nova Iorque, como se nada pudesse abalar a rotina, os sonhos, os passos de milhões de pessoas que iam para o trabalho, que encontravam quem amavam, e planejavam com carinho o futuro. E então, de repente, do nada, o céu esplendoroso e jubiloso deixou de ser só azul. Fumaça, estrondo, medo e o mais catastrófico, um abismo que se abriu diante dos olhos de todo o planeta. Vimos torres caírem, mas muito mais do que prédios, vimos também vidas se perderem de forma brutal, inocentes e sem uma explicação plausível. Gente que estava ali apenas vivendo, cumprindo o seu dia, e que de um momento para outro se tornou parte ativa de uma dor imensurável que atravessa gerações.

Não importa de onde somos, que língua falamos ou em que acreditamos. Naquele instante, sentimos o mesmo arrepio. Aprendemos que a tal da paz é frágil e capenga, que o ódio pode chegar de onde menos se espera e que o preço da violência é sempre pago por quem não tem culpa nenhuma. Sempre foi assim e nunca nem ninguém mudará esse quadro lúgubre. Com o 11 de setembro, também aprendemos outra coisa importante. E essa é a parte que não podemos e nem devemos deixar que caia no esquecimento. Mesmo no meio do caos, houve quem corresse para ajudar em vez de fugir. Referencio aqui, bombeiros, policiais, pessoas comuns que arriscaram tudo para salvar o outro. Heróis sem capa, que sabiam que o amor ao próximo se fazia maior que qualquer terror. Depois daquele assombramento covarde das derrubadas das torres gêmeas, muito anos se passaram. As torres não voltaram a ficar de pé no mesmo lugar, mas se ergueu no lugar delas, uma nova presença. Não apenas uma presença de concreto e vidro, mas de memória. Memória dos que partiram, dos que choraram, dos que resistiram.

O vento, às vezes forte, às vezes leve, ainda passa por ali, corre, sibila, e na maioria das vezes parece trazer o eco de todas as vozes e replicar em coro uníssono e cada vez mais potente. ‘A vida é mais forte’. Hoje, quando lembramos daquela data, não fazemos apenas uma homenagem ao que se perdeu. Reafirmamos o que deve permanecer, ou seja, o respeito, a liberdade, a certeza de que construir é sempre melhor do que destruir, e que a esperança, mesmo ferida, nunca perecerá. O mundo todo seguiu em frente, não parou em nenhum momento a sua rota, mas nunca mais foi o mesmo. E é justo que assim seja, para que nunca esqueçamos: cada vida importa, e a paz (ainda que velha, cansada, carcomida, depreciada, precisa ser cuidada todos os dias. Há datas que não ficam só no calendário, elas se cravam na história, se perpetuam na carne e se sedimentam na memória coletiva, se tornam fortes e indestrutíveis como uma marca que o passar dos anos não consegue apagar, apenas ensina a carregar com mais cuidado. O 11 de setembro de 2001 é exatamente uma dessas datas.

Naquela manhã, bem me lembro, o sol nasceu claro, brilhante, lavando o céu azul da trepidante Nova York, sem nenhum sinal do que estava por vir. Milhões de pessoas saíram de suas casas como faziam todos os dias. Levavam café na garrafa térmica, pensavam em contas a pagar, em filhos que iam para a escola, em projetos que começavam, em encontros marcados, em sonhos que ainda estavam sendo tecidos dentro de cada coração. As torres gêmeas se erguiam altas, firmes, símbolos de força, de trabalho, de um mundo que parecia ter tudo sob controle, até que, de repente, tudo em questão de segundos, desabou. O primeiro estrondo ecoou pegando tudo mundo desprevenido, depois a fumaça grossa que cobriu o sol, transformando o meio-dia em noite escura. O fogo que devorou as estruturas de aço e concreto também queimou a certeza que tínhamos de que estamos seguros, de que o mal fica longe, de que o amanhã é garantido. Por conta disso, vimos prédios imensos ruírem diante dos nossos olhos estupefatos, mas o que realmente caiu, ou o que de fato veio às rés do chão, foi muito maior, ou seja desabou a inocência de todo um planeta.

Percebemos, boquiabertos e estupefatos, bem ainda de forma dura e dolorosa, que a violência pode chegar de onde menos se espera, que o ódio não escolhe fronteiras, e que o preço de qualquer ato de destruição é pago sempre, sem exceção, por vidas inocentes, gente que estava ali apenas vivendo, cumprindo o seu dia, sem saber que seria parte de uma tragédia que atravessaria gerações. No total, dizem, foram quase três mil vidas perdidas. Tenho cá minhas dúvidas: homens, mulheres, pessoas de mais de noventa países, criaturas de todas as raças, crenças e profissões. Tinham nomes, histórias, famílias, sonhos que esperavam por eles. Mães que não voltaram para casa, pais que nunca mais viram os filhos crescerem, amigos que deixaram lacunas que ninguém consegue preencher. E junto com eles, ficaram no ‘para sempre’ as marcas profundas notadamente nos que presenciaram, nos que correram para ajudar, nos que perderam tudo, e até em nós, simples mortais que estávamos longe, mas sentimos como se o horror tivesse acontecido ao nosso lado.  Aquele dia 11 de setembro nos mostrou o quanto o ser humano pode ser cruel.

Também revelou e isso não podemos nunca deixar esquecer, o quanto ele pode ser bom. Como assim, bom? Enquanto o caos tomava conta, e aqui voltamos a repetir o já dito acima, para que fique bem gravado, milhares de pessoas escolheram não fugir, mas ir ao encontro do perigo. Bombeiros, policiais, socorristas, funcionários de escritório, pessoas comuns, desconhecidas, que não tinham nenhuma obrigação, além da própria bondade. Elas subiram escadas em chamas, carregaram feridos, deram as mãos, se solidarizaram a quem precisava, arriscaram a própria vida para salvar a de um anônimo sem rosto. Muitos não voltaram. Esses são os verdadeiros rostos daquele dia: destemidos que não pediram medalhas, que só fizeram o que o coração mandou, provando, sobretudo, que o amor ao ser vivente é sempre mais forte que qualquer terror que bandidos infames e de olhos maus são capazes de impor a toda uma sociedade. O tempo passou. As cinzas foram limpas, os buracos no chão se fizeram preenchidos, e no lugar onde as torres gêmeas se erguiam, imponentes e intocáveis, hoje contemplamos novas construções.

Memoriais, edifícios, árvores que crescem fortes e verdes. Entretanto, devemos lembrar e nunca nos esquecer de um detalhe: nada substitui o que se foi. O que se construiu ali não é apenas pedra ou vidro é sobretudo um monumento às lembranças, um compromisso que deverá ser eterno dentro de nós. Não nos olvidarmos daquele fato, para não repetir. Não podemos esquecer. Euzinha penso que, esquecer, seria trair cada nome gravado, cada lágrima derramada, cada promessa de que vamos fazer melhor. Hoje, vinte e cinco anos depois, lembrar não é só recordar a ojeriza em câmera lenta. É lembrar é entender que a paz não cai do céu. Ela precisa ser construída, defendida, cuidada todos os dias. Lembrar é também saber que a violência nunca resolverá nada, que destruir é fácil e construir é tarefa de toda uma vida. Lembrar, igualmente, que devemos olhar atentamente para o mundo e dizer:  ‘A dor existe, mas a esperança também se mostra presente’. E que cada um de nós, com pequenos gestos, podemos fazer do nosso lugar aqui na Terra, um espaço onde o medo não sobreviva, onde a vida valha mais do que qualquer ideia ou qualquer raiva por mais devastadora que seja.

Finalizando, creio, o mundo nunca mais foi o mesmo, acreditem, e jamais será depois daquela manhã tenebrosa de 11 de setembro. E talvez seja bom que assim esse pensamento, no meu entender, sobreviva intacto, para que as pessoas nunca se esqueçam das palavras de Chico Xavier: ‘Cada vida é única, insubstituível e preciosa demais para ser perdida em nome do ódio’. O ódio no dizer de Umberto Eco, em seu ‘Cemitério de Praga’, leciona que ‘O ódio precisa de um inimigo inventado para unir as pessoas pelo medo’. Judith Butler analisa o discurso do ódio, ‘Como um ato performativo’. Para Freud, ‘o oposto do amor não é ódio, mas sim, a indiferença’. Nesse tom, o melhor jeito de honrar quem partiu, agora rememorando as palavras da escritora Cassandra Rios, ‘é fazer tudo para que nenhum outro dia precise ser assim, pior do que foi o anterior’. Cassandra disse essas palavras depois da proibição de seu livro pornográfico ‘Carne em delírio’.

Título e Texto: Carina Bratt, de Colatina, Espírito Santo, 13-9-2026

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Um comentário:

  1. O Islã tem problemas com cães. Com mulheres. Com música. Com gays. Com judeus. Com cristãos. Com sangue. Com carne de porco. Com álcool. Com jogos de azar. Com juros.
    Mas se alguém tem um problema com o Islã, é um racista.
    Há pessoas que realmente acreditam nisso.

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