A tese de que Flávio “reelege Lula” parte de duas premissas frágeis: a confiança cega nas pesquisas e a ideia de que a eleição brasileira será disputada em condições normais
Leandro Ruschel
É uma dúvida compreensível.
Ninguém sério quer entregar o país de bandeja para o PT. Ninguém que entenda a
gravidade do momento deveria tratar eleição como torcida, vaidade ou capricho
familiar. Mas a pergunta, do jeito que costuma ser formulada, parte de duas
premissas que precisam ser enfrentadas antes de qualquer conclusão: a primeira
é que as pesquisas são confiáveis; a segunda é que o jogo será limpo.
E, a esta altura, acreditar
nas duas coisas exige um esforço quase heroico de ingenuidade.
O principal líder da direita
brasileira está preso e inelegível. Jair Bolsonaro foi retirado do tabuleiro. O
nome que venceu a esquerda, que organizou o campo conservador e que continua
sendo a liderança inconteste da direita não pode disputar. Isso, por si só, já
bastaria para mostrar que não estamos diante de uma eleição normal.
Mas o problema não para aí.
Qualquer outro nome que incomode demais pode ser colocado sob pressão pelo
aparato institucional. Inquérito, inelegibilidade, tornozeleira, denúncia,
decisão judicial, censura, investigação seletiva: o cardápio já está aberto e em
uso. Quando um lado entra na eleição com seu principal líder fora do jogo e com
seus possíveis substitutos sob ameaça permanente, não se trata de disputa
democrática comum. Trata-se de eleição administrada.
E mesmo quando o sistema não
precisa retirar formalmente uma candidatura, ele pode fazer algo igualmente
eficiente: controlar as condições do debate. Foi o que aconteceu em 2022. Um
lado fez campanha com muito mais liberdade. O outro foi sistematicamente censurado,
limitado, enquadrado e vigiado. Ideias, vídeos, falas, denúncias e perfis foram
tratados como ameaça institucional. Não é possível discutir “viabilidade
eleitoral” ignorando esse contexto.
É aqui que entram as pesquisas.
No Brasil, os institutos carregam um vício conhecido: erram quase sempre na mesma direção, subestimando a direita. Em 2018, Bolsonaro era tratado por muitos como inviável. Havia uma pressão para que desistisse e apoiasse Geraldo Alckmin, apresentado então como o “verdadeiro opositor” ao PT. O tempo mostrou a ironia: o tal opositor terminou como vice do próprio Lula.
A história deveria ter
vacinado a direita contra esse tipo de armadilha. Mas parece que a tentação
sempre volta com outro nome, outra embalagem e a mesma lógica: “desista do
candidato que representa o seu campo e apoie alguém mais aceitável para o
sistema”.
Em 2022, o erro foi ainda mais
explícito. Na véspera do primeiro turno, institutos davam ampla vantagem a
Lula, falavam em possibilidade real de vitória já no primeiro turno e
subestimavam Bolsonaro de maneira brutal. A urna mostrou outra coisa. A distância
foi muito menor. Em São Paulo, as principais pesquisas não captaram a força de
Tarcísio. No Rio, Cláudio Castro também surpreendeu. A direita foi subestimada
em disputas decisivas.
Diferença entre resultado oficial das urnas e pesquisas no 1º Turno de 2022:
Diante disso, quando alguém aparece dizendo que a direita “já perdeu” porque uma pesquisa antecipada aponta determinado cenário, é preciso respirar e lembrar: pesquisa não é destino. E, no Brasil, muitas vezes nem boa fotografia é. Pode ser fotografia tremida, mal enquadrada, enviesada, capturada num momento específico e usada politicamente para produzir o resultado que finge apenas medir.
Esse é o ponto que muita gente
ignora. Pesquisa não serve apenas para informar. Também pode servir para
desmobilizar. Pode criar sensação de derrota inevitável. Pode convencer
militantes a ficarem em casa, lideranças a abandonarem o barco, financiadores a
fecharem a carteira e eleitores a migrarem para uma suposta alternativa “mais
viável”. A pesquisa vira arma psicológica.
Por isso, abandonar Flávio
agora porque pesquisas apontam risco de vitória de Lula é fazer exatamente o
que o sistema deseja: dividir a oposição antes do jogo começar.
Com Bolsonaro preso e
inelegível, Flávio carrega algo que nenhum outro nome consegue fabricar
artificialmente: o sobrenome, o endosso do pai, o reconhecimento do campo e a
continuidade simbólica da liderança que foi retirada do tabuleiro. Isso não
significa que não haja problemas, desafios, desgaste ou dúvidas legítimas.
Significa apenas que a direita precisa pensar com cabeça fria, não com medo
induzido por manchete.
Procurar um “salvador mais
viável” com base nos mesmos ambientes políticos e nos mesmos institutos que já
tentaram empurrar a direita para a domesticação pode ser repetir o erro de
2018. A direita não pode aceitar, de novo, que o sistema escolha qual opositor
é aceitável para enfrentar o sistema.
A pergunta real não é se
Flávio aparece hoje em melhor ou pior posição numa pesquisa. A pergunta real é:
quem tem força para manter o campo unido num cenário em que Bolsonaro foi
retirado do jogo? Quem carrega a bandeira sem fingir que a perseguição acabou?
Quem impede que a direita seja dissolvida em candidaturas menores, vaidades
regionais, falsos moderados e projetos que agradam mais ao establishment do que
ao eleitor conservador?
Porque essa é a estratégia
mais óbvia: primeiro tiram Bolsonaro. Depois dizem que o nome apoiado por
Bolsonaro é inviável. Em seguida, empurram a direita para uma alternativa mais
“responsável”, mais “moderada”, mais palatável, mais incapaz de ameaçar a engrenagem.
E, quando a direita percebe, já está novamente apoiando alguém que não
representa sua base, não enfrenta o sistema e não tem compromisso real com a
libertação do país.
É assim que se vence uma
oposição antes da eleição.
O eleitor conservador precisa
aprender a desconfiar da coreografia. Quando a mesma estrutura que prendeu,
censurou, perseguiu e isolou o líder da direita começa a explicar qual
candidato da direita seria mais “viável”, o mínimo que se exige é prudência. Não
se trata de ignorar pesquisas. Trata-se de não ajoelhar diante delas. Elas são
um dado, não uma sentença. Um elemento de análise, não o comando da estratégia.
O Brasil não vive uma disputa
normal, com árbitro neutro, imprensa imparcial e instituições igualmente duras
com os dois lados. O país vive um jogo em que um lado pode quase tudo e o outro
precisa lutar até pelo direito de falar. Nesse cenário, desistir antes da
largada é transformar pressão psicológica em derrota política.
Apoiar Flávio, portanto, não é
acreditar cegamente que o caminho será fácil. Não será. É entender que
abandonar a candidatura por causa de pesquisas antecipadas pode ser exatamente
a armadilha que o sistema armou. É recusar a desmobilização. É impedir que a
direita seja fragmentada por medo, cálculo e manchete.
Pesquisa não é destino. E jogo
sujo não se enfrenta pedindo permissão ao árbitro.
Título, Imagens e Texto: Leandro
Ruschel, Substack,
20-7-2026



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-