segunda-feira, 20 de julho de 2026

O erro de desistir de Flávio antes mesmo de a eleição começar

A tese de que Flávio “reelege Lula” parte de duas premissas frágeis: a confiança cega nas pesquisas e a ideia de que a eleição brasileira será disputada em condições normais

Leandro Ruschel


A pergunta parece pragmática: por que apoiar Flávio Bolsonaro se, pelas pesquisas, ele acabaria reelegendo Lula?

É uma dúvida compreensível. Ninguém sério quer entregar o país de bandeja para o PT. Ninguém que entenda a gravidade do momento deveria tratar eleição como torcida, vaidade ou capricho familiar. Mas a pergunta, do jeito que costuma ser formulada, parte de duas premissas que precisam ser enfrentadas antes de qualquer conclusão: a primeira é que as pesquisas são confiáveis; a segunda é que o jogo será limpo.

E, a esta altura, acreditar nas duas coisas exige um esforço quase heroico de ingenuidade.

O principal líder da direita brasileira está preso e inelegível. Jair Bolsonaro foi retirado do tabuleiro. O nome que venceu a esquerda, que organizou o campo conservador e que continua sendo a liderança inconteste da direita não pode disputar. Isso, por si só, já bastaria para mostrar que não estamos diante de uma eleição normal.

Mas o problema não para aí. Qualquer outro nome que incomode demais pode ser colocado sob pressão pelo aparato institucional. Inquérito, inelegibilidade, tornozeleira, denúncia, decisão judicial, censura, investigação seletiva: o cardápio já está aberto e em uso. Quando um lado entra na eleição com seu principal líder fora do jogo e com seus possíveis substitutos sob ameaça permanente, não se trata de disputa democrática comum. Trata-se de eleição administrada.

E mesmo quando o sistema não precisa retirar formalmente uma candidatura, ele pode fazer algo igualmente eficiente: controlar as condições do debate. Foi o que aconteceu em 2022. Um lado fez campanha com muito mais liberdade. O outro foi sistematicamente censurado, limitado, enquadrado e vigiado. Ideias, vídeos, falas, denúncias e perfis foram tratados como ameaça institucional. Não é possível discutir “viabilidade eleitoral” ignorando esse contexto.

É aqui que entram as pesquisas.

No Brasil, os institutos carregam um vício conhecido: erram quase sempre na mesma direção, subestimando a direita. Em 2018, Bolsonaro era tratado por muitos como inviável. Havia uma pressão para que desistisse e apoiasse Geraldo Alckmin, apresentado então como o “verdadeiro opositor” ao PT. O tempo mostrou a ironia: o tal opositor terminou como vice do próprio Lula. 

A história deveria ter vacinado a direita contra esse tipo de armadilha. Mas parece que a tentação sempre volta com outro nome, outra embalagem e a mesma lógica: “desista do candidato que representa o seu campo e apoie alguém mais aceitável para o sistema”.

Em 2022, o erro foi ainda mais explícito. Na véspera do primeiro turno, institutos davam ampla vantagem a Lula, falavam em possibilidade real de vitória já no primeiro turno e subestimavam Bolsonaro de maneira brutal. A urna mostrou outra coisa. A distância foi muito menor. Em São Paulo, as principais pesquisas não captaram a força de Tarcísio. No Rio, Cláudio Castro também surpreendeu. A direita foi subestimada em disputas decisivas.

Diferença entre resultado oficial das urnas e pesquisas no 1º Turno de 2022: 

Diante disso, quando alguém aparece dizendo que a direita “já perdeu” porque uma pesquisa antecipada aponta determinado cenário, é preciso respirar e lembrar: pesquisa não é destino. E, no Brasil, muitas vezes nem boa fotografia é. Pode ser fotografia tremida, mal enquadrada, enviesada, capturada num momento específico e usada politicamente para produzir o resultado que finge apenas medir.

Esse é o ponto que muita gente ignora. Pesquisa não serve apenas para informar. Também pode servir para desmobilizar. Pode criar sensação de derrota inevitável. Pode convencer militantes a ficarem em casa, lideranças a abandonarem o barco, financiadores a fecharem a carteira e eleitores a migrarem para uma suposta alternativa “mais viável”. A pesquisa vira arma psicológica.

Por isso, abandonar Flávio agora porque pesquisas apontam risco de vitória de Lula é fazer exatamente o que o sistema deseja: dividir a oposição antes do jogo começar.

Com Bolsonaro preso e inelegível, Flávio carrega algo que nenhum outro nome consegue fabricar artificialmente: o sobrenome, o endosso do pai, o reconhecimento do campo e a continuidade simbólica da liderança que foi retirada do tabuleiro. Isso não significa que não haja problemas, desafios, desgaste ou dúvidas legítimas. Significa apenas que a direita precisa pensar com cabeça fria, não com medo induzido por manchete.

Procurar um “salvador mais viável” com base nos mesmos ambientes políticos e nos mesmos institutos que já tentaram empurrar a direita para a domesticação pode ser repetir o erro de 2018. A direita não pode aceitar, de novo, que o sistema escolha qual opositor é aceitável para enfrentar o sistema.

A pergunta real não é se Flávio aparece hoje em melhor ou pior posição numa pesquisa. A pergunta real é: quem tem força para manter o campo unido num cenário em que Bolsonaro foi retirado do jogo? Quem carrega a bandeira sem fingir que a perseguição acabou? Quem impede que a direita seja dissolvida em candidaturas menores, vaidades regionais, falsos moderados e projetos que agradam mais ao establishment do que ao eleitor conservador?

Porque essa é a estratégia mais óbvia: primeiro tiram Bolsonaro. Depois dizem que o nome apoiado por Bolsonaro é inviável. Em seguida, empurram a direita para uma alternativa mais “responsável”, mais “moderada”, mais palatável, mais incapaz de ameaçar a engrenagem. E, quando a direita percebe, já está novamente apoiando alguém que não representa sua base, não enfrenta o sistema e não tem compromisso real com a libertação do país.

É assim que se vence uma oposição antes da eleição.

O eleitor conservador precisa aprender a desconfiar da coreografia. Quando a mesma estrutura que prendeu, censurou, perseguiu e isolou o líder da direita começa a explicar qual candidato da direita seria mais “viável”, o mínimo que se exige é prudência. Não se trata de ignorar pesquisas. Trata-se de não ajoelhar diante delas. Elas são um dado, não uma sentença. Um elemento de análise, não o comando da estratégia.

O Brasil não vive uma disputa normal, com árbitro neutro, imprensa imparcial e instituições igualmente duras com os dois lados. O país vive um jogo em que um lado pode quase tudo e o outro precisa lutar até pelo direito de falar. Nesse cenário, desistir antes da largada é transformar pressão psicológica em derrota política.

Apoiar Flávio, portanto, não é acreditar cegamente que o caminho será fácil. Não será. É entender que abandonar a candidatura por causa de pesquisas antecipadas pode ser exatamente a armadilha que o sistema armou. É recusar a desmobilização. É impedir que a direita seja fragmentada por medo, cálculo e manchete.

Pesquisa não é destino. E jogo sujo não se enfrenta pedindo permissão ao árbitro.

Título, Imagens e Texto: Leandro Ruschel, Substack, 20-7-2026

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