A Polícia Federal escreveu, em papel timbrado, o nome de Dias Toffoli ao lado de R$ 35 milhões que saíram do país. A Corte teve sete meses para responder e nada
Rogerio Pires
Um documento de mais de oitenta
páginas ficou sete meses parado.
Ele tem número e tem carimbo:
Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026. A Polícia Federal o
produziu a partir do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master,
apreendido no fim de 2025. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal.
E ficou lá. Quieto.
Esse documento foi retirado da gaveta
ontem. O que está escrito nele muda o tamanho de tudo o que estávamos
discutindo.
A Polícia Federal apontou,
oficialmente, em documento produzido e assinado por ela, que o ministro Dias
Toffoli pode ter figurado como “beneficiário final” ou “proprietário de fato”
do FIP Arleen, o fundo de investimento que recebeu ao menos R$ 35 milhões de
Vorcaro.
Isso mesmo. A Polícia Federal escreveu
o nome de um ministro do Supremo Tribunal Federal ao lado da expressão
“proprietário de fato”. Em papel timbrado.
O caminho do dinheiro
Agora acompanhe o dinheiro, porque a
sequência é o ponto.
O Arleen era de Vorcaro. E esse fundo
tinha participação no Tayayá, resort em Ribeirão Claro, no interior do Paraná,
ligado à Maridt, empresa dos irmãos do ministro e da qual o próprio Toffoli já
admitiu fazer parte do quadro societário.
Fevereiro de 2025: o fundo é comprado por Alberto Leite, empresário descrito como amigo de Toffoli, dono da empresa de segurança FS Security.
Março: Leite registra a holding Egide
I nas Ilhas Virgens Britânicas. No mesmo período, o regulamento do Arleen é
alterado para permitir investimentos no exterior. A porta se abre.
Dezembro: cerca de R$ 34 milhões saem
do fundo e vão para a holding no Caribe. Nas palavras do relatório, todo o
ativo do Arleen é transferido para a Egide I na liquidação do fundo.
Compra, mudança de regra, remessa. Dez
meses.
E tem um detalhe que ficou na minha
cabeça desde que li. Segundo o relatório, ao orientar a transferência do fundo,
Vorcaro pediu uma minuta de contrato sem identificação explícita de nomes. A
instrução foi de duas palavras: “Sem nome”.
A parte que dói
Quem era o relator do caso Banco
Master no Supremo? Dias Toffoli.
Foi ele quem, em janeiro deste ano,
determinou o sequestro e o bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em bens ligados a
Vorcaro.
O ministro que julgava o banqueiro é o
mesmo que aparece, no relatório da PF, ligado ao dinheiro do banqueiro.
O gabinete de Toffoli nega. Diz que o
ministro “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior”
e que “jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas
Virgens Britânicas”. Afirma ainda que o relatório foi arquivado, com decisão
transitada em julgado, e que os dez ministros da Corte tomaram ciência do
conteúdo em fevereiro deste ano, deliberando pela inexistência de suspeição.
Duas coisas me incomodam nessa
resposta.
A primeira é o que ela não diz. A nota
não trata do Arleen, não trata de Alberto Leite e não trata da Egide I.
Responde ao contorno e passa longe do miolo.
A segunda é a palavra “arquivado”. A
piauí sustenta que o que os ministros arquivaram em fevereiro foi uma arguição
de suspeição contra Toffoli, e não o relatório da PF que serviu de base a ela.
São coisas diferentes. Arquivar o pedido não apaga o documento.
As providências cabíveis caberiam ao
novo relator do inquérito do Master, o ministro André Mendonça. Questionado
pela revista, Mendonça afirmou que o relatório não foi enviado a ele.
Ou seja: ninguém tem, ninguém viu,
ninguém responde.
O que eu quero
Não estou dizendo que o ministro é
culpado. Apontar não é comprovar, e a própria PF registra que os elementos
reunidos ainda demandam aprofundamento analítico.
Mas apontar também não é nada. É a
polícia que investiga o crime organizado escrevendo, em documento oficial, o
nome de quem senta no Supremo.
Estou dizendo outra coisa, e é mais
simples.
Se essa suspeita recaísse sobre um
professor da rede pública, sobre um servidor de carreira, sobre você, o
processo já teria nome, número, prazo e manchete. Quando recai sobre quem julga
o país, vira um arquivo de oitenta páginas dormindo sete meses dentro de um
gabinete.
Eu quero saber quem ficou com esse
dinheiro. Por que ele foi repassado. E qual era, afinal, a participação do
ministro.
Não é curiosidade. É direito.
Você paga por esse tribunal.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
14-9-2026
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