Aparecido Raimundo de Souza
Tenho plena
consciência, matei os heróis dos meus rebentos, com frases curtas: “Ele não
presta”; “Ela só quer aparecer”; “Isso tudo é mentira”. Cada sentença, uma
bala. Cada julgamento, uma lápide. Todos os meus consanguíneos por ordem de
nascimento, estavam ali. A Érica, o Eduardo, a Narjara, a Amanda, a Luana e a
Antonella. Se perfilavam, com os olhos abertos, prontos para acreditarem em
alguém, e eu, com a arrogância de quem já viu e viveu demais, fui apagando os
muitos rostos que poderiam inspirá-los.
Não deixei que
admirassem o professor Alexandre da cadeira de português, que andava de
bicicleta e falava de literatura como quem conta histórias. Disse que ele era
um sonhador, como se sonhar fosse um defeito. Desprezei a cientista que
apareceu no documentário dizendo que ela devia ter tido sorte, porque ninguém
chegava onde ela se abancou só com esforços. E quando meu filho quis saber mais
sobre o Beto, o líder comunitário que transformou o pacata Carapicuíba com
hortas e livros, eu disse que ele devia estar ganhando algo com aquilo.
Porque, no fundo, a bem da verdade, eu não acreditava mais em altruísmo. E ensinei isso como se fosse sabedoria. Hoje, percebo que não matei só os heróis. Desmantelei a esperança de que o mundo pudesse ser maior do que ele é. Que houvesse gente boa, corajosa e justa. Gente que erra, sim, mas que tenta sem nunca desistir. Gente que não precisa ser perfeita para ser admirada, linda para ser amada e inteligente para ser levada a sério. Meus filhos cresceram com olhos treinados para desconfiar.
E eu, que achava estar
protegendo todos eles das decepções, os resguardei das belezas também. Das
realezas de acreditar. De se inspirarem. Eu os agasalhei de seguirem um alguém
que apontava para o alto, mesmo que tropeçasse no caminho e levasse um tombo memorável.
Agora, tento ressuscitar alguns. Falo do seu Alberto, o enviado para outro país
que enfrentou a ditadura com uma velha e surrada máquina de escrever, um
mimeógrafo e muitas pílulas de coragem e otimismo. Menciono nossa vizinha dona
Valquíria, que alfabetizava adultos nas noites de terça.
Também do doutor
Juarez, um médico de quase noventa anos que atendia sem cobrar, quando percebia
que o paciente não tinha como pagar. São pequenos gestos lúdicos, minúsculas
histórias. Mas talvez, com sorte, eles ainda possam servir de farol iluminando
o breu que os envolveu a todos. Porque agora, do alto da minha visão meio
deformada, tomei consciência que os heróis verdadeiros não precisam voar. Basta
que caminhem com um propósito. E que alguém, mesmo que tardiamente, os aponte
com respeito, dignidade e admiração. Ah, os heróis que ficaram apenas nas
crônicas que escrevi… esses são os mais tristes e melancólicos, porque não
morreram na verdadeira acepção da palavra — foram esquecidos.
Abandonados no meio de
uma caminhada longa, igualmente deixados na antessala do deslumbramento e da
contemplação, esperando que alguém os chamasse para dentro. Mas ninguém, bem
sei, em tempos de hoje, faria isso. O pedreiro Toninho da Vera, que construiu
escolas com as mãos calejadas, sem nunca ter estudado nelas. Ele poderia ter
sido exemplo de dignidade, de trabalho honesto, de força silenciosa. Mas eu,
como pai, estava ocupado em demasia ensinando que o sucesso se mede em cifras.
Dona Evangelina, a bibliotecária do grupo escolar que decorava o nome de cada
criança que entrava e indicava os livros de Monteiro Lobato e Ana Maria Machado
como quem oferecia mundos.
Ela poderia ter sido a
heroína da imaginação, da gentileza, da persistência em tempos de desinteresse.
Mas eu fui mais longe —, disse com todas as letras que ela só organizava
prateleiras. O grafiteiro seu Cézar, que morava no final da rua, quase ao pé do
morro, que transformou todos os muros do pacato bairro onde morávamos, em
baluartes com painéis de poesias visuais, que pintava esperanças nos postes
onde só havia cimento e concreto. Ele poderia ter sido o herói da beleza
urbana, da expressão livre, da arte como resistência. Mas, ainda aí, eu fui
mais aquém, aliás, passei das contas e o chamei de vândalo.
Mesmo tapa na
consciência, dona Glorinha, a enfermeira que segurou mãos durante madrugadas de
dores e aflições, que sabia o nome dos pacientes de cor e salteado, e o peso de
cada silêncio... Meu Deus, ela poderia ter sido o símbolo da compaixão, da
presença, da humanidade. Mas eu só via o jaleco quase todo rasgado que ela
usava e não a sua alma. E quando a gente não distingue a alma, é sinal de que
estamos a poucos passos da destruição de nosso próprio “eu” interior.
Da mesma forma, a
musicista Lisbela, de dentro dos trens da Sorocabana, que cantava entre Barueri
e a Estação Júlio Prestes, tocando e cantando lindas canções com o auxílio de
um gravador a pilha, alimentado por uma caixa de som, os olhos fechados, como se
cada nota entoada fosse uma oração. E era! Ela poderia ter sido a heroína da
beleza ímpar e a sutileza imensurável, bem ainda da arte que insistia, do
talento que não precisava de palco, nem de público e aplausos. Mas eu, como
sempre, um imbecil de carteirinha, atravessava de um vagão para outro, os
passos apressados, como se tivesse com o pai na forca, e pior, sem a ouvir.
Esses heróis não
tinham capas. Pelo contrário, carregavam o cansaço, ao tempo em que
engrandeciam histórias, avultavam e centuplicavam as falhas, tornando-as em
encantamentos de contos de fadas. Mesmo norte, esses seres maviosos traziam de
dentro do âmago em festa, algo que seus filhos (todos menores, como os meus)
precisavam ver, ou seja, tomassem conhecimento que a grandeza infinita não
estava somente no brilho dos holofotes, mas igualmente nos gestos simples e
desnudos de uma felicidade que a cada minuto se fazia maior e se emancipava
para os píncaros da realeza.
Na verdade, cada um
que eu desprezei levado por uma imbecilidade “doentemente” galopante, me
mostrou, a duras penas, que ser herói não é salvar o mundo. Pelo contrário, ser
herói, é melhorar um pedaço desse mundo e entrega-los aos filhos que nasceram
em face da pureza bucólica, do parentesco de um amor sem fístulas, sem mágoas
ou desdoiros. E agora, aos setenta e dois, eu, me tornei um escritor sem
público, um autor frustrado. E de repente, eu os enxerguei parados num caminho
sem vislumbre de futuro. Acredite, caros amigos, eu, do alto da minha solidão,
os divisei como se estivessem perdidos.
Escrevi vários textos
sobre eles. Contudo, não os apresentei aos meus filhos. Preferi o cinismo à
esperança, o silêncio à um diálogo, um gesto de carinho e afeição onde somente
eu me sentia o tal, o maioral, o rei da cocada preta. Me sentia, aliás, me via
como um intocável. O sabichão, o palhaço sem picadeiro, sem as amarras das
lonas do circo, sem o tablado, sem o espetáculo, sem público presente. Agora,
talvez, só agora, reste os textos publicados, não sei precisar quantas centenas
deles, todos sem exceção, como um pedido de desculpas tardio.
Entendo perfeitamente
que há uma força especial na contenção. Quando as minhas crônicas terminam no
ponto certo, elas deixam aqueles ecos titubeantes nas cabeças dos meus
leitores; gritos vazios; súplicas desgastantes em seus olhares; como um
calhamaço de notas desafinadas que continuam vibrando mesmo depois que a música
que tocava em algum lugar dentro de mim, tivesse chegado ao fim. O silêncio
depois da última frase é sepulcral, é frio, é maligno. Entretanto, faz parte do
conjunto da minha obra. E nessas minhas frases feitas, programadas e ensaiadas,
“ficaram apenas restos de mim mesmo numa escrita absurda, cheia de erros de
linguagem, de altos e baixos, atreladas às desilusões e sofrimentos de um
escritor sem eira nem beira.
Em outras palavras, de
um “escrevinhador” decepcionado, malogrado, frustrado, contrariado e
abortado””. Talvez, por tudo isso, carregue comigo uma melancolia poderosa. Ela
transforma a cada dia, o meu mundo de autor num imenso vazio e pior, igualmente
em cúmplice e vítima ao mesmo tempo, como bem claro deixei explicitado no
início de mais uma crônica que acabei de escrever. Nesse tom oco, insípido, e
lacerado, vazio e chocho, destituído de vida plena, aos heróis que não foram
apresentados, aos meus filhos, (Amanda, por exemplo, só queria ver as baleias
Jubarte.
O Eduardo almejava que
eu fosse no campinho jogar bola com ele, Luana e Érica, ansiavam em ver o mar
de perto, a Narjara que eu a levasse para andar no trenzinho do Picapau
finalizando com a Antonella que voava, sem sair do chão e se engrandecer além
do quintal onde brincava em face de... enfim, todos eles ficaram presos entre
parágrafos, virgulas, travessões e arrependimentos. Acredito piamente, essa
crônica sem gosto, sem riso, sem sabor e sobretudo sem vida, é tudo o que
sobrou de mim.
Penso que preciso dar
um tempo. Parar. Em verdade, quando o silêncio que vem depois de tudo que eu
disse, falei e escrevi se faz mais pesado, denso e obumbrado, se tornou
trocentas vezes mais poderoso que qualquer parágrafo extra. Existe uma
elegância sutil que nos sinaliza a meter os pés no freio. Estancar. Deter os
passos no ponto certo, como quem fecha uma porta tremendamente pesada e
barulhenta bem devagar para não acordar o que está quieto dentro do ontem que
dorme o seu sono tentando se olvidar de um passado que não volta.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro,
29-8-2025
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Como acabar com os moradores de rua? Existe alguma solução viável? Sim
Como um alimento vindo dos seios
Tipo assim, quando rosnam as demências distantes
Por todos os corpos ocultos e insepultos
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