sexta-feira, 29 de agosto de 2025

[Aparecido rasga o verbo] Matei todos os heróis que meus filhos poderiam ter tido

Aparecido Raimundo de Souza

TENHO PLENA CONSCIÊNCIA do que agora escrevo. Não foi com tiro, veneno, faca, nem com espada que eu os matei. Usei o silêncio. Aquele tipo de silêncio infame que se instala quando o jornal é dobrado antes da última página, quando o nome de alguém é engolido por um suspiro, quando a televisão é desligada no meio de uma entrevista que poderia ensinar alguma coisa de útil e de aproveitável.

Tenho plena consciência, matei os heróis dos meus rebentos, com frases curtas: “Ele não presta”; “Ela só quer aparecer”; “Isso tudo é mentira”. Cada sentença, uma bala. Cada julgamento, uma lápide. Todos os meus consanguíneos por ordem de nascimento, estavam ali. A Érica, o Eduardo, a Narjara, a Amanda, a Luana e a Antonella. Se perfilavam, com os olhos abertos, prontos para acreditarem em alguém, e eu, com a arrogância de quem já viu e viveu demais, fui apagando os muitos rostos que poderiam inspirá-los.

Não deixei que admirassem o professor Alexandre da cadeira de português, que andava de bicicleta e falava de literatura como quem conta histórias. Disse que ele era um sonhador, como se sonhar fosse um defeito. Desprezei a cientista que apareceu no documentário dizendo que ela devia ter tido sorte, porque ninguém chegava onde ela se abancou só com esforços. E quando meu filho quis saber mais sobre o Beto, o líder comunitário que transformou o pacata Carapicuíba com hortas e livros, eu disse que ele devia estar ganhando algo com aquilo.

Porque, no fundo, a bem da verdade, eu não acreditava mais em altruísmo. E ensinei isso como se fosse sabedoria. Hoje, percebo que não matei só os heróis. Desmantelei a esperança de que o mundo pudesse ser maior do que ele é. Que houvesse gente boa, corajosa e justa. Gente que erra, sim, mas que tenta sem nunca desistir. Gente que não precisa ser perfeita para ser admirada, linda para ser amada e inteligente para ser levada a sério. Meus filhos cresceram com olhos treinados para desconfiar.

E eu, que achava estar protegendo todos eles das decepções, os resguardei das belezas também. Das realezas de acreditar. De se inspirarem. Eu os agasalhei de seguirem um alguém que apontava para o alto, mesmo que tropeçasse no caminho e levasse um tombo memorável. Agora, tento ressuscitar alguns. Falo do seu Alberto, o enviado para outro país que enfrentou a ditadura com uma velha e surrada máquina de escrever, um mimeógrafo e muitas pílulas de coragem e otimismo. Menciono nossa vizinha dona Valquíria, que alfabetizava adultos nas noites de terça.

Também do doutor Juarez, um médico de quase noventa anos que atendia sem cobrar, quando percebia que o paciente não tinha como pagar. São pequenos gestos lúdicos, minúsculas histórias. Mas talvez, com sorte, eles ainda possam servir de farol iluminando o breu que os envolveu a todos. Porque agora, do alto da minha visão meio deformada, tomei consciência que os heróis verdadeiros não precisam voar. Basta que caminhem com um propósito. E que alguém, mesmo que tardiamente, os aponte com respeito, dignidade e admiração. Ah, os heróis que ficaram apenas nas crônicas que escrevi… esses são os mais tristes e melancólicos, porque não morreram na verdadeira acepção da palavra — foram esquecidos.

Abandonados no meio de uma caminhada longa, igualmente deixados na antessala do deslumbramento e da contemplação, esperando que alguém os chamasse para dentro. Mas ninguém, bem sei, em tempos de hoje, faria isso. O pedreiro Toninho da Vera, que construiu escolas com as mãos calejadas, sem nunca ter estudado nelas. Ele poderia ter sido exemplo de dignidade, de trabalho honesto, de força silenciosa. Mas eu, como pai, estava ocupado em demasia ensinando que o sucesso se mede em cifras. Dona Evangelina, a bibliotecária do grupo escolar que decorava o nome de cada criança que entrava e indicava os livros de Monteiro Lobato e Ana Maria Machado como quem oferecia mundos.

Ela poderia ter sido a heroína da imaginação, da gentileza, da persistência em tempos de desinteresse. Mas eu fui mais longe —, disse com todas as letras que ela só organizava prateleiras. O grafiteiro seu Cézar, que morava no final da rua, quase ao pé do morro, que transformou todos os muros do pacato bairro onde morávamos, em baluartes com painéis de poesias visuais, que pintava esperanças nos postes onde só havia cimento e concreto. Ele poderia ter sido o herói da beleza urbana, da expressão livre, da arte como resistência. Mas, ainda aí, eu fui mais aquém, aliás, passei das contas e o chamei de vândalo.

Mesmo tapa na consciência, dona Glorinha, a enfermeira que segurou mãos durante madrugadas de dores e aflições, que sabia o nome dos pacientes de cor e salteado, e o peso de cada silêncio... Meu Deus, ela poderia ter sido o símbolo da compaixão, da presença, da humanidade. Mas eu só via o jaleco quase todo rasgado que ela usava e não a sua alma. E quando a gente não distingue a alma, é sinal de que estamos a poucos passos da destruição de nosso próprio “eu” interior.

Da mesma forma, a musicista Lisbela, de dentro dos trens da Sorocabana, que cantava entre Barueri e a Estação Júlio Prestes, tocando e cantando lindas canções com o auxílio de um gravador a pilha, alimentado por uma caixa de som, os olhos fechados, como se cada nota entoada fosse uma oração. E era! Ela poderia ter sido a heroína da beleza ímpar e a sutileza imensurável, bem ainda da arte que insistia, do talento que não precisava de palco, nem de público e aplausos. Mas eu, como sempre, um imbecil de carteirinha, atravessava de um vagão para outro, os passos apressados, como se tivesse com o pai na forca, e pior, sem a ouvir.

Esses heróis não tinham capas. Pelo contrário, carregavam o cansaço, ao tempo em que engrandeciam histórias, avultavam e centuplicavam as falhas, tornando-as em encantamentos de contos de fadas. Mesmo norte, esses seres maviosos traziam de dentro do âmago em festa, algo que seus filhos (todos menores, como os meus) precisavam ver, ou seja, tomassem conhecimento que a grandeza infinita não estava somente no brilho dos holofotes, mas igualmente nos gestos simples e desnudos de uma felicidade que a cada minuto se fazia maior e se emancipava para os píncaros da realeza.

Na verdade, cada um que eu desprezei levado por uma imbecilidade “doentemente” galopante, me mostrou, a duras penas, que ser herói não é salvar o mundo. Pelo contrário, ser herói, é melhorar um pedaço desse mundo e entrega-los aos filhos que nasceram em face da pureza bucólica, do parentesco de um amor sem fístulas, sem mágoas ou desdoiros. E agora, aos setenta e dois, eu, me tornei um escritor sem público, um autor frustrado. E de repente, eu os enxerguei parados num caminho sem vislumbre de futuro. Acredite, caros amigos, eu, do alto da minha solidão, os divisei como se estivessem perdidos.

Escrevi vários textos sobre eles. Contudo, não os apresentei aos meus filhos. Preferi o cinismo à esperança, o silêncio à um diálogo, um gesto de carinho e afeição onde somente eu me sentia o tal, o maioral, o rei da cocada preta. Me sentia, aliás, me via como um intocável. O sabichão, o palhaço sem picadeiro, sem as amarras das lonas do circo, sem o tablado, sem o espetáculo, sem público presente. Agora, talvez, só agora, reste os textos publicados, não sei precisar quantas centenas deles, todos sem exceção, como um pedido de desculpas tardio.

Entendo perfeitamente que há uma força especial na contenção. Quando as minhas crônicas terminam no ponto certo, elas deixam aqueles ecos titubeantes nas cabeças dos meus leitores; gritos vazios; súplicas desgastantes em seus olhares; como um calhamaço de notas desafinadas que continuam vibrando mesmo depois que a música que tocava em algum lugar dentro de mim, tivesse chegado ao fim. O silêncio depois da última frase é sepulcral, é frio, é maligno. Entretanto, faz parte do conjunto da minha obra. E nessas minhas frases feitas, programadas e ensaiadas, “ficaram apenas restos de mim mesmo numa escrita absurda, cheia de erros de linguagem, de altos e baixos, atreladas às desilusões e sofrimentos de um escritor sem eira nem beira.

Em outras palavras, de um “escrevinhador” decepcionado, malogrado, frustrado, contrariado e abortado””. Talvez, por tudo isso, carregue comigo uma melancolia poderosa. Ela transforma a cada dia, o meu mundo de autor num imenso vazio e pior, igualmente em cúmplice e vítima ao mesmo tempo, como bem claro deixei explicitado no início de mais uma crônica que acabei de escrever. Nesse tom oco, insípido, e lacerado, vazio e chocho, destituído de vida plena, aos heróis que não foram apresentados, aos meus filhos, (Amanda, por exemplo, só queria ver as baleias Jubarte.

O Eduardo almejava que eu fosse no campinho jogar bola com ele, Luana e Érica, ansiavam em ver o mar de perto, a Narjara que eu a levasse para andar no trenzinho do Picapau finalizando com a Antonella que voava, sem sair do chão e se engrandecer além do quintal onde brincava em face de... enfim, todos eles ficaram presos entre parágrafos, virgulas, travessões e arrependimentos. Acredito piamente, essa crônica sem gosto, sem riso, sem sabor e sobretudo sem vida, é tudo o que sobrou de mim.

Penso que preciso dar um tempo. Parar. Em verdade, quando o silêncio que vem depois de tudo que eu disse, falei e escrevi se faz mais pesado, denso e obumbrado, se tornou trocentas vezes mais poderoso que qualquer parágrafo extra. Existe uma elegância sutil que nos sinaliza a meter os pés no freio. Estancar. Deter os passos no ponto certo, como quem fecha uma porta tremendamente pesada e barulhenta bem devagar para não acordar o que está quieto dentro do ontem que dorme o seu sono tentando se olvidar de um passado que não volta.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, 29-8-2025

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