Aparecido Raimundo de Souza
Com a sua partida, se
encerra uma era de inteligência afiada, humor refinado e crítica social
embalada em ironia elegante — marcas que fizeram de Luiz Fernando Veríssimo uma
referência incontornável na literatura brasileira.
Uma Vida Entre Letras,
Jazz e Ironia
Nascido em 26 de setembro de 1936, aqui em Porto Alegre, Veríssimo era filho do renomado escritor Érico Veríssimo, e cresceu cercado por livros e discussões intelectuais. Passou parte da infância e adolescência nos Estados Unidos, onde estudou em San Francisco, Los Angeles e Washington, e desenvolveu uma paixão duradoura pelo jazz, chegando a tocar saxofone em bandas como o grupo “Renato e seu Sexteto”.
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2003 |
Casou em 1963 com Lúcia Helena Massa, com quem teve três filhos: Fernanda, jornalista, Mariana, escritora e Pedro, músico. A vida familiar sempre esteve presente em suas crônicas, muitas vezes retratando com humor os dilemas cotidianos da classe média brasileira.
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Junho de 2018 |
Veríssimo começou sua
carreira como revisor de jornal no Zero Hora, em 1967, e logo passou a assinar
colunas em veículos como O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Seu
primeiro livro, “O Popular”, foi publicado em 1973. A partir daí, a sua produção
literária se tornou prolífica: mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de
exemplares vendidos.
Personagens que
Entraram para a História
“Ed Mort”: Um detetive
atrapalhado e sarcástico, inspirado no cinema noir, que virou símbolo da
crítica bem-humorada à vida urbana.
“O Analista de Bagé”: Um psicanalista gaúcho que mistura Freud com bombacha e “joelhaços terapêuticos”.
“A Velhinha de
Taubaté”: A última brasileira que ainda acreditava no governo, uma sátira
mordaz à ingenuidade política.
“Família Brasil”: Uma
série de crônicas que retratam os conflitos e absurdos da vida doméstica.
“Comédias da Vida
Privada”, uma de suas obras mais populares, foi adaptada para a televisão pela
TV Globo, alcançando milhões de espectadores e consolidando Veríssimo como um
dos autores mais lidos e queridos do país.
Últimos Anos e Legado
Nos últimos anos, Luiz Fernando Veríssimo (internado na UTI do Hospital Moinhos de Ventos desde 11 de
agosto, enfrentou problemas de saúde, incluindo O Mal de Parkinson, doenças
cardíacas e um AVC em 2021, que afetou sua mobilidade e comunicação.
Mesmo afastado da vida
pública, sua obra continuou a ser celebrada por leitores de todas as idades.
Luiz Fernando
Veríssimo foi mais do que um escritor: igualmente um intérprete sagaz da
sociedade brasileira, capaz de transformar o cotidiano em literatura com humor,
ternura e crítica.
Sua morte inesperada
deixa um vazio difícil de preencher, mas seu legado permanece vivo — nas
páginas que escreveu, nas risadas que provocou e nas reflexões que inspirou.
Que a sua literatura
continue sendo a principal porta de entrada para novos leitores e inspiração
para quem acredita que o humor é uma forma poderosa de resistência.
Luiz Fernando
Veríssimo era mestre em transformar o cotidiano em literatura com humor,
inteligência e sensibilidade. Tomei a liberdade de enumerar alguns trechos
curtos e marcantes de suas crônicas, que mostram bem seu estilo inconfundível:
Sobre fé e pudim
“O pudim de laranja é
a única prova convincente da existência de Deus. Além da Patrícia Pillar,
claro.” “De Veríssimas”.
Sobre política e
ingenuidade
“A Velhinha de
Taubaté’ era a última brasileira que ainda acreditava no governo.” — de “A Velhinha de Taubaté”, personagem
recorrente em suas crônicas.
Sobre o cotidiano e o
absurdo
“Digamos que eu fique
preso num elevador com a Luana Piovani. Depois de dez, quinze minutos, ela diz
‘Calor, né?’, e desabotoa a blusa…” — De “A cláusula do elevador,” crônica
sobre acordos conjugais e tentações.
Sobre futebol e paixão
“E fiquei pensando
que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais
dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que
resistiram.” — De “Não me acordem,” crônica sobre o título mundial do
Internacional em 2006.
Sobre o espelho da
vida
“O mundo é como um
espelho que devolve a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos.” —
“Frase citada pelo governador Eduardo Leite em homenagem ao autor.”
Esses trechos, meus
caros leitores da Grande Família Cão que Fuma são somente uma pequena amostra
do talento de Luiz Fernando Veríssimo para provocar sorrisos e reflexões com
poucas palavras.
O velório de Luiz
Fernando Veríssimo teve início as 14h e aconteceu no Salão Júlio de Castilhos
da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, localizado no centro de Porto
Alegre. A cerimônia se estendeu até as 16h45.
Indubitavelmente vimos
por aqui uma despedida marcada por homenagens emocionadas de familiares,
amigos, artistas e admiradores da obra do escritor, que faleceu (repetindo o
que mencionei acima), aos 88 anos em decorrência de complicações de uma
pneumonia.
O sepultamento ocorreu
no Cemitério São Miguel e Almas, também aqui em Porto Alegre, mas esse momento
de muita tristeza foi restrito aos familiares.
Título e Texto:
Aparecido Raimundo de Souza, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, 31-8-2025
Matei todos os heróis que meus filhos poderiam ter tido
[Aparecido rasga o verbo – Extra] Como acabar com os moradores de rua? Existe alguma solução viável? Sim
Como um alimento vindo dos seios
Tipo assim, quando rosnam as demências distantes
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