terça-feira, 28 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O chato de galochas

Aparecido Raimundo de Souza

EU VÍ O CARA vindo lá do outro lado da calçada, quase perto da entrada da padaria. Meu coração deu um salto para trás, tipo assim, quando a gente pisa em um cocô recém deixado por um pet de apartamento e a merda fica grudada na sola do sapato com o cachorro junto. Era ele, o Marciano Verdinho das Antenas Largas. O chato mais chato do bairro. Não o chato mau, o chato que briga com todo mundo, o chato que rouba seu lugar no estacionamento. O pior tipo: o chato bom. O que quer o bem da gente sem pedir nada em troca. O que lembra o nome da sua mãe. O que sempre tem uma paçoquinha no bolso para lhe dar. E o que, se você deixar ele abrir a boca, você perde quarenta minutos da sua vida sem nem perceber como.

Marciano Verdinho das Antenas Largas veio vindo, veio vindo, sem pedir licença chegou como sempre, de mansinho e parou do meu lado na fila do pão de queijo e já começou a falar, sem nem olhar direito para mim, como se a conversa tivesse começado três dias antes e nós só estivéssemos continuando:

— Carlos, você sabia que esse pão de queijo aqui não é pão de queijo original? Na verdade, o pão de queijo autêntico é o de Minas, aquele que tem que ter polvilho azedo. Os caras que trabalham lá dentro, no fabrico, só usam polvilho doce. Eu testei na semana passada, levei para a minha tia que mora em Timóteo, a terra do Agnaldo Timóteo e ela disse que é só uma massa de queijo com gás. Parece que a coisa vai explodir na boca se você der uma dentada mais demorada e, se duvidar, esse gesto impensado poderá levar seus dentes logo na primeira mastigada...

Eu comecei a fazer o que todo mundo na cidade colocou em prática quando o Marciano surge do nada. O “Aham automático”.

— Aham... Aham...  Que legal... Aham... Aham...

Meu pescoço já acenava sozinho, meu sorriso se fazia fixo no rosto, o tipo de sorriso que depois de cinco minutos começa a doer na bochecha, como se a gente estivesse segurando uma risada de uma piada muito ruim.

Eu olhei para o celular. Ele me olhou de volta. Nenhuma mensagem. Fingi que lia uma merda qualquer muito importante. Ele nem percebeu. Continuou firme e forte:

— Falando em Minas, eu fui lá em 2019, sabe? Já te falei. Peguei a estrada BR-381, saí de Curitiba no Paraná às cinco da manhã, parei para abastecer em um posto de gasolina em Ponta Grossa, o diesel estava três reais e dezoito centavos na época, hoje está seis e setenta, você acredita? E no caminho eu furei um pneu. Não um pneu, dois. Dois pneus. Do lado esquerdo. Na chuva. Eu troquei os dois sozinho, molhado até os ossos, levei uma hora e quinze minutos, fiz a gentileza de cronometrar, porque eu sempre cronometro essas coisas, você deve sabe como é estou certo? Eu sabia dessa história dos dois pneus na chuva. Já tinha ouvido ela umas trocentas vezes. Uma vez no natal, uma vez no aniversário do Zé do Pinguelo Murcho a outra no açougue do Nicanor, uma vez no consultório do Dr. Proxeneta, meu dentista, enquanto aguardava a vez na sala de espera. O Marciano Verdinho das Antenas Largas seguia pela vida contando as mesmas histórias para todo mundo, todo mês, com os mesmos números, as mesmas pausas no momento dos pneus furarem, e para completar o quadro lúgubre, a surrada e idêntica cara de total sofrimento que ele faz todo dia, como se tivesse acontecido ontem. Encurralado, tentei a primeira fuga.

— Nossa, que louco, Marciano — disse eu, pegando os pães de queijo que a atendente finalmente me entregou. — Paguei no caixa e enquanto esperava o troco, mandei bala;

— Bom, meu amigo, eu tenho que ir. Lembrei de um compromisso muito importante…

Ele nem piscou. Segurou o meu braço devagar, com a mão quente e macia de quem come muita paçoquinha, e continuou, como se eu não tivesse falado nada:

— Compromisso uma ova, cara. Você sempre tem um compromisso. Escuta o resto. Depois que eu troquei os pneus, eu cheguei na casa da minha tia às dezoito horas e vinte minutos. Ela tinha feito feijão tropeiro, eu comi três pratos, três, você não acredita, eu normalmente como dois, mas naquele dia eu estava com tanta fome que… seria capaz de comer duas mulheres com suas bocetas, bocas e bundas sem tirar o possante de dentro...

Tentei, desesperado, a segunda fuga. Olhei para o lado, gritei um “OI!” bem alto para uma moça que eu nunca tinha visto na vida, que passou andando na calçada oposta. A garota olhou para mim confusa, acenou meio sem jeito e seguiu andando. O Marciano Verdinho das Antenas Largas, nem virou a cabeça.

— Pois é, três pratos. E a minha tia ainda quis me dar um pote para eu levar para casa. Eu aceitei, claro, porque o feijão dela é o melhor do mundo, não tem igual, eu já tentei colocar em pratica a bendita receita “umas pares de vezes”, mas acredite, nunca deu certo. Eu acho que ela coloca um pouco de canela de jumento. Ela nega, mas eu sei que coloca, eu conheço o gosto de canela… você conhece o gosto da canela de jumento?

Meu cérebro começou a ter pensamentos pecaminosos que eu não tenho orgulho. O mais leve deles, desejei que um ladrão armado entrasse na padaria e roubasse os pães de queijo da minha mão. Eu implorei ardentemente à Cristo que fizesse desabar um pedacinho do teto, bem pequeno, só o suficiente para me dar um pretexto de sair correndo. Eu desejei mais. Ser atropelado por uma dessas bicicletas elétricas. Devagar, quase parando, só para eu cair, fingir que me machuquei um pouco, e ter a porra da desculpa esfarrapada na ponta da língua para ir à farmácia do Pereira. Qualquer coisa. Qualquer destino, menos ficar ali mais cinco minutos ouvindo sobre a canela de jumento no feijão tropeiro da tia do Marciano Verdinho.

— E o primo dela — ele continuou, e eu senti um suor frio descer pela minha espinha, porque eu sabia onde ia dar — o primo dela, que mora em Belo Horizonte, o sujeito ganhou na loteria uma vez. Doze milhões de reais. Doze. Mas o panaca perdeu o caralho do bilhete. Perdeu. No ônibus. Imaginou? Doze milhões!…

Eu vi nessa deixa a minha chance. O sinal abriu. Eu dei um passo para trás, sorri o sorriso mais falso tipo as histórias e falcatruas do Lula querendo continuar mamando nos colhões da presidência e disse rápido, quase sem respirar:

— Nossa, que incrível, Marciano Verdinho, mas realmente eu tenho que ir, a minha mãe está esperando eu levar os pães, ela tem pressa, a gente vai almoçar na casa de um tio meu, foi muito legal te ver, até mais!

Eu virei e saí andando rápido. Parecia um rato assustado fugindo de um gato. Não corri, porque não queria parecer grosso, mas andei naquela velocidade de quem está quase correndo, o passo afervorado, o coração batendo forte querendo sair como uma cagada de dor de barriga inesperada batendo na porta do olho do cu, os pães de queijo queimando a palma da minha mão dentro do saquinho. Quando eu cheguei na outra banda da calçada, estanquei, respirei fundo, olhei para o céu e agradeci. Livre. Finalmente liberto. Eu tinha escapado.

Foi quando ouvi o grito, do outro lado da rua, tão alto e troante que todo mundo que estava na porta da padaria virou a cabeça:

— EI! ESPERA! EU ESQUECI DE CONTAR O RESTO DA HISTÓRIA DO PRIMO! DEPOIS QUE ELE PERDEU O BILHETE, O INFELIZ…

Eu não ouvi o resto. Saí andando mais rápido ainda, virei a esquina, entrei no corredor de casa, e só parei quando eu tive certeza que ele não tinha vindo em meu encalço. Fiquei ali, encostado na parede, respirando ofegante, os pães de queijo ainda quentes, e pensei: o pior do sujeito chato não é o que ele fala. Não é a história repetida, tampouco não é a opinião sobre tudo. De roldão não é o fato de ele saber o preço do diesel em 2019. O pior, o que mata, é que ele é bom. Ele não faz por mal. Ele não quer incomodar. Ele acha, de verdade, que a gente está pra lá de interessado. Que a gente quer saber da canela no feijão, dos dois pneus na chuva, do primo que perdeu doze milhões. Ele acha que somos amigos. Que aquela conversa é o melhor momento do dia dele. E por isso a gente não pode dizer: “Cala a boca, Marciano. Eu não ligo. Ninguém liga.” Ninguém pode. Ninguém pode, porque ele me dá sempre que nos encontramos, um pote de doce de goiabada que a mulher dele fez. Porque ele pergunta da minha cirurgia da próstata, um ano depois, quando ninguém mais lembrava e ele queria saber se eu continuava bom de cama ou se na hora da foda com a minha namorada, meu pau negava fogo. Porque ele é, no fundo, só um cara que não tem ninguém para ouvir as suas repetências.

E ontem, eu estava reclamando do Marciano da Anteninha Larga para o meu amigo Júnior, num bar. Contei tudo. A história do pão de queijo, dos pneus, do grito que dei para a graciosa que passava do outro lado da rua. Contei por quarenta minutos. Quarenta. Quando eu finalmente parei, bebi um gole de cerveja, e olhei para o Júnior. Ele estava olhando para o relógio. Mexendo no celular. O mesmo sorriso dorido na bochecha que eu sempre faço quando me encontro inopinadamente com o Marciano. E ele disse, devagar, sem me olhar direito:

— Nossa, que louco, amigo Carlos. Bem, eu tenho que ir. Um compromisso inadiável...

Eu fiquei ali parado, com o copo de cerveja na mão. E entendi tudo. O Marciano da Anteninha Larga não é uma exceção. Ele é o espelho. Todo mundo tem um Marciano na vida. Todo mundo foge de um Carlos com seus pães de queijo. E todo mundo, em algum momento, para alguém, é o Marciano travestido de Carlos.

Hoje de manhã eu o vi de novo na padaria. Ele veio na minha direção. Eu não fugi. Parei. Dei um sorriso de verdade, não o que dói. E ele abriu a boca:

— Você sabia que esse café aqui… na verdade, o café bom é o do Cerrado Mineiro? Você sabia esse aqui é só uma mistura com café da África. Eu testei semana passada…

Eu fiz como sempre, o “aham”. O aham automático. E deixei ele falar...

Porque um dia, eu vou ser o velho que conta as mesmas histórias sete vezes sete. Que segura o braço do cara na fila do pão. Que grita do outro lado da rua o final da história do primo. E eu espero, de todo meu coração, que alguém tenha paciência de fazer o “aham” para mim...

Mesmo que o sorriso, puta que pariu, mesmo que o sorriso esteja doendo forte nas curvas do meu rosto com cara do mais perfeito imbecil.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 28-7-2026

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