sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Ninguém acusou André Mendonça de nada. E é justamente esse o problema

Lênin descreveu esse método há mais de um século. Ele continua funcionando perfeitamente no Brasil

Rogerio Pires 

Você desliza o dedo pela tela e a manchete passa de relance: “Flávio Dino proíbe a Polícia Federal de investigar André Mendonça.” Meio segundo de leitura, talvez menos. E, sem perceber, você já escolheu um dos dois caminhos. 

O primeiro é o caminho gentil. Que colega solidário. Dino protegeu Mendonça de um constrangimento. 

O segundo é o caminho que interessa. Espera aí: por que a Polícia Federal estaria investigando um ministro do Supremo? Pronto. Ninguém acusou ninguém de nada. E a suspeita já está de pé, andando sozinha pela sua cabeça. 

Vamos aos fatos, que são poucos e simples. Dino determinou nesta quinta-feira que a Polícia Federal e a CVM investiguem a suposta relação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com as concessionárias que administram o serviço funerário de São Paulo, depois que reportagens revelaram um encontro entre Vorcaro e André Mendonça em março de 2025. Na mesma decisão, ele escreveu que “é vedado qualquer ato investigativo que possa atingir o ministro André Mendonça”, porque isso compete ao presidente do STF. 

Tecnicamente, está correto. Juridicamente, está correto. E é exatamente por isso que o detalhe importa. 

Em 1917, Lênin escreveu um artigo curto chamado “Political Blackmail” (Chantagem política). A definição dele é cirúrgica: expor, ou ameaçar expor, histórias verdadeiras e mais frequentemente inventadas, com o objetivo de causar dano político ao adversário. 

Cento e nove anos depois, o mecanismo continua intacto, e ele nunca precisou de uma acusação para funcionar. Precisa de três coisas apenas: um nome, uma palavra pesada ao lado desse nome, e um jornal para carregar os dois juntos até a mesa do café da manhã do país inteiro. 

Agora preste atenção no que me chamou a atenção. 

Dino não precisava fazer aquele alerta. A Polícia Federal sabe perfeitamente que não pode investigar um ministro do Supremo por conta própria, ignorando as regras de competência. Isso é o abecedário do processo penal brasileiro. Não é notícia, não é novidade, não é risco iminente. 

Mas o nome foi escrito. Por extenso. André Mendonça.

 Não houve acusação. Não houve denúncia. Não houve condenação. Houve apenas a proximidade tipográfica entre um nome e um conjunto de palavras: Polícia Federal, investigação, banqueiro preso, cemitérios, dinheiro. E quando a imprensa embrulha tudo isso numa manchete de seis palavras, o serviço está completo, e ninguém precisou sujar as mãos. 

Eu já vi esse filme antes. Vimos esse mecanismo de associação rodar durante anos contra Bolsonaro, e contra tanta gente que nunca se sentou no banco dos réus, mas que passou a carregar uma dúvida permanente colada ao sobrenome. A dúvida é mais barata que a prova e dura muito mais tempo. 

O ponto não é decidir aqui se Mendonça errou ou acertou ao receber quem recebeu. Isso será apurado, e deve ser apurado, e eu quero ver apurado. O ponto é entender como a sua opinião sobre ele foi formada antes de qualquer apuração existir. 

Porque existe uma forma muito eficiente de destruir a reputação de um homem público, e ela não exige provas. Não é preciso dizer que ele é culpado. 

Basta fazer o público se perguntar se ele é.

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 18-9-2026

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