sexta-feira, 18 de setembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O sofazinho azul, o dedinho polegar na boquinha e o olhar perdido num lugar que eu nunca descobri onde ficava...

Aparecido Raimundo de Souza

EU NÃO ESTAVA no encalço dela. Nem pensando em procurá-la. O destino, que às vezes gosta de pregar peças que doem e machucam, foi quem nos colocou frente a frente, ali, no meio do aeroporto. Eu chegava para embarcar destinado ao Rio de Janeiro, ela estava sentada numa cafeteria, com o uniforme impecável, aquela farda que ela tanto sonhou usar. Quando escrevi uma crônica sobre isso, lhe dando os parabéns, ela não gostou do texto publicado e me bloqueou.

Por conta disso, dois anos sem me ver. Sem trocarmos uma palavra. A minha menina mudou de vida, de cidade, foi morar em São Paulo. E ali, assim do nada, ela estava ali, alguns passos de mim, ao lado do namorado, também piloto, os dois falando baixo, como se o mundo deles fosse só deles. E, na verdade, era.

Eu, assustado, pego assim de súbito, me escondi. Fui tomado por uma vergonha que me paralisou os passos. A presença dela, ao mesmo tempo em que me gelou o sangue, me entristeceu a alma, ao passo em que uma onda inexplicável de saudade adormecida e incondicional aumentou de tamanho.  Sem ação, fiquei ali estático, preso ao chão, observando de longe, e de repente o aeroporto inteiro (com todas as pessoas que transitavam de um lado para outro), sumiu.

Por conta disso, o barulho das falas se calaram e eu voltei um bocado de anos no meu tempo, como se alguém tivesse puxado um fio invisível e me transportado de volta. E nesse regresso, me deparei com a minha menininha e seus cinco anos, sentada num sofazinho azul que comprei só para ela. Amanda tão pequena, tão frágil, e já nessa idade com um olhar que ia longe, muito além do que eu conseguia entender.

Lembrei do dia em que fui embora. Veio à mente o dia que deixei ela e a mãe e parti com outra mulher. Fui covarde, fui egoísta, fui tudo de ruim que um pai não deveria ser. Fiquei longe, muito tempo, perdido em caminhos que não eram os meus. E quando voltei, não sei quanto tempo depois, esperava encontrar raiva, silêncio, talvez um portão fechado. Mas ela não me esqueceu. Me aceitou.

Como se o amor de uma filha fosse maior que todos os erros e desacertos do pai desalmado. Dentro de seu coraçãozinho de filha abandonada, ela me aceitou, me perdoou à sua maneira infantil. Eu nunca soube merecer esse perdão. Nunca soube também agradecer direito, como deveria. E ali estava ela, agora uma mulher feita, voando mundo afora, dono de um destino grandioso que eu não ajudei a construir.

Senti um peso no peito, uma vergonha infame que me queimou por dentro. Meu Deus, ver ela ali, a minha menininha tão perto, e não ter coragem de chegar, de falar, de apenas perguntar: “Você está tristinha?”. Era essa a indagação que eu sempre fazia quando ela tão pequena e frágil, sentada no sofazinho azul se fazia perdida com os olhinhos em algum lugar.

E ela, sem resposta, calada, o dedinho polegar esquerdo na boquinha, ficava olhando para um ponto fixo, certamente um vazio imensurável, um lugar que eu nunca consegui enxergar, ou seja, um pedaço sequer desse desconhecido onde ela, na sua inocência se refugiava quando o mundo, o seu mundinho ainda em formação pesava sobre o que não entendia. Eu nunca soube o que ela via tão compenetradamente.

Mesmo trilho, jamais consegui penetrar ou atinar com o que pensava, ou o que sentia, naqueles silêncios longos de ausências indecifráveis. E hoje, vendo ela ali, bonita, forte, vestida de asas, eu entendi: aquela menina que chupava o dedinho e olhava para o “tão longe”, estava, desde sempre, ensaiando um dia voar. E eu, que deveria ter sido o chão dela, ou uma asa segura, ou o céu, fui o primeiro a sair do seu lado. Eu não fui até ela no café do aeroporto. Não tive coragem.

Deixei que ela partisse com o namorado, que sumisse entre as pessoas. Eu fiquei ali. Permaneci estático, preso ao chão das lembranças de um ontem amargo com as recordações do sofazinho azul e do olhar de uma menina que nem sei se me perdoou como pai antes mesmo que ele soubesse o que de fato seria pedir perdão. E agora, ela livre, leve e solta, voa alto, cruza os céus, e eu, meu Deus, eu fiquei aqui, paralisado amarrado, anestesiado no chão do aeroporto.

Me pus investigando compridamente para o mesmo ponto que ela olhava, perdida, distanciada, tentando na minha insanidade ver, só por um instante, o que ela realmente enxergava. E pior, me empenhando de alguma forma em entender onde foi que eu perdi o direito de como pai, voltar a segurar a mãozinha dela e estreitá-la no calor do meu coração vazio. Um tempo obumbrado que bem sei, não me retorna mais.  

Título e Texto; Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 18-9-2026       

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