Humberto Pinho da Silva
Escreveu Manuel Bernardes in "Nova Floresta", que D. Afonso, Rei de Aragão, nunca negava favores a quem dizia mal dele.
O estranho procedimento
fez cogitar cortesão, amigo de Sua Majestade, a ponto de o levar a questionar a
razão de assim proceder, porque lhe parecia irracional.
Respondeu-lhe D. Afonso, em
modo de quem ensina bom conselho: "Aos cães deixa-se sopa, para que não
ladrem nem mordam".
Assim, quantas vezes os
inimigos recebem benesses que se negam aos validos.
Estando em Cascais, a
almoçar com industrial, homem de sucesso, contou-me o seguinte durante o
repasto:
«Havia uma fábrica que
estava à venda a preço irrisório, porque os trabalhadores faziam tantas greves
e guerrilhas, que a levaram quase à falência.
Soube da causa, de fonte
segura. A agitação era provocada por sindicalista que, de megafone em punho,
proferia severas verrinas contra tudo e contra todos.
Mesmo assim, comprei-a! – Continuou, – e logo verifiquei que o que se dizia era pura verdade.
Resolvi, então, chamar o
zaragateiro sindicalista ao meu gabinete, e de modo manso e cortês, disse-lhe: ”A fábrica anda dirigida por incompetentes. Os
lucros diminuem a olhos vistos. Preciso de quem ponha cobro ao descalabro.
Soube que possui ótimas ideias de trabalho. É dinâmico e inteligente, lembrei-me
de o nomear chefe do pessoal, com plenos poderes. Claro, com vencimento
compatível.”
Era de ver, meu amigo,
como o rebanho acéfalo não se cansava de obrar! Murmuravam, é verdade, mas não
mordiam...
Era um gosto vê-los
trabalhar! O Che Guevara falava inflamado, em termos revolucionários.
Dizia-lhes em tom de comício:
"Agora vale a pena
aumentar a produtividade, porque se a empresa tiver mais lucro, pagará
melhor!..."»
Deste modo agem os
empresários e os diretores de empresa, até chefes de serviço, se querem manter
os cargos, e subir na hierarquia da firma: atiram aos agitadores um osso, para
que não mordam nem ladrem.
Bem diziam os nossos
velhos: "Queres conhecer o vilão? mete-lhe a vara na mão”.
Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, setembro de 2026
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