quinta-feira, 17 de setembro de 2026

[Daqui e Dali] Ótimo conselho do Rei de Aragão

Humberto Pinho da Silva

Escreveu Manuel Bernardes in "Nova Floresta", que D. Afonso, Rei de Aragão, nunca negava favores a quem dizia mal dele.

O estranho procedimento fez cogitar cortesão, amigo de Sua Majestade, a ponto de o levar a questionar a razão de assim proceder, porque lhe parecia irracional.

Respondeu-lhe D. Afonso, em modo de quem ensina bom conselho: "Aos cães deixa-se sopa, para que não ladrem nem mordam".

Assim, quantas vezes os inimigos recebem benesses que se negam aos validos.

Estando em Cascais, a almoçar com industrial, homem de sucesso, contou-me o seguinte durante o repasto:

«Havia uma fábrica que estava à venda a preço irrisório, porque os trabalhadores faziam tantas greves e guerrilhas, que a levaram quase à falência.

Soube da causa, de fonte segura. A agitação era provocada por sindicalista que, de megafone em punho, proferia severas verrinas contra tudo e contra todos.

Mesmo assim, comprei-a! – Continuou, – e logo verifiquei que o que se dizia era pura verdade.

Resolvi, então, chamar o zaragateiro sindicalista ao meu gabinete, e de modo manso e cortês, disse-lhe:  ”A fábrica anda dirigida por incompetentes. Os lucros diminuem a olhos vistos. Preciso de quem ponha cobro ao descalabro. Soube que possui ótimas ideias de trabalho. É dinâmico e inteligente, lembrei-me de o nomear chefe do pessoal, com plenos poderes. Claro, com vencimento compatível.”

Era de ver, meu amigo, como o rebanho acéfalo não se cansava de obrar! Murmuravam, é verdade, mas não mordiam...

Era um gosto vê-los trabalhar! O Che Guevara falava inflamado, em termos revolucionários. Dizia-lhes em tom de comício:

"Agora vale a pena aumentar a produtividade, porque se a empresa tiver mais lucro, pagará melhor!..."»

Deste modo agem os empresários e os diretores de empresa, até chefes de serviço, se querem manter os cargos, e subir na hierarquia da firma: atiram aos agitadores um osso, para que não mordam nem ladrem.

Bem diziam os nossos velhos: "Queres conhecer o vilão? mete-lhe a vara na mão”.

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, setembro de 2026  

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