Olavo de Carvalho
Todo mundo sabe que os dias
que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas
as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do
trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às
compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e
recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que
qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e
decepcionante na vida humana.
Movidos pelo automatismo dos
lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a
agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter
prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que
sonham criar à sua própria imagem e semelhança.
No entanto, nada expressa
melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse
pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.
É um simbolismo eterno que se
repete nos fatos materiais da vida.
Os dias que precedem o Natal
são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a
bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.
Um Deus vai nascer. O mundo
treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.
Não poderiam ser dias felizes.
São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste,
porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus
vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de
um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E
ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais
insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo
que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a
hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser
caçado.