quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O genocídio

Henrique Pereira dos Santos

Antes do escrito: Ana Sá Lopes tem hoje uma crónica delirante (o contrário é que seria de estranhar) no Público em que faz uma coisa habitual no jornalismo militante: pega na declaração de Montenegro de que não quer ser o pai da austeridade, que se refere, evidentemente, ao gasto público imprudente do governo de Sócrates, e diz que Montenegro está a chamar pai da austeridade a Passos Coelho. Logo que vi a declaração de Montenegro, apesar da sua interpretação ser linear e simples, disse para os meus botões que não tardaria a ser acusado de estar a chamar pai da austeridade a Passos Coelho. Delirantes, ainda vá, frequentemente até é divertido. Mas não podiam ser um bocadinho menos previsíveis? 

Falemos então do genocídio em curso, levado a cabo pelos Israelitas para eliminar os palestinianos. 

Comecemos num ponto arbitrário, o momento da fundação do Estado de Israel, em que haveria cerca de 630 mil judeus e 1,3 a 1,4 milhões de árabes a que poderemos chamar palestinianos (havia ainda uma minoria relevante de cristãos). 

De acordo com os mais radicais defensores da ideia de genocídio em curso, desde esse momento que Israel vem executando um genocídio, que se traduz hoje na existência de cerca de 14 milhões de palestinianos em todo o mundo, incluindo os cerca de 1,7 milhões em Israel, três milhões e picos na Cisjordânia, dois milhões e picos na faixa de Gaza e três milhões e picos na Jordânia que anexou parte da Palestina histórica há uns anos largos). 

Mas isto é contra a vontade de Israel, argumentar-se-á. 

Talvez, mas dentro de Israel havia uns 150 mil palestinianos, depois da guerra da independência, e hoje são dez vezes mais e Israel reconhece-lhes todos os direitos cívicos e políticos. 

A Faixa de Gaza foi administrada por Israel depois da guerra dos seis dias (nos trinta anos anteriores tinha sido administrada pelo Egipto), durante quase quarenta anos, até Israel retirar unilateralmente, entregando o governo da Faixa de Gaza a palestinianos. 

Uma oportunidade de ouro para executar um genocídio como deve ser, visto que dentro das fronteiras de Israel o genocídio terá falhado: nestes quase oitenta anos a população árabe de origem palestiniana multiplicou-se por dez. 

Pois bem, Israel ocupou uma Faixa de Gaza com cerca de 400 mil palestinianos e devolveu-a com cerca de 1,3 milhões de habitantes, um evidente fracasso do genocídio que multiplicou a população inicial por três, em vez de diminuir, como acontece num genocídio competente. 

Argumentar-se-á que Israel mudou de ideias depois de tranquilamente suportar chuvas de projécteis lançados a partir de Gaza sobre os seus civis e ser atacado no seu território pelo Hamas, e agora é que está mesmo determinado a executar um genocídio. 

Depois de dois anos de guerra, a população em Gaza terá diminuído uns 3%, sobretudo devido à migração dos que, tendo dupla nacionalidade, aproveitaram para procurar melhor vida fora daquele vespeiro, não parece um resultado à altura da maldade intrínseca de Israel, é certo, mas note-se que isto é só um começo. 

Mesmo depois de um cessar fogo (que pressupõe o desarmamento do Hamas, pedido pela própria Autoridade Palestiniana, o Hamas não entregou nem uma fisga) Israel continua a matança: desde a assinatura do cessar fogo, o Hamas contabiliza umas cinco mortes diárias, em média, provocadas por Israel. 

É a prova provada de que Israel prossegue um feroz genocídio, e nem o facto de nascerem 130 crianças todos os dias consegue compensar a morte diária de cinco combatentes do Hamas que Israel persegue na sua sede de genocídio. 

O boneco acima, que sobrepõe a estrutura etária e por sexo da população de Gaza, com a estrutura etária e por sexo da mortalidade (sim, os dados são do Hamas) demonstra, de forma clara, para quem for cego, uma prática constante orientada para o genocídio.

Como se pode ver, há um evidente desequilíbrio da estrutura etária e por sexo da mortalidade: as mulheres jovens morrem muito menos, tal como as verdadeiras crianças (neste caso, faixa etária até aos catorze anos), sejam homens ou mulheres. 

Já as crianças a partir dos 15 anos, se forem do sexo masculino, morrem muito mais do que seria de esperar, apresentado um desequilíbrio especialmente relevante entre os 15 e os 50 anos, ou seja, a mortalidade afecta especialmente as faixas etárias e sexo dos combatentes, que incluem as crianças masculinas a partir dos 15 anos. 

Que estranho genocídio está para ali em curso.

Título, Imagem e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 21-9-2026

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