Paulo Hasse Paixão
Há um amplo conjunto de
imbróglios políticos e sociais relacionado com a propaganda regimental no
Ocidente, sempre que tenta mobilizar as massas para a guerra com a Rússia.
No caso deste artigo da BBC, dá vontade de perguntar: quando se coloca em dúvida se “nós” estamos psicologicamente preparados para a guerra, que “nós” é este?
O pronome da primeira pessoa
do plural não pode certamente incluir os cidadãos de “extrema-direita”,
negacionistas-racistas e inimigos do Estado, que o regime britânico prende ao
ritmo de 34
infelizes por dia. Não se pode esperar destas pessoas desprezíveis que
estejam psicologicamente preparadas para uma guerra inventada pelas elites que
as desprezam, ou que vão combater em nome de quem as encarcera a torto e a
direito por delito de opinião, certo? Ainda assim, trata-se de uma boa fatia da
população (na verdade todos os que têm objecções às políticas de imigração e
asilo do Reino Unido). Vamos estimar, de forma muito conservadora, considerando
por exemplo as sondagens
que colocam o Reform UK no topo das preferências eleitorais no país, em 25% dos
britânicos.
Depois, temos os cidadãos de “extrema-esquerda”, uma boa parte daqueles que votam trabalhista, que votam no YouParty de Jeremy Corbyn e noutros pequenos partidos comunistas e socialistas que existem na Grã-Bretanha. Não serão estes com certeza que o regime pretende engajar para a união cívica e o voluntarismo militar: ou têm viva simpatia pelos russos (muitas vezes decorrente de uma equivoca nostalgia soviética) ou puro nojo do país em que nasceram. Num ou noutro caso, não são propriamente os recrutas ideais para carne de canhão. Constituem seguramente uns bons 20% da população total e aqui já temos quase metade da base de recrutamento completamente anulada.
O segmento demográfico
seguinte será o dos imigrantes. Indianos, paquistaneses, bangladésios;
srilankeses; vietnamitas, magrebinos, palestinianos, libaneses,
centro-africanos, sul-africanos, caribes, sul-americanos, polacos, albaneses e
etc. Vai talvez ser complicado convencer esta gente, cuja pátria fica do outro
lado do mundo, da boa ideia que é morrer pelo Rei Carlos, por causa do Rei
Carlos antipatizar com Vladimir Putin. Afinal, trata-se de um arrufo entre
cristãos e quantos mais desses arrufos melhor para grande parte desta multidão
que de cristã não tem nada a não ser aversão. Como a maior parte dos albaneses
são muçulmanos, será somente possível recrutar alguns polacos e uns tantos
libaneses, dificilmente uma patrulha de jamaicanos, e inutilmente os sul
americanos, que não vieram de certeza para o Reino Unido para morrerem
parvamente na Ucrânia. Na verdade, o recrutamento obrigatório que se adivinha
para vários países da esfera WEF funcionará, inadvertidamente, como um método
de autodeportação: a partir do momento que a malta estrangeira perceber que
pode dar com as costas num buraco do Donbas, voltará toda contente para a
geografia de onde é proveniente. Neste contexto, calculo que teremos que
projectar aqui uns bons 15% da população britânica que é impossível mobilizar
seja para o que for, quanto mais para ser consistentemente rebentada pela
máquina de guerra russa.
A seguir temos os liberais
(que votam no Partido Liberal, no Partido Trabalhista e no Partido Conservador,
dependendo do estado de espírito). Estes não têm dúvidas de que vivem no melhor
dos mundos, nem hesitam quanto à malignidade insustentável de Moscovo e da
ameaça que representa para as suas prósperas e simpáticas vidinhas, porque lêem
o The Independent como uma espécie de evangelho e são incapazes de pensar pela
sua própria cabeça. O problema aqui é que os liberais estão de tal forma
confortavelmente instalados na sociedade que dificilmente alguém os convence ao
desconforto da guerra. A noção de sacrifício de um liberal é a de que alguém,
que não ele, o terá que fazer. Aos 60% de inviáveis soldados que já contámos,
vamos colocar aqui mais 10%.
Por fim, temos os
indefectíveis do regime, votem eles trabalhista ou conservador, porque estão a
votar sempre na mesmíssima coisa. São os 30% da base de recrutamento que sobra.
Uma boa fatia destes seres corporativos estão de facto preparados psicologicamente
para a guerra com a Rússia, porque os seus cérebros foram eficientemente
lavados pelas máquinas de hipnose globalista-leninista do Etton College, de
Oxford e de Cambridge, mas não serão eles, em definitivo, que vão morrer nas
trincheiras do extremo leste da Europa. São funcionários públicos, jornalistas,
lobistas, médicos, arquitectos, políticos, economistas, banqueiros, dirigentes
empresariais, aristocratas, enfim, a fauna que infesta as classes altas
britânicas: têm mais que fazer. Ninguém lhes vai pedir para pegarem numa
metralhadora, apesar de serem experientes atiradores de domingo, no ritual do
tiro ao pato e ao prato que cumprem por dever cívico na companhia de duques e
lordes, nos majestáticos cenários ‘Downton Abbey’ da coisa. Esta é a gente que
manda os outros para as guerras que fabrica, ponto final parágrafo.
Assim sendo, e respondendo à
pergunta passivo-agressiva do colunista da BBC, não, os bifes não estão
preparados de forma alguma para a guerra com a segunda maior potência militar
do mundo. Nem psicologicamente, porque não têm consciência do que é a guerra e
dos seus horrores; nem animicamente, porque foram despojados dos valores da
nação ou valorizam uma nação alheia; nem politicamente, porque foram
hostilizados pelo regime e são agora seus ressentidos adversários; nem
militarmente, porque o Reino Unido desistiu há muito tempo de ter forças
armadas que sejam levadas a sério.
Título, Imagens e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 23-9-2026

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